O Eu Profundo e os Outros Eus

por Arsênio Meira Júnior (que, pelo andar da carruagem, ainda vai virar colunista fixo do Caótico)

Reli “O Eu Profundo E Os Outros Eus”, editora Record, do nosso impagável Fernando Pessoa. Perdi a conta das releituras.

Em novembro do ano passado fez 74 anos que o Poeta morreu. Ele, quase uma unanimidade, considerado o maior poeta da língua portuguesa(eu até hoje prefiro Drummond. Não adianta).

Mas sobre Pessoa há tanto a dizer.

A grande razão da permanência de Pessoa e do renovado interesse que ele desperta em todos os leitores, reside na maneira como enxergou ou desbravou a difícil harmonia entre sentir e pensar.

Esse paralelo entre a sensação com o conceito tem movido milhões de átomos pensantes entre os bambas da filosofia ocidental. Leia Mais »

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Não há crime nas montanhas e outros contos de Chandler

Gosto de gente que gosta de gente. E gosto de quem considera mais importante o jeito de contar uma história do que o seu desfecho. Raymond Chandler atende aos dois critérios, porém o que faz dele um grande escritor é a sua intimidade com a fala das ruas e das violentas periferias de Los Angeles ou São Francisco.

Chandler traduziu e transformou em literatura o cotidiano das multidões de pobres e remediados que sobreviviam das migalhas do petróleo ou do que havia sobrado da corrida do ouro. O romance policial foi sua ferramenta para construir essa crônica.

Não sei se essa foi uma opção da Chandler. Creio ter sido algo inevitável, afinal, na Califórnia da primeira metade do século XX, a quantidade de armas nas mãos de adultos, mulheres e crianças faria a 5ª Etapa de Rio Doce parecer um lugar bucólico. Nos cinco contos incluídos na coletânea Não há crime nas montanhas, pistolas automáticas e revólveres Colt 45 eram tão comuns quando homens de chapéus e mulheres bonitas dispostas a enriquecer. Leia Mais »

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Vinicius, o poeta camarada

Durante as férias compulsórias do blog, o leitor Arsênio Meira Júnior enviou essa homenagem ao poetinha. Não deu para publicar naquela época. Agora vai:

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por Arsênio Meira Júnior

No dia 09 de Julho de 1980 o “Poeta Camarada”, Vininha, amanheceu e sentiu-se mal. Já vinha de longas internações. Com o fígado em petição de miséria, mal conseguia locomover-se.

Havia passado a noite compondo com Toquinho canções infantis.

Vinicius é uma espécie de entidade. Uma lenda mesmo.

Foi – sem dúvida – um dos Poetas que mais me marcaram.

Dele sei de cor até hoje alguns sonetos.

Meu irmão caçula, André, começou a ler Vinícius muito cedo. E ouvir bossa nova. Tenho orgulho disso. As lágrimas agora chegam aos meus olhos. Leia Mais »

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O fio das missangas

De Mia Couto, li apenas dois livros de contos, mas passou da hora de mergulhar em seus romances. Tomei a decisão ao concluir a leitura de O Fio das missangas, devidamente devorado durante o período em que o blog ficou fora do ar contra a minha vontade. Dele, já conhecia as histórias curtas de Cada homem é uma raça e fui apresentado ao universo dos dialetos e da gente moçambicana.

As resenhas críticas que li sobre esse escritor sempre relacionam sua prosa poética ao mineiro Guimarães Rosa. O próprio Mia confirma a influência do brasileiro, mas nem precisava, pois os belos neologismos que ele cria em suas histórias e o molejo da língua portuguesa na sua terra reforçam esse vínculo.

Como eu ainda era menino quando li alguma coisa de Guimarães Rosa, percebo mais semelhanças entre o moçambicano e o poeta Manoel de Barros. Moçambique está para o primeiro do jeito que o pantanal mato-grossense está para o primeiro. Leia Mais »

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De volta!

Por incompetência técnica do servidor Dreamhost, sediado nos Estados Unidos, o Caótico ficou fora do ar um tempão. Retomamos nossa programação normal.

Antes, dois avisos:

a) A votação para escolher o próximo livro a ser comentado na tabelinha Caótico/Record será encerrada na sexta-feira, dia 16 de julho. Quem não souber do que estou falando, leia a postagem abaixo.

b) Caso desejem criar um blog, evitem o servidor Dreamhost.

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Mais uma tabelinha Caótico-Record

Depois de longas e intensas conversações, é hora de mais uma tabelinha entre o Caótico e o grupo editorial Record. Mais uma vez, os leitores poderão receber em casa um lançamento de algum selo da editora carioca. Junto com o livro, o internauta receberá a tarefa de ler e, logo em seguida, enviar para publicação no Caótico um texto crítico sobre a obra.

Na primeira tabelinha, os leitores Lilian Alcântara, de Minas Gerais, e Antônio Lino Júnior, do Recife, receberam exemplares de Delacroix Escapa das Chamas. Naquela oportunidade, foi a assessoria de comunicação da editora que indicou o título a ser comentado.

Agora, a parceria terá novo formato. Quem vai escolher o livro serão os próprios leitores a partir de uma lista de oito lançamentos escolhidos por mim. Os leitores terão até o próximo dia 13 de julho (terça-feira) para votar no livro que gostaria de receber em casa e escrever um texto para ser publicado no Caótico.

A votação deve acontecer na seção de comentários desta postagem. Mesmo que eu atualize o blog antes do dia 13, a votação só será encerrada no dia combinado. Feita a contagem dos votos, farei um sorteio entre os leitores que votaram no livro vencedor. O sorteio será auditado por minha digníssima senhora e colaboradora deste espaço, Geórgia Araújo, e por meu primogênito, Pedro.

A editora Record vai acompanhar tudo e enviar o livro para o vencedor do sorteio.

Escolha o livro na relação abaixo. Para conhecer melhor a obra, clique no link correspondente a cada título e leia a sinopse no site da editora.

Tenho dito. Revogam-se as disposições em contrário.

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Mauá – Empresário do Império

O leitor Arsênio Meira Júnior entusiasmou-se com o Caótico e deu algumas sugestões para a publicação. Aproveitei o embalo do sujeito e propus a missão de escrever sobre uma de suas sugestões. Sem perceber que iria trabalhar de graça, ele topou na hora. O texto ficou grande e o autor recomendou que eu o cortasse, algo que não fiz por duas razões: preguiça e porque foi escrito com tanta paixão que o resultado ficou delicioso. Com vocês, a primeira contribuição de Arsênio para o Caótico.

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por Arsênio Meira Júnior

Não foi fácil para o garoto Irineu. Órfão aos cinco anos de idade, aos nove disse adeus involuntariamente para mãe e a única irmã na província do Rio Grande, ao embarcar num navio rumo à Capital do Império, numa época em que naufrágios eram tão comuns quanto os perdigotos que introduziam na população o bacilo de Koch, dizimando-a.

Mas é só ler a incrível história desse garoto, que você leitor, verá que ele se saiu muito bem. A biografia dele, escrita por Jorge Caldeira em 1995, é um desses livros definitivos. Únicos. Singulares. O rio de clichês se justifica, pois só assim não escrevo que o livro é duca…

Em Mauá – Empresário do Império, Jorge Caldeira trouxe-nos a vida do Barão e depois Visconde de Mauá, em tintas mais do que palatáveis. Leia Mais »

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A Divina Comédia: o Paraíso

Uma anedota antiquíssima dá conta de que o inferno é melhor do que o céu, pois enquanto o primeiro está cheio de mulher safada, cachaceiro e putaria. O segundo, por sua vez, é um tédio, com suas beatas, anjinhos tabacudos e orações nos três expedientes. Por motivos diferentes, a piada pode ser aplicada à Divina Comédia.

Os 33 cantos do Paraíso são impregnados de misticismo e dos conceitos teológicos e astronômicos que se tinha na Idade Média. O que é uma coisa óbvia, afinal o poema foi escrito há mais de 700 anos. O problema é que, tanto tempo depois, é cansativo decifrar as rebuscadas descrições e metáforas que Dante criou para localizar a posição das almas no céu e a grandiosidade das coisas divinas.

É verdade que já estava com a cabeça cansada depois de atravessar os milhares de versos do Inferno e do Purgatório, mas não dá para descartar a possibilidade de que este que vos escreve não possuir bagagem e inteligência suficientes para entender com tranqüilidade os primeiros 13 cantos do Paraíso. A dificuldade foi tanta que, em muitos trechos, era necessário ler três ou quatro vezes os tercetos para entender o que o poeta quis dizer. Leia Mais »

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Sobre Saramago

Tinha 22, talvez 23 anos, quando ouvi falar de José Saramago pela primeira vez. Posso estar enganado, mas acho que o Evangelho Segundo Jesus Cristo tinha acabado de ser lançado no Brasil e o nome dele estava em tudo quanto é página de entretenimento dos jornais. Apesar de todo apelo midiático e do esforço da assessoria Companhia das Letras, não saí enlouquecido para as livrarias, pois nunca morri de amores por esse negócio de Jesus Cristo e, na adolescência, já tinha lido os quatro evangelhos, as quatro versões da sua biografia autorizada. Jamais me animei por nenhuma delas.

A editora conseguiu pautar Saramago no programa de entrevistas de Bruna Lombardi, no domingo à noite (parece incrível, mas Bruna Lombardi já teve um programa de entrevistas na TV brasileira). A galega fez um monte de perguntas bestas, enquanto o velho tentava explicar que seu Evangelho não era um texto religioso, mas um romance, uma obra de ficção. Mesmo assim, a entrevista mudou minha opinião. Gostei daquele sujeito anacrônico, que tinha peito para se afirmar comunista em plena euforia direitista pós-URSS e queda do muro de Berlim.

Dias depois, comprei o livro, que deixei cevando para ler um ano depois, como faço sempre. Leia Mais »

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Inventário afetivo da Copa do Mundo

Sempre achei esse negócio de Copa do Mundo uma delícia. Corrijo imediatamente para garantir fidelidade ao meu sentimento: sempre achei delicioso o clima criado aqui no Brasil pela Copa do Mundo. É sem igual essa euforia de assistir às partidas na casa do amigo, de juntar a família para ver uma partida de futebol. Costumam comparar com carnaval, mais uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Só não aguento os telejornais e das manchetes repetitivas pressionando o treinador ou determinado jogador, mas isso são outro quinhentos. Assisto aos jogos, revejo os gols e tá bom demais, desligo a TV e fico pensando em futebol. O tempo todo.

Então, como só tenho cabeça para isso, seria muito esquisito o Caótico passar em branco e ficar tratando exclusivamente de livros. Então, enquanto não chego ao ponto final da Comédia de Dante, a memória funciona a pleno vapor entre um jogo e outro. Volto a experimentar sentimentos, sensações e repassar cenas esquecidas e que voltam a cada quatro anos.

É do fracasso de 1974 minha primeira lembrança de Copa do Mundo. Uma lembrança tênue, porém colorida, apesar da televisão lá de casa naquela época ser preto-e-branca. Leia Mais »

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