Dom Pedro Casaldáliga e os 40 anos de sua Carta Pastoral

Meu chegado Cláudio Machado, pernambucano exilado em Brasília há alguns anos, me avisou com um mês de antecedência que estava preparando um texto sobre os 40 anos da Carta Pastoral de dom Pedro Casaldáliga, escrita no dia 10 de outubro de 1971.  A carta foi uma contundente denúncia pública do bispo, titular da prelazia de São Félix do Araguaia, a respeito dos estragos que os latifundiários e os grandes projetos de “desenvolvimento” da Amazônia iniciados pela ditadura militar no eixo sul-sudeste daquela região.

Quarenta anos depois, a violência contra quem se arrisca a lutar contra grileiros, grandes pecuaristas, madeireiros e desmatadores em geral e a tragédia social das pequenas cidades da região emprestam à carta ares de profecia. O assunto cabe como uma luva no Caótico. O problema é que Cacau, apelido de Machado, farrapou. Sem muita intimidade com as coisas da escrita, o sujeito esbarrou na tela em branco do word. Tudo bem, ele tem crédito para com este humilde editor que vos fala.

Para não deixar o tema passar batido, recomendo a leitura do categórico texto de dom Pedro Casaldáliga. Basta clicar aqui. Leia Mais »

Deixe o seu comentário - Enviar por email - Imprimir

Rossellini amou a pensão de dona Bombom

As técnicas e as manhas do jornalismo podem ser valiosos recursos para um macaco-velho das redações que se arrisca no ofício da literatura. Entretanto, como diz a senhora minha mãe, “remédio demais é veneno”, também podem significar sua perdição. Foi assim com Cícero Belmar em Rossellini amou a pensão de dona Bombom, vencedor de dois prêmios locais de literatura na categoria ficção em 2005.

Não foi por acaso que o livro do bodocoense Belmar foi tão premiado. Suas virtudes superam os defeitos com vários corpos de vantagem.

O grande mérito do autor, um ex-repórter e ex-editor do Jornal do Commércio, aqui de Recife, foi desencavar a história do interesse do cineasta italiano Roberto Rossellini em fazer um filme baseado no livro Geografia da Fome, do médico Josué de Castro, então deputado federal por Pernambuco, e da sua visita ao Rio de Janeiro e ao Recife para conhecer a situação de perto. Leia Mais »

1 comentário - Enviar por email - Imprimir

Eu não vim fazer um discurso

Eu não vim fazer um discurso deveria ser a única exceção dos textos sobre livros que misturam jornalismo e literatura. Deveria, mas Gabriel García Márquez evitou a exceção e confirmou a regra num dos capítulos finais da coletânea dos seus discursos que acaba de ser publicada pela editora Record.

O livro é uma raspa do tacho criativo do colombiano. Idoso, produzindo pouco, sem a vitalidade e a disposição para escrever uma história como antes, mas com leitores fiéis, García Márquez não pode ser ignorado pelas editoras. Sem romances ou contos novos, o jeito deve ter sido resgatar os discursos, juntá-los todos em único volume e colocá-los nas prateleiras como uma grande novidade.

Apesar de ser uma jogada do mercado editorial para extrair o que é possível de um prêmio Nobel antes que a fonte seque, o livro está longe de ser uma decepção, apesar de não ser imperdível. Se a enorme habilidade de contar histórias do Gabo já é demasiadamente conhecida, o livro revela um pouco mais da sua autoironia e da capacidade de mergulhar fundo em temas mais densos, como a prepotência europeia em relação à América Latina ou a violência na Colômbia. Leia Mais »

1 comentário - Enviar por email - Imprimir

Z, a cidade perdida

Essa será a primeira de uma série de textos sobre livros escritos com recursos jornalísticos. Corro risco de ferir o próprio caráter caótico das minhas leituras que deu nome a esse blog, mas isso será fundamental para a preparação de uma oficina sobre Jornalismo & Literatura que irei ministrar em novembro. Irei adiar a leitura de Dom Quixote, Balada da praia dos cães e Nuvens vermelhas, que Roberto Numeriano me enviou há meses.

O primeiro dessa sequência será Z , a cidade perdida, a história das expedições do inglês Percy Fawcett contada pelo jornalista David Grann, da revista New Yorker.

Normalmente, eu jamais iria dar atenção a esse livro se o encontrasse na prateleira de uma livraria. Até então, de Fawcett só conhecia seu nome de ouvir falar. Lembrava que era um explorador inglês, que havia desaparecido em algum lugar e mais nada. Foi meu amigo Cláudio Machado, vulgo Cacau, quem evitou que eu passasse batido e, lá de Brasília, me mandou seu exemplar. Leia Mais »

3 comentários - Enviar por email - Imprimir

Na primeira manhã

Seus olhos estavam úmidos, mas pareciam tranquilos. Eram olhos de um homem cansado certamente, porém plácido. Olhos de um homem que espera. Firme e vagarosamente, ele me contou como foi parar no porto de Bahía Blanca.

Foi há 47 anos, depois que aderiu ao levante dos marinheiros que desobedeceram às ordens dos almirantes no Rio de Janeiro. Ele era cabo e, mesmo no porto do Recife, enfrentou as ameaças e participou dos protestos para apoiar os colegas.

Uma semana depois já era 1º de abril de 1964. Imediatamente, ele percebeu que corria riscos e junto com mais oito companheiros de farda, literalmente abandonou o barco e escondeu-se no porão de um navio com bandeira estrangeira. Leia Mais »

Deixe o seu comentário - Enviar por email - Imprimir

Esses moços, sábios moços

Há pouco mais de um ano Pedro comunicou sua decisão: “Vou fazer vestibular pra Ciências Políticas”. Reagi com surpresa e orgulho. Surpresa por não imaginar tamanho poder de decisão em um adolescente que sempre me pareceu tão contido. Orgulho porque, aquilo que não foi dito, deixou evidente quais os valores e convicções que norteiam meu filho.

Havia outro componente que me intrigava. Adolescente dos anos 80, não imaginava que Ciências Políticas poderia ser um curso capaz de interessar a um rapaz ou a uma mocinha cercados de apelos hedonistas ou de consumo.

Passei a juntar informações dispersas e percebi que uma pequena mas significativa transformação pode estar ocorrendo sob a superfície das aparências. Leia Mais »

5 comentários - Enviar por email - Imprimir

A vida breve

Eu, que atravessei com desenvoltura milhares de páginas de Dostoievski, que considero Machado de Assis uma delícia, que dediquei horas de prazer, paciência e atenção para ir do inferno ao céu com Dante; eu, que me julgava capaz de devorar em poucos dias romance latino-americano, me lasquei todinho na leitura de A vida breve.

Juan Carlos Onetti, o autor, é considerado um mestre da literatura do século XX, tanto por ter inovado a estrutura da narrativa quanto pela lucidez de apontar o fracasso e a mesquinhez do ser humano. Ele realmente é tudo isso e mais um pouco.

Seu site oficial, provavelmente mantido por sua família ou por discípulos fiéis, o trata como o “padrinho da literatura latino-americana”. Pode ser, mas nesse romance não foi capaz de me levar para um mundo novo e proporcionar prazer nessa aventura. Leia Mais »

5 comentários - Enviar por email - Imprimir

Carlos Pena Filho, busto vivo no coração da cidade do Recife

por Arsênio Meira Júnior

Talvez nenhuma cidade brasileira tenha sido tão amada e cantada pelos poetas como o Recife e o Rio de Janeiro. Detenho-me, por óbvio, no Recife. Poetas daqui, ou que passaram por aqui; de ontem e de hoje; anônimos e consagrados.

Alguns, entre o que há de melhor na poesia brasileira: Joaquim Cardoso, Mauro Mota, Augusto dos Anjos (Sim, Augusto. É só lembrar os versos iniciais do seu famoso poema As cismas do destino), Ascenso Ferreira, Manuel Bandeira, João Cabral e Alberto da Cunha Melo.

Mas, na história das relações de Recife com os poetas, há um caso especialíssimo: Carlos Pena Filho.

Recifense, o poeta aqui viveu e morreu em 1960, aos 31 anos, num desastre de automóvel. Sendo figura popular e estimada, sua morte abalou e emocionou a todos. Desde então ele passou a ser, na cidade de tantos poetas, o poeta da cidade. Leia Mais »

5 comentários - Enviar por email - Imprimir

Transição, a palavra

São seis as definições do dicionários Michaelis para a palavra “transição”. Creio que esses são os usos mais comuns: Ato ou efeito de transitar, isto é, de passar de um lugar para outro; passagem; forma de passar de um assunto ou de um raciocínio para outro; passagem de um estado de coisas para outro.

Dia desses, ainda em Belém, trabalhava junto com o professor da UFPA Carlos Alberto Maciel na reconstrução de um texto acadêmico e chegou o momento em que foi preciso usar a palavra “transição” para definir o momento atual da instituição família. E, pela primeira vez, experimentei a consciência dos limites do meu próprio idioma da forma que Jorge Luís Borges fala em seu Ensaio autobiográfico.

Até aquele momento jamais tive motivos para me queixar da língua portuguesa com suas palavras belas ou fortes, sonoras ou exatas. Ou tudo isso ao mesmo tempo. “Transição”, todavia, é um raro caso de significante que nada tem a ver com seu significado, repleto de tensões, implicações e dor. Leia Mais »

8 comentários - Enviar por email - Imprimir

Raymond Chandler e as neblinas suspeitas

por Arsênio Meira Júnior

À beira do abismo noir alguns tópicos singulares merecem nossa atenção. Exemplos? Dashiell Hammett parou de escrever aos quarenta anos; Raymond Chandler, seu maior pupilo, começou aos 45. Hammett levou uma vida digna de um seriado; a de Chandler, durante muito tempo, foi tão emocionante quanto uma ata de reunião do condomínio. Hammett freqüentou o submundo sobre o qual escrevia; Chandler esmiuçou esse submundo sem o conhecer nem por cartão-postal.

Na verdade, Chandler não queria maiores intimidades com esse ambiente, que considerava sórdido demais até para os soldados do Exército da Salvação. Por isso, criou um personagem lendário, o detetive Philip Marlowe, com um caráter e um modus operandi igualmente impermeáveis, e o mandou em seu lugar.

Com todas essas diferenças entre si – como o gim e o vermute – Hammett e Chandler fizeram uma revolução no romance policial: Hammett, com o Falcão Maltes (1930); Chandler, com o Sono Eterno (1939) e os outros seis fabulosos romances estrelados por Philip Marlowe. Hammett fez primeiro, mas Chandler – defendo eu – fez melhor. Leia Mais »

6 comentários - Enviar por email - Imprimir