Palpite infeliz

Os donos do jogo do Bicho no Rio de Janeiro dividiam a cidade em fatias e, mesmo assim, tinham um poder e um dinheiro danados. Dá para imaginar, então, o poder e o dinheiro de um sujeito que controlava, sozinho, o jogo em São Paulo, maior e mais rica do que o Rio. O nome dele era Ivo Noal e, um belo dia, foi preso por delegados da Corregedoria da Polícia Civil.

Noal deveria ter sido preso há muito tempo por assassinato, mas ele comprava tudo quanto é policial paulista e, por isso, nunca aparecia um com vontade de prendê-lo, afinal estavam quase todos no bolso. A Justiça não teve outro jeito, senão exigir que a Corregedoria prendesse o bicheiro, o que, aliás, só foi feito porque o corregedor era Guilherme Santana, um homem enérgico, decente, baiano, baixinho e de sotaque inconfundível. Consultando o óraculo google, descubro que Santana morreu em março de 2008.

Pois bem, quando ligaram da corregedoria para avisar que Noal tinha sido preso, eu estava na redação do Diário Popular. Eram umas sete da noite e, como os principais delegados da corregedoria eram minhas fontes, me mandaram para lá. Quem conhece a rotina de um jornal sabe que, quando um fato desses acontece no início da noite, o repórter tem que pegar todos os dados bem rápido, voltar voando e escrever num passe de mágica.

Na sede da corregedoria, pertinho da praça da Sé, o delegado que fez a prisão, Rebello, foi logo avisando que não iria dar para fazer fotos do poderoso bicheiro, mas deu a dica valiosa:

“Tem mais advogado lá dentro do que em reunião da OAB, mas, eu fosse vocês, atravessava e pedia ao porteiro do prédio da frente para subir no sétimo andar. As janelas ficam no mesmo nível da sala onde ele está”.

Era muito boa praça esse tal Rebello.

O fotógrafo foi para o prédio da frente e eu fiquei conversando com o delegado, que me contou como aconteceu a prisão. Foi quanto eu tive a sacada:

“Dotô, me diz o número do mandado judicial. Vou botar a milhar no jornal”.

Com tudo na mão, voltei para o jornal e comecei a batucar o texto no computador. O subeditor, Gilberto Lobato, olhou a tela por cima dos meus ombros e, para adiantar a chamada de primeira página, leu a abertura da minha matéria, que era mais ou menos assim:

“A milhar XXXX deu na cabeça e o maior banqueiro do jogo do bicho de São Paulo ganhou um par de algemas…” Não sei se foi exatamente assim, mas foi essa a ideia.

“Ô Inácio, começa o texto assim não. Abre seco, sem molho. Vai direto ao assunto”.

Estranhei o comentário, afinal de contas, Giba sempre defendia os textos mais elaborados, as histórias bem contadas. Além de tudo, a milhar do documento que provocou a prisão do dono da banca poderia ajudar a vender jornal, que costumava deixar a Folha e o Estadão comendo poeira nas vendas em banca.

“Oxê Giba, frescura é essa?”

“É o seguinte. Se tu abrir a matéria assim e essa milhar der amanhã, vai estourar as bancas. Deixa pra mim que eu jogo ela sozinho”.

Como o motivo era justo e a causa, nobre. Fiz o que ele pediu. Modifiquei a abertura da matéria, que foi publicada no outro dia sem a milhar do mandado judicial.

No início da tarde seguinte, quando cheguei na redação, o encontrei de cara fechada para o meu lado, todo mal humorado.

“Que foi que houve?”

“Você me fudeu!”

Que foi que eu fiz?”

“Joguei a milhar do mandado de Ivo Noal e me lasquei”

“Por quê?”

“Deu a milhar que eu jogo todos os dias. Na cabeça, porra! Mas por causa do seu palpite, só joguei o número do mandado de prisão. Filho-da-puta!”

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6 Comentários

  1. Publicado 24 de maio de 2010 em 18:22 | Permalink

    Vê se não inventa de dar palpite favorável no placar do Santa Cruz. Por isso, dizem que tu és pé frio, hein!!! (PS: Adorei a crônica!)

  2. Ana Beatriz
    Publicado 24 de maio de 2010 em 21:01 | Permalink

    Interessante os bastidores de um jornal! Quanto ao jogo do bicho, por que não legalizam logo isso, né? Pelo menos, os “vendedores” poderiam ter a carteira assinada!

  3. Publicado 25 de maio de 2010 em 3:35 | Permalink

    Andei lendo algo sobre jogos do bicho, é bem mais organizado que o crime organizado. Putz! Adorei o texto…

  4. Publicado 1 de junho de 2010 em 4:12 | Permalink

    Escutei essa ótima história num mesa de restaurante natural – não, não era num bar…

    Pena que a história perde um tanto da graça sem a narração de Inácio (que gagueira, que nada). Quem sabe em breve ele bota áudio nesse blog?

  5. Publicado 1 de junho de 2010 em 22:25 | Permalink

    que áudio que nada, Anízio. Esse é um espaço da escrita.

  6. Edson Rodrigues
    Publicado 23 de junho de 2010 em 23:46 | Permalink

    Malandro. Quem era o bicheiro da redação, o velhinho seu Antônio?

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