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Pedro e Paula
Postado por Inácio França em 24 de janeiro de 2012 às 10:08 em Leituras Caóticas | Nenhum comentário
[1]Helder Macedo era o nome do autor estampado na capa. E isso não me dizia nada. Nem calculo quantas vezes adiei a leitura, tanto desinteresse amarelou e manchou as páginas do romance.
Uma das frequentes rearrumações nas estantes do alto do corredor colocou o livro na minha alça de mira. Era quase impossível sair da cozinha e dobrar à direita no corredor sem perceber o laranja berrante de sua lombada, espremida entre tantas outras de cores pastéis. Um dia, estiquei o pescoço para recordar seu título: Pedro e Paula. No outro, prometi que iria lê-lo. Um dia. Não sei quando.
Ano novo, vida nova, hora de ver se o português Helder é bom de bola. É, agora posso garantir. Desprezar a leitura de Pedro e Paula foi um erro grosseiro de um sujeito metido a sabe-tudo, porém profundamente ignorante das letras de além-mar. Havia uma pequena jóia de celulose em casa e eu não sabia.
A história dos gêmeos Pedro e Paula, nascidos ao fim da II Guerra no Portugal da medíocre ditadura de Antônio Salazar e diferentes em quase tudo, é conduzida por um narrador que, longe de tudo ver e tudo saber, está mais para hesitante que onisciente. Ao longo do livro, o narrador confunde-se com o autor, se transforma em personagem, cumprimenta, janta e faz perguntas à protagonista.
A estratégia do criativo Macedo garante reforça a verossimilhança literária e deixa pulgas atrás das duas orelhas do leitor. Ficam dúvidas ao final da leitura, mas assim não é a vida?
Após o ponto final, busco referências na internet (qualquer dia escrevo sobre meu o método de trabalho que desenvolvi para editar esse blog) descubro que críticos literários [2], estudiosos de literatura e outros intelectuais que gostam de botar rótulo em tudo, o classificam como pós-moderno [3]. Ou, pelo menos, consideram pós-modernos alguns recursos literários utilizados por Macedo.
Fiquei me perguntando: será que o pós-modernismo nasceu no século XIV? Afinal, na Divina Comédia [4] Dante também confundia narrador e autor, além de ter recorrido a uma personagem histórica, o poeta Virgílio, e jogado no meio de sua ficção, como também faz o escritor português em Pedro e Paula.
O tempo da narrativa também não é linear. Em todos os capítulos há a sinalização do período em que as ações se passam. Ora, as ações se passam nos anos 60, na juventude dos gêmeos, por exemplo, ora no tempo da narrativa,ou seja, nos final da década de 90.
E assim ao contar a história de Paula, – leve, simpática, sensual – e de Pedro – inteligente, contraditório e ansioso em atender às expectativas dos pais -, fala-se também de um país sob a ditadura, dos primeiros anos livres da repressão e dos alcagüetes e das conseqüências do processo de descolonização na vida das pessoas.
Dito assim, até parece que os gêmeos, homem e mulher não por acaso, são duas alegorias do passado e do futuro, do reacionário e do democrático, da ambição e do desapego. Nada disso. A literatura desse autor não é simplória. Seus personagens são carregados de humanidade, de contradições e sentimentos. Há gente dentro deles, como diz o narrador/autor/personagem, que garante a verossimilhança e a densidade sem perder tempo com descrições de rostos, aspectos físicos ou ambientes.
A luta política está presente em todo o romance, com o narrador deixando claro de que lado está, porém se ilusões, como fica evidente no último capítulo, uma espécie de prólogo ou balanção da história.
Na condição de leitor de autores angolanos e moçambicanos, foi extremamente prazeroso ler algo sobre as guerras coloniais travadas por Portugal na ótica e na sintaxe de um português. Mesmo que Macedo tenha passado sua infância em Moçambique, o ponto de vista desse romance é claramente dos personagens europeus, incluindo um agente da polícia secreta que se refugia no Brasil, “uma espécie de Portugal e colônia num só país”. Definição que vale por algumas teses de sociologia.
Sobre o escritor
Helder Macedo é português, escreve em português, mas nasceu na África do Sul em 1935, passou a infância em Moçambique e é professor de literatura brasileira e literatura portuguesa na Inglaterra, onde vive. É mais conhecido como crítico literário e poeta, pois só estreou como romancista em 1991, com Partes da África. É estudioso de Machado de Assis, cuja obra o influencia tanto que os nomes dos personagens Pedro e Paula são claramente inspirados pelos gêmeos Pedro e Paulo do romance Esaú e Jacó.
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Endereços neste artigo:
[1] Imagem: http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/01/PEDRO_E_PAULA_1300709589P.jpg
[2] críticos literários: http://criticaecompanhia.com/greg.htm
[3] pós-moderno: http://www.ileel.ufu.br/anaisdosilel/pt/arquivos/silel2011/1981.pdf
[4] Divina Comédia: http://www.caotico.com.br/a-divina-comedia-o-inferno/
[5] Imagem: http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/01/HELDER-MACEDO.jpg
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