José Dumont e a desgraça que não descansa

por Laércio Portela

Deraldo comeu o pão que o diabo amassou. Imigrante nordestino na São Paulo do final dos anos 70 e início dos 80, ele viu cruzar pelo seu caminho todos os tipos de desassossego e patifaria.

A sucessão dos personagens define uma época: o empresário-explorador americano; o trabalhador pelego e alcaguete; o mestre de obras travestido de capitão do mato; o fiscal sacana; a madame oca, metida a requintada; a moçada alienada; o “coronel” matreiro e preconceituoso, político de mil mandatos; a polícia e sua incompetência e grosseria seletivas; e até a imprensa, aquela que não quer ouvir, mas sabe gritar.

Não há meio termo quando um homem é triturado pela vida.

Deraldo virou suco” pelas lentes do cineasta mineiro João Batista de Andrade e o corpo franzino/cara dura do paraibano José Dumont. Numa época de arrocho salarial, inflação galopante e ditadura militar, ele deixou o Nordeste, com a sua economia estagnada e sem futuro, e foi conhecer de perto o progresso. Pagou todos os pedágios… E sobreviveu. Leia Mais »

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Curtas do Caótico

Milhão

Seria possível um site de poesia e algum conteúdo de literatura, criado numa província distante do superpovoado eixo Rio-São Paulo, receber mais de 1.000.000 (isso mesmo, um milhão) e visitas anualmente? Acredite: é possível e aconteceu. Essa foi a audiência do Interpoética entre janeiro e novembro deste ano.

São quase 91.000 visitas únicas por mês. Pouco quando comparado aos portais que atingem mensalmente marcas dessa magnitude, porém muito, mas muito mesmo, se levarmos em consideração que o site abriga versos, crônicas, vídeos de poetas declamando e motes de autores que vivem em Pernambuco. Criado há seis anos pelo webmaster Sennor Ramos e os poetas Cida Pedrosa e Raimundo de Moraes, o Interpoética também foi o primeiro ponto de cultura digital do estado.

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Capibaribe

Sennor Ramos também é um dos nomes que assinam o Museu Capibaribe, uma exposição virtual e permanente das belezas que brotam do rio Capibaribe em fotos, vídeos, versos e textos. O museu é o prego-batido-ponta-virada de uma sequência de projetos coordenados pelo especialista em recursos hídricos Alexandre Sávio Ramos e financiados pelo Funcultura. O pontapé inicial desses projetos foi dado em 2007 com a Expedição Capibaribe, que se propôs a identificar artesãos, artistas plásticos, poetas e fazedores de cultura dos municípios banhados pelo rio.

Depois foi a vez da Exposição Capibaribe, quando os achados do primeiro projeto foram apresentados à população das cidades por onde a expedição havia passado. Finalmente, em 2010, foi lançado o livro Um rio de gente, com textos deste modestíssimo escriba e fotografias de Tuca Siqueira. Agora, tudo isso está disponível para o público na internet.

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Rede de sebos

Uma das primeiras postagens desse blog, lá pelos meados de 2009, foi sobre as maravilhas da rede de sebos virtual Estante Virtual, um modo simples, rápido e eficiente de procurar e comprar livros usados. Dia desses descobri a existência de uma boa alternativa à Estante. O Livronauta é outra rede de sebos que completa um ano de existência agora em dezembro e conta com 423 sebos parceiros e mais de 2,8 milhões de livros cadastrados.

O criador do site, o paranaense Alejandro Rubio, explica que o Livronauta gera mais segurança para o comprador porque toda compra gera um contrato comercial, conforme as regras do Código de Defesa do Consumidor, além de possuir um serviço de atendimento on-line das 9h às 19h por meio de telefone, e-mail , twitter, facebook, chat ou skype.

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Fernando Sabino e O encontro marcado

por Arsênio Meira Júnior

Fernando Sabino já era adorado como cronista quando publicou O encontro marcado (1956), o grande romance sobre as atribulações existenciais de sua geração.

À medida que os anos se passavam e não havia nem sombra de um segundo romance, os críticos se convenceram de que, tendo acertado na veia com O encontro marcado, Sabino temia ser comparado consigo mesmo se voltasse ao gênero.

Levou 23 anos, mas ele finalmente atendeu ao chamado do público e da crítica, com o O grande mentecapto, sobre “o doidivanas que (o próprio) continuava sendo”. E, tendo pegado o gosto, rebateu quase em seguida, em 1982, com O menino no espelho, “sobre a criança que gostaria de voltar a ser”.

Tenho que o sucesso de seus romances tende a obscurecer o que pode ter sido a grande contribuição de Fernando Sabino desde fins dos anos 40, quando se tornou um cronista regular de jornais e revistas: ensinar os jornalistas a escrever com clareza, simplicidade e, se possível, charme. Leia Mais »

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Minha vida

“Aqueles concidadãos sobre os quais antes eu não tinha nenhuma opinião ou que pela aparência pareciam bem honrados, agora se mostravam pessoas baixas, grosseiras, capazes de todo tipo de vileza. A nós, pessoas simples, enganavam, roubavam nas contas, obrigavam a esperar várias horas em antessalas frias ou na cozinha, ofendiam-nos e dirigiam-se a nós com extrema grosseria”.

Anton Tchekhov escreveu esse parágrafo na Rússia, em 1896. Faço as contas para que o leitor não fique quebrando a cabeça por besteira: esse trecho foi escrito há 115 anos, numa cidade gelada, em alfabeto cilírico, faz parte da novela Minha vida, que acaba de ser lançada no Brasil pela Editora 34 e é um perfeito exemplo para se entender a célebre frase de outro russo, Tolstoi, sobre a possibilidade de ser universal quando se pinta a própria aldeia.

Ao ler esse fragmento de parágrafo de Tchekhov enxerguei alguns moradores dos melhores bairros recifenses, que passeiam pelos corredores de shoppings de mãos livres, enquanto a babá vem logo atrás carregando sacolas de compras, bolsa de bebê e o próprio bebê, pesado demais para os braços dos pais. Enxerguei também as empregadas domésticas, obrigadas a chegar mais cedo no trabalho para dar tempo de conduzir cachorrinhos mimados a espalhar merda pelas calçadas. Leia Mais »

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Wislawa Szymborska. Para ler em silêncio, cercado de aleluias

por Samarone Lima

Com poesia sou um leitor completamente selvagem, apaixonado, parcial e intolerante. Pulo prefácios, esqueço orelhas. Não me interessa ganhador de prêmio Camões, Nobel, Jabuti. Abro o livro aleatoriamente, em qualquer página, leio. Se me toca, sigo. Faço o teste com mais dois ou três poemas. Às vezes, menos que isso.

Uma vez, em Santiago do Chile, abri um livro azul e li um poema que foi um cruzado de esquerda na minha mandíbula. Comprei-o sem ler nada mais e fui para um café. Era Vicente Huidobro, o Grande Huidobro. Poesias que arranhavam a alma, sacodiam artérias. Nunca mais o larguei.

Poesia ruim eu conheço a léguas. Tenho um faro cívico para maus poemas e poetas. Quando falam, dizem “sou pueta”, usando o “u”no lugar do “o”. “Porque a minha puesia…” Leia Mais »

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Na linha do tiro (um olhar lúcido sobre o Enem)

Têm a profundidade de um pires as discussões e as críticas sobre o Enem que leio ou escuto na mídia e nas ruas. Para contribuir com algo mais do que as reclamações sobre vazamento de provas (problema que – a julgar pelas matérias publicadas – nunca, jamais, aconteceu com os vestibulares dos estados), pedi a uma novíssima amiga, a professora Flávia Suassuna,autorização para publicar o texto abaixo.

por Flávia Suassuna

Quando o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), há cerca de dez anos, propôs novos parâmetros curriculares para o ensino médio, confesso que exultei! Nunca escondi o que pensava de um ensino médio tão fortemente científico e conteudista, como o nosso.

Quando eu era jovem, havia, no país, dois ensinos médios – um chamado clássico, com ênfase nas humanas; outro chamado científico, com ênfase nas ciências, como o próprio nome adianta. Durante a ditadura militar, fizemos uma reforma e, claro, matamos o clássico. Mudamos o nome para “segundo grau”, o que dificulta a compreensão de que mantivemos o currículo do antigo científico, e passamos 30 anos dando informações predominantemente científicas a nossos alunos no ensino médio.

Num pacto silencioso, acertamos que o professor de humanas botaria o pé na embreagem e, com a anuência da sociedade, valorizamos a ciência, infelizmente, em detrimento das humanidades, no ensino médio no país. Leia Mais »

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O olho da rua

Eliane Brum era repórter do Zero Hora quando nos conhecemos, há não sei quantos anos. Ela começou como repórter da editoria de Polícia do diário gaúcho, eu como na mesma função no Diário Popular, de São Paulo.

Minhas lembranças não são lá muito nítidas, mas acredito que isso nos aproximou a ponto de descobrir mais pontos em comum do que as origens profissionais às voltas com cadáveres.

Primeiro ficamos amigos, depois irmãos. Como sempre foram grandes a distância e o tempo, voltamos a ser amigos, depois colegas. Com algum otimismo, agora podemos nos classificar mutuamente na categoria “velhos conhecidos”. Isso me proporciona isenção o suficiente para escrever sobre O olho da rua, livro que lançou há três anos. Leia Mais »

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A Paolo, que dorme em Óstia

por Laércio Portela

Há 36 anos, o corpo destroçado de Pier Paolo Pasolini jazia nas areias quentes da praia de Óstia, periferia de Roma. Rosto desfigurado, ossos quebrados e um jovem de 17 anos , réu confesso, preso. Crime passional, ponto final. Ou crime político nunca devidamente esclarecido? A dúvida persiste até hoje. As circunstâncias da morte parecem inverossímeis, mas as investigações foram “rápidas e conclusivas”.

Numa época em que Steve Jobs é idolatrado e os jovens americanos tomam as ruas em protesto contra o sistema financeiro, o que dizer de Paolo, que apontava a sociedade de consumo como o novo fascismo e criticava ferozmente os jovens que ocupavam as ruas das cidades européias, em 1968, chamando-os de filhinhos de papai que queriam apenas o direito de consumir mais e de chegar ao poder?

E os alertava para não se deixarem entusiasmar com o apoio que recebiam de jornais e revistas como o Corriere della Sera, Popolo, Le Monde e Newsweek. “Vocês ocupam as universidades, mas supunha que a mesma idéia ocorra a jovens operários. Nesse caso, os jornais procurariam com a mesma solicitude compreender os problemas deles? A polícia se limitaria a levar umas pancadas dentro de uma fábrica ocupada?”. Leia Mais »

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A arte da reportagem

Rubem Braga e José Hamilton Ribeiro são os mais conhecidos jornalistas brasileiros a atuar como correspondentes de guerra. O primeiro foi construindo aos poucos sua imagem de grande cronista. O trabalho que realizou nos final de 1944 e início de 45 acompanhando os pracinhas brasileiros na Itália durante a II Guerra se tornou, com o tempo, algo quase exótico em sua biografia.

Com José Hamilton foi diferente. Ele entrou para a história ao perder a perna esquerda na explosão de uma mina quando cobria a guerra do Vietnã para a Realidade. Por essas e outras, o jornalista e a revista se tornaram entidades míticas do jornalismo verde-amarelo-azul-anil.

Realidade pereceu sob a censura durante os anos de ditadura aos 10 anos de existência. O repórter continua repórter, fazendo o melhor telejornalismo disponível na Rede Globo, sempre com grandes e lúcidas reportagens no Globo Rural, ou seja, confinado ao horário do domingo de manhã (não deixe de clicar aqui para assistir a um documentário sobre ele, produzido por estudantes do 5º período de Jornalismo). Leia Mais »

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Como se fosse ontem (cinco)

Era bem cedo, ainda não tinha dado seis da manhã, e eu já estava na calçada do Diário Popular. Forraria o estômago na lanchonete da esquina antes de subir para iniciar o plantão daquele sábado.

No Dipo, não havia o famigerado pescoção varando as madrugadas das sextas para os sábados. O jornal de domingo era feito praticamente todo no sábado mesmo, um jornal quente, um jornal do dia. Se algum repórter ou editor do século XXI ler esse parágrafo vai achar que é mentira minha, mas não é não.

Nos plantões de final de semana, a equipe se dividia em três. Um repórter chegava às seis, outro duas horas depois e o terceiro no final da manhã.

Costumava ser o último a chegar. Era melhor ajudar no fechamento que acordar cedo. Leia Mais »

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