Por que um blogueiro que se mete a escrever sobre livros não escreveu uma única linha sobre a Bienal do Livro que acontece em sua cidade? Pois é, a Bienal acaba hoje e o Caótico nem aí pra ela.
No papel, até que se trata de algo interessante, afinal passaram pelo pavilhão do Centro de Convenções alguns escritores respeitáveis, um bocado de gente boa que aparece graças à credibilidade do curador, meu antigo chefe Homero Fonseca que também foi editor da revista Continente.
Homero se esforçou e deve receber os créditos pela programação de debates, confinada a um aquário de vidro bem apertado no meio do pavilhão. Em tese, os debates e diálogos são as únicas coisas que valem a pena no evento. Digo “em tese” porque o lugar é barulhento, com gente passando por todos os lados das paredes transparentes, mas lá, por exemplo, foi possível os autores pernambucanos conhecerem o trabalho do escritor Sacolinha na prefeitura de Suzano, com o relatou Samarone no seu Estuário.
Fora isso, a Bienal Internacional do Livro de Pernambuco é uma porcaria.Passei por lá na quarta-feira, dia 7 de outubro, e encontrei amigos e conhecidos que não via há tempos. A opinião era unânime. O mais indulgente disse que aquilo era muito “trash”. Mas, como é típico em Pernambuco, a mídia local tratou a feira com a velha falta de espírito crítico de sempre.
A Bienal é barulhenta, com shows que abafam qualquer tentativa de conversa nos cantos mais escondidos do pavilhão. O alarido é insuportável, um ambiente insalubre para quem precisa de paz para folhear um livrinho qualquer.
Cheio de pena, passei por um estande muito do malamanhado onde uma menina lia uns versinhos no microfone, sendo efusivamente aplaudida por duas senhoras, sua mãe e sua avó, suponho. Mais confusão sonora, além do constrangimento por tamanha exposição desnecessária.
Infelizmente a barulheira é o menor dos problemas da Bienal que, aliás, nem merece esse nome. Deveria ser Feirão do Livros ou Saldão de Livros. Seria um nome mais justo para designar aquilo que está chegando ao final nesse momento no Centro de Convenções.
Não há estandes das grandes editoras, aliás só percebia presença das “editoras” pernambucanas, essas empresas que garantem edições com tiragens minguadas e os autores que se virem com todos os gastos, da gráfica à distribuição. Sem as editoras relevantes, a organização da Bienal é quem traz os escritores importantes, o que evidencia o defeito de fábrica desse evento. A maioria dos espaços são ocupados por livreiros, distribuidores ou mesmo prefeituras.
Na década de 90, ainda trabalhando como repórter especial do Diário de Pernambuco, cobri três bienais de verdade e posso assegurar que a presença das editoras fazem uma diferença enorme. Tanto no Rio de Janeiro em 1997 e 1999, quanto em São Paulo em 1998, os principais acontecimentos eram os lançamentos de livros nos espaços dos responsáveis pela sua publicação.
Não lembro de ter visto ou escutado shows no Riocentro ou no Center Norte, as únicas estrelas eram os livros e seus autores, que tinham oportunidade de interagir com muitos editores. O ingresso era pago, mas quem comprava qualquer obra tinha um desconto equivalente ao que pagou na bilheteria, uma ótima ideia para incentivar a aquisição de livros.
A “Bienal” de Pernambuco também assegura espaço para stands de bijuterias, artesanato, trufas e bugigangas mil. A proposta é incentivar o consumo de quê? Literatura ou das mesmas mercadorias cujos expositores são ratos de feira e montam suas lojinhas em todos, absolutamente todos, os eventos que acontecem no Centro de Convenções.
Alguém pode argumentar que as centenas de ônibus com alunos de escolas particulares e públicas que passaram pela Bienal eram a prova de que o evento estimulou a leitura. É, pode ser, mas nesse caso números dizem pouco. Gostaria de ter conversado com muitos dos adolescentes que vi sentados na rampa de acesso, esperando as professoras ou os motoristas dos ônibus. Se tivesse tido a ideia na hora, teria perguntado quais foram os livros mais interessantes que folhearam, se conversaram com algum poeta, se foram bem acolhidos.
Duvido que tenham tido paz para escutar contadores de histórias em estandes espaçosos ou a chance de conseguir um autógrafo de um escritor realmente importante.
Para ficar ruim, a Bienal do Livro de Pernambuco terá de melhorar muito.
5 Comentários
Eu lamentei muito não ter ido.
Mas, depois desse seu depoimento, vi que não perdi nada.
Melhor bater perna pelas livrarias da cidade mesmo.
Eu não pude ir por orientação médica
Nada de Bienais, Livrarias, Sebos, Lançamentos, etc
Preciso antes me curar da dependência dos papiros
Ou então, hospício!!!
Não é possível que com 80 e tantos livros para ler na estante
ainda vá comprar mais
Inácio,
Esse caos por aqui, é tudo muito de fuder.
Viu ler mais coisas.
Mas desde já, obrigado pela força, meu irmão.
Nem eu sabia que o Espalitando falava daquilo tudo. Enfim
Valeu!
grande abraço
Camarada Inácio
Obrigado pelos confetes.
Quanto à Bienal, não entendi muito bem teu comentário radical. Será que, pelo fato de ser uma FEIRA, ela foi CAÓTICA?
Forte abraço
Homero Fonseca
Inácio, não senti na Bienal o que li agora. Acredito que minhas expectativas eram bem menores do que as suas e com isso deixei a Bienal super satisfeita.