Gostaria de ter mais tempo para ler meus livros, para encontrar coisas boas e besteiras na Internet, para escrever, para atualizar esse blog, para ver um filminho de categoria e, mais do que tudo no mundo, queria ter mais tempo para nada fazer, nada mesmo. Mas estou sempre tendo que fazer alguma coisa. Não sei se é porque preciso sobreviver com três filhos ou simplesmente não enxergo a saída da máquina de moer carne da vida dita “moderna”.
Uma simples listagem das coisas que andei fazendo essa semana me irrita e arreta. Na maior parte do tempo, fui secretário de Comunicação de Olinda, mas de vez em quando visto a carapuça de pai, faço um frila reescrevendo um texto para o Unicef da Amazônia ou assumo a função de escriba daquele projeto do Funcultura do qual falei há alguns dias. E, agora, cansado, doido para chegar em casa e fazer uma salada para minha Geórgia, cá estou atualizando esse blog, coisa que não consegui fazer no meio da correria da semana (do Blog do Santinha, praticamente desisti, cansei de me repetir).
Ainda não passei da página de 70 do meu livro de estreia no mundo de Gore Vidal e não tive tempo de remexer minha memória para falar do grande Nelson Rodrigues, um dos poucos autores cuja obra li quase toda e que é o primeiro da fila para as próximas postagens. Pra não deixar meus poucos leitores (uma média de 35 por dia) desistirem do Caótico, vou explicar as razões de ter incluído alguns blogs e sites no meu de sugestões, recomendações e dicas, aí do lado direito da tela.
Um desses blogs é o Espalitando Dente, de um tal de Paulo Bono (no desenho acima), baiano, publicitário de uns 30 anos de idade, “gordo, careca e preguiçoso”. Ele é quem diz.
Abro um parênteses. Essa sinceridade do perfil de Bono me fez lembrar que também sou preguiçoso, muito preguiçoso, o que não combina com a quantidade tarefas, trabalhos e missões que assumo. Acho que estou me violentando com tudo isso. Agora fudeu, fiquei triste. Fecha parênteses antes que eu chore.
Até há uns 20 dias, nunca tinha ouvido falar desse cara. Foi o muitas vezes citado Samarone que me mandou um e-mail com um linkizinho para o blog de Bono. Agora, divido essa dica aqui no Caótico.
Bono é sarcástico, debochado, cruel e, o melhor de tudo, politicamente incorreto. Irreverente, diriam os antigos. No alto do seu blog, ele avisa que “isso aqui não é literatura”. Bobagem. Ele é um puta cronista, o parágrafo inicial do texto 1996 não deixa dúvidas a esse respeito.
Seu texto é de um sujeito que não hesita em usar e abusar da linguagem visceral e mal educada das ruas, o idioma de gente que não aceita a polidez, a assepsia e a falta de molho com que se fala nos capítulos das novelas, nas revistas semanais e nas reuniões de gente respeitável. Ele manda tomar no cu e pronto, tá mandado.
Paulo Bono é um escroto, no sentido pernambucano do termo.
Outro blog excelente, que felizmente também não faz parte de grande portal nenhum, é o de Milton Ribeiro (foto), de quem já copiei um texto sobre Crime e Castigo por aqui. Copiei com os devidos créditos, é bom que se diga.
O foco do blog de Milton é outro. Ele é um sujeito que ama os livros, ensina como roubá-los em grandes livrarias, é apaixonado por cinema. Deve ser um sujeito metódico, com certa vocação para contabilista, pois em seu perfil ele confessa que tem anotado todos os livros que leu, ano por ano, mês por mês. A mesma coisa ele faz com os filmes. Esse ano já viu 43, não sei se no cinema ou se em DVD pirata, como eu faço e recomendo.
Tenho inveja de Milton – a quem também não conheço, nem ele a mim. Tantos filmes, tanta precisão, sugerem tempo para fazer a cabeça funcionar melhor, aquela mercadoria em falta na minha vida.
Milton parece ser um cara com uma experiência de leitura mais clássica, um erudito que passou distante da pieguice. Ele também é irônico, porém mais sutil do que Bono. Ah, Milton tem em seu currículo algo digno de nota: está sendo processado por ter feito em seu blog críticas públicas a um texto publicado por uma personalidade pública, uma moça que é autora de um livro que foi adaptado pela Globo. Simpatizo muito com esse sujeito.
8 Comentários
Inácio,
vivo em Porto Alegre, sempre me movimentando entre o urgente e o necessário(só não sei bem o que, pq, para quem!?), pois bem, hoje conversando com um camarada lembrei de um texto que rodou pela internet em 2006. Apelei para o ‘oráculo’ Google e plim! Lá estava ‘o amor do meu voto’. Imprimi, entreguei em mãos deste amigo e contei a ele rapidamente o seguinte episódio. Em 2006 estive colaborando com a campanha para o senado pelo RS, do Miguel Rossetto, que naquela oportunidade acabara de deixar o MDA. Alguém me envia teu texto, fico comovida, imprimo e passo pra ele , Miguel. De minha sala o vejo atento lendo e logo após tirando o óculos e limpando os olhos. Naquele dia falamos todos sobre a representação do que havia ali. Hoje quando reencontrei teu texto, foi através de um blog e pude ali ler que a coisa ficou ‘grandona’, inclusive passando pelo Presidente. Esta breve passagem é mais uma para ti, para as tantas que deves ter envolvendo o amor de teu voto…Miguel Rossetto não se elegeu senador, os conservadores triunfaram mais uma vez, mas segue fazendo a boa política, para os pequenos, os miúdos…enfim Era isso seu moço.Uma história fora de tempo, mas que surgiu aqui, hoje nesta sala do Parlamento do Rio Grande do Sul.
Abração afetuoso
Rose
Inácio,
vá desculpando, mas, daqui do plantão de sábado no DP, às voltas com vacinação contra a paralisia infantil, um assassinato em Rio Doce e um terremoto na China, a única coisa que posso lhe dizer é: não há escapatória, meu velho. Vida de assalariado será sempre assim, correndo atrás (do quê, mesmo?) e sempre chegando atrasado, como aquele coelho de Alice.
Ou você encontra algum prazer nisso ou tá lascado.
Abraços,
Vandeck
Lendo o o comentário de Rose, me veio à tona o texto ‘o amor do meu voto’, fechei os olhos e me lembrei quantas pessoas vi com olhos marejados lendo seu texto. Tenho certeza que ficou para a história.
ah, vou tentar atualizar o blog na próxima quarta ou a próxima quinta-feira. Depois, viajarei para Araguaína (Tocantins). Vou para o aniversário de 7 anos da minha filha Jujuba. Não sei como é a internet nesse fim de mundo…
Só pelo comentário da Rose, está tudo certo.
Saludos, compadre.
Sama
ps. quando ao presente, creio que Dostoievski não é realmente um de teus preferidos, certo?
(já escrevi isso tudinho antes, mas acabo de descobrir que cometi a proeza de não conseguir comentar no meu próprio blog…)
Para Rose:
“O amor do meu voto” me rendeu um encontro com Lula em sua sala, no Planalto, e duas fotos com o presidente, que servem para eu me amostrar que só a gota-serena. E agora que tô sabendo que fiz Miguel Rosseto chorar, vou me amostrar mais ainda. O texto também serviu para mudar minha relação com a internet. Seu comentário, aliás, além de me espantar+emocionar, confirma o poder mobilizador da rede.
Apareça aqui no Caótico de vez em quando. A casa agradece.
*****
Para Vandeck:
plantão na redação? é, minha vida até que não tá tão ruinzinha assim… vou parar de reclamar de barriga cheia.
Tô devendo um texto sobre o livro de Josué de Castro, não é? qualquer dia eu te pago. Obrigado, meu velho!
*****
Sama,
o presente em espanhol tem algo a ver com o velho russo?
Relaxem…
O Carnaval já está alumiando
Enquanto isso na sala de Imprensa….
Fofoca: Sabia que o Bono é a pessoa mais certinha que existe no globo terrestre? Se não sabia fica sabendo. Acho que ele se torna muito melhor cronista por conta disso.
Tem mais é que se amostrar e ainda pedir confetes e serpentinas…..rsrsrsr
Abraços,
Yvette (diretamente da Bahia)