Em meados do ano passado fiz uma promessa, ou melhor, um acordo comigo mesmo. Acertei que não compraria nenhum outro livro enquanto não lesse os vários e vários títulos ainda virgens que tenho nas estantes da sala, do corredor e do quarto.
Durante um rasgo de lucidez, verifiquei que continuar comprando livros sem dar vencimentos naqueles que já fazem parte da minha modesta biblioteca era um comportamento consumista. Um impulso de comprar, de possuir um objeto desejado, algo tão patético quanto ficar endividado por causa de sapatos, celulares com 8.534 recursos tecnológicos inúteis, ou vestidos de grife.
Durante alguns meses permaneci invulnerável em meu compromisso. Resisti a lançamentos, noites de autógrafos e resenhas sedutoras publicadas em revistas ou na web.
Até que, cortando caminho pelo mercado de Casa Amarela numa tarde de sexta-feira, passei no meio de um sebo instalado numa das barracas da feira. Tinha tempo livre, então uma paradinha para dar uma olhada nos títulos não faria mal a ninguém. No meio de um monte de auto-ajuda, livros técnicos de engenharia e romances açucarados, havia um belo exemplar de capa dura de Conversa na Catedral. Preço: R$ 5,00. Deve ser mais ou menos o quanto vale também minha fraca personalidade.
Ego, id, alter-ego, consciência e subconsciente entraram num confronto tão rápido quanto violento, mas chegaram a um acordo. Cedi, mas mantive a promessa: não compraria nenhum livro novo enquanto não lesse os que já tenho. Observe a palavra “novo” na frase anterior: isso significa que poderia comprar livros usados, como era o caso do Conversa na Catedral em questão. Comprei o livro e me perdooei.
As coisas se complicaram há uns dois meses, quando descobri o site Estante Virtual enquanto fuçava na internet. Trata-se de um portal de uma rede de 1.400 sebos espalhados pelo Brasil todo, com mais de 21 milhões de volumes à venda. A concorrência entre os sebos derruba os preços. Procurei Juliano, de Gore Vidal, que está fora de catálogo. Havia dezenas de opções, com preços entre R$ 8,00 e R$ 25,00. Os sebos fornecem as informações sobre o estado do exemplar.
Para quem vai comprar mais de um livro, a dificuldade é fazer pagamentos diferentes para sebos diferentes, os quais, por sua vez, oferece diferentes opções de pagamento. A coisa funciona assim: você escolhe o livro, coloca na cesta e o sistema do portal avisa ao lojista que você está interessado. Recomendo que, além de escolher o livro pelo preço e pelo seu estado de conservação, escolha também um sebo que oferecer a condição de pagamento mais cômoda.
O sebista então envia para seu e-mail os dados para que o comprador faça o depósito e as informações sobre o prazo de entrega.
Fiz a experiência com Juliano. Chegou rapidinho. Animado, encomendei também a quatro lojas diferentes 1876, Washington DC, Ao Vivo do Calvário e Criação, todos de Vidal. Deu certo e, pelos cinco livros, gastei o mesmo que teria pago num único volume novo numa livraria da moda.E, ainda por cima, não desonrei o compromisso, afinal todos eram usados.
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A proposta do Caótico é abrigar textos sobre a experiência da leitura de livros específicos (esses serão classificados na página Leituras Caóticas), resenhas ou comentários sobre livros lidos pelos leitores do blog (abrigados sob a rubrica Loucos por livros, como foi o caso do texto de Lea Cavalcanti publicado há uma semana).
Além disso, haverá uma terceira página chamada Elocubrações, com textos mais genéricos, sobre vários assuntos relacionados direta ou indiretamente à leitura. A postagem acima inaugura essa categoria.
7 Comentários
França, vai separando 30 manguinhos para o livro sobre Cuba.
Chega hoje de Brasília.
Sama
Inácio, gostei muito do blog.
Tenho lido tudo, mas não comentei nada por não ter lido nenhum dos livros “resenhados”.
Parei de comprar livros pelo mesmo motivo – não estava dando conta de ler tudo o que comprava – embora a tentação seja grande.
Tenho vários começados, outros pela metade e alguns virgens.
Os últimos livros que completei a leitura foram o “Estuário” e uma série chamada “viver & escrever” – entrevistas com grandes nomes da literatura brasileira realizadas, compiladas e organizadas por Edla Van Steen no final dos anos 70/início dos oitenta. É bem legal.
Só ultrapassei o limite por culpa de Samarone e umas dicas que ele deu lá no estuário – comprei o Quarteto de Alexandria, que só Deu sabe quando vou criar coragem para ler, pois estou numa fase meio ruinzinha.
Melhorei um pouco, mas o caminho talvez seja um pouco mais longo do que eu esperava.
Bora ver!
Parabéns pelo site.
Tenho alguns vícios que ainda vão meu deixar completamente liso!
Um deles é comprar livros e, assim como você, ler numa velocidade muito menor que os compro. A minha pilha de livros que adquiri e sequer li está aumentando a cada dia. Você foi além de mim: conseguiu fazer um juramento de não comprar nada “novo” até terminar todos que tem em casa.
Eu ainda não consegui fazer esta promessa pessoal, mas dadas as atuais condições econômicas tenho conseguido me controlar e comprado objetos (livros e DVDs) que não ultrapassem os R$ 10. Hehehe…
Abraços!
Grande Vilarouca!
seja benvindo, orgulho em tê-lo aqui!
se seu limite é dez contos, o negócio é morrer nos sebos mesmo, que nem eu.
Oi Inácio,
Eu tenho o mesmo problema… mas descobri um jeito diferente de manter pelo menos a mesma quantidade de livros na estante. Eu estou usando o site http://www.trocandolivros.com.br, já enviei e recebi vários livros legais.
Um abraço, Maristella do 3º A do Salesiano
Caro,
Gostei do Caótico. Já tive essa fase de comprar muito e ler pouco. Você fica “devendo” aquele encontro com o livro, que te olha da estante, quase com o olhar atravessado. Fiz o seguinte acordo: leio no máximo três livros (nunca com os mesmos temas), e só depois de esgotadas essas leituras eu parto pra outros. Já comprei livro pela Estante Virtual. É um serviço excelente e confiável.
Um abraço. Saúde e paz.
Numeriano
Oi Inácio, gostei do blog. Livro tá muito caro mesmo. Como sabes eu sempre procuro alguma coisa sobre ou de autores lá da terrinha. O último que li foi “Trem noturno para Lisboa”, sobre a alma humana e um pouco de história. Mas vou aos sebos tb e valeu a dica do sebo virtual. É uma boa.
Abs
Um Trackback
[...] Gore Vidal. Pelo menos, para essa falha os reparos já estão sendo providenciados. Como já disse aqui, me abasteci de Vidal nos sebos virtuais. Daqui a pouco estarei afiadíssimo em matéria de [...]