Pelo Centro das nossas desatenções

barluizTinha apenas 22 anos quando tive de arriscar a vida longe de casa. A opção por São Paulo foi menos por critérios econômicos ou estratégicos que afetivos, por conta dos inúmeros primos de minha mãe que viviam e ainda vivem por lá.

Fui feliz em São Paulo por quatro anos. Conheci minha primeira mulher numa festa no Butantã, meu filho Pedro nasceu perto do Ibirapuera. Morei no Cambuci. Fui a jogos no Morumbi, Pacaembu, Canindé e Parque Antártica. Trabalhei com um raro gênio do jornalismo, Jorge de Miranda Jordão, que fazia um jornal diferente de todos esses que hoje são vendidos nas bancas. Aliás, qualquer dia eu conto as histórias de Miranda que, por sinal, é carioca.

Minha felicidade era um paradoxo, pois achava insuportável viver em São Paulo. Sempre que dava, pegava o ônibus e passava fim-de-semana no Rio. Era como voltar ao Brasil. Tomei muita cerveja em Marechal Hermes, subúrbio em que meu subeditor Édson, o sujeito que me apresentou ao universo de Nélson Rodrigues, tinha um apartamento. Vivi um inesquecível reveillon de 1993 em Marechal. Também andei muito pela Vila Isabel e Santa Tereza, onde minha amiga Carlinha vivia, na mesma rua onde morou Manoel Bandeira.

Depois de alguns anos, fui ao Rio nessa semana que acabou de acabar. Fiz algo que sempre tive vontade de fazer na cidade que já foi capital do Império e da República: perambular pelo tempo. Porque andar pelas ruas do centro do Rio é o mesmo que dar idas e voltas por 400 anos de história.

E desta vez, de mãos dadas com Geórgia, caminhei mais do que bebi.

Nas vezes anteriores, sempre passava pelas ruas do centro, mas tinha consciência de que estava perdendo alguma coisa. Tive certeza disso quando me caiu às mãos um livrinho chamado Centro das Nossas Desatenções, do baiano Antônio Torres, que o escreveu sob encomenda da prefeitura do Rio e da editora Relume Dumará.

Para atender à encomenda, Torres andou muito pelo centro do Rio e contou o que sentiu nessas encaminhadas, encontrando capítulos inteiros da História do Brasil por todos os cantos. Torres interrompeu o processo de criação de outro livro porque curtiu muito a “viagem” de imaginar o clima dos séculos anteriores pelas ruas por onde passava.

Na verdade, há mais do que história nas ruas do Rio. Num trecho de, no máximo, 200 metros há mais poesia, vida e surpresas do que posso descrever com palavras. Seguia em marcha acelerada para almoçar salsichas e costela de porco no Bar Luiz (foto lá em cima) quando encontrei a Travessa das Belas Artes, minúscula, estreita, com palmeiras plantadas em jarros na calçada do lado direito.

barImperatrizLeopoldinaSem objetivo ou razão, dobrei à direita na Belas Artes, depois à esquerda na rua Imperatriz Leopoldina, onde na esquina da rua Luís de Camões, conheci Raimundo no balcão de um boteco cujo nome esqueci de anotar. Pouco importa o nome do bar, importa sim Raimundo, satisfeitíssimo em explicar a decoração do bar para o casal de turistas curiosos. Sob nossas cabeças balançavam uma carapaça de tatu-canastra, chifres de carneiro, caveira de boi, peneira de fritura enferrujada, cabeça de bode, celular tijolão da Motorola, bandeira do Brasil, chapéu de corno e outras dezenas de coisas inúteis. Raimundo é cearense e fala com o sotaque de sua terra.

No lado oposto do centro, a poesia, a beleza e a história precisam dividir espaço com um horroroso viaduto que passa bem no meio da praça XV. Até aí tudo bem, quantas outras praças nas capitais brasileiras não foram derrotadas por viadutos horrorosos?

O problema é que a praça XV não é qualquer praça. Foi ali que desembarcou dom João VI e sua corte, fugindo da guerra na Europa e instalando na América a capital do Império Português. Na praça XV está o Paço Imperial, o palácio onde morou dom Pedro II e a estação das barcas que atravessam a baía rumo a Niterói, Paquetá e Cocotá, que não sei onde é nem do que se trata.

Parece que a vitória do viaduto, ou seja, do carro, é temporária. A prefeitura está anunciando que vai derrubar o bicho e devolver a paisagem aos cariocas, ou melhor, aos brasileiros. Só acredito depois de pronto. Por questão de justiça histórica, deviam exumar os restos mortais do prefeito estúpido que construiu aquela porcaria e jogar os ossos no lixão. Seria um bom exemplo para os demais.

A poucos metros do Paço Imperial, existe uma ruela chamada Travessa do Comércio, encimada por um arco, o Arco dos Telles,  única coisa que escapou de um incêndio na casa desse pessoal. A travessa acaba em outro beco, a rua do Rosário, onde é possível comprar chapéus Panamá legítimos numa barbearia. Esse é o caminho para o Centro Cultural Banco do Brasil, onde funcionou a sede do Banco criado por dom João.

Pois bem, nesse Centro Cultural adolescentes dos colégios públicos, comerciários no horário do almoço, eu e minha mulher, assistimos a um show ao meio-dia-e-meia. Por seis reais (estudantes pagam a metade) escutamos a voz cristalina da senhorita Nina Becker e a Banda do Amor.  Tava bem acompanhada a cantora.

Ah, e a paisagem humana? Os cariocas são arrogantes, metidos a besta como reza a lenda? Deve haver muitos assim, como aqui no Recife, onde acreditamos que o Capibaribe e o Beberibe se juntam para formar o Oceano Atlântico.

Na maioria dos lugares por onde passei, nesta e nas visitas anteriores, o que encontrei foi gentileza, simpatia e a tranqüilidade de quem se acostumou a escutar idiomas e sotaques de todos os lugares do mundo. É bem verdade que na famosa Capela, na Lapa, um garçom espertalhão tentou nos empurrar um cordeiro completo, mesmo sabendo que a metade do prato seria o suficiente para o casal. Aliás, cordeiro por cordeiro, em Petrolina dá para comer coisa melhor.

Mas foi na porta da Sala Baden Powell, em Copacabana, que uma senhora nos ofereceu dois convites que estavam sobrando em sua bolsa, nos proporcionando inteiramente grátis um show do percussionista Marco Lobo e da cantora Maria Gadu.

No dia seguinte, na rua Regente Feijó, a caminho do Saara (o bairro de São José de lá, só que mais limpo e organizado), paramos para escutar uma música que vinha de dentro de uma oficina de equipamentos de som. Um senhor que ia subindo a escadinha na lateral da oficina, parou, exibiu um largo sorriso, com voz mansa disse que também gostava muito daquela música e deu a dica de que dava para comprar o CD pirata nos camelôs da rua. Ficamos ali, conversando sobre a beleza da voz.

Por essas pequenas descobertas, acredito que se, aos 22 anos, eu tivesse ido parar no Rio e não em São Paulo, provavelmente jamais teria voltado para o Recife. Mas, como diz o velho Lúcio França, meu pai, com toda sua veia poética, “se” minha mãe tivesse uma carreira de peitos seria uma porca.

Para quem não pode ou não queira bater perna pelas ruas do Rio, recomendo o livrinho de Antônio Torres, mas acho que só dá para encontrar nos sebos, e olhe lá.

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11 Comentários

  1. Publicado 1 de novembro de 2009 em 11:52 | Permalink

    Gostaria que você registrasse sua inevorável propensão pra formar opinião e comunistas, ou alguma coisa sobre o grande Joca. Muito feliz por você ter ampliado seus escritos além da esfera esportiva. Naturalmente, conduz quem te segue a retomar o hábito de ler. Tou te seguindo, pra variar. Só falta voltar as peladinhas de domingo, regadas a cervejas no Caprinos.

  2. Publicado 1 de novembro de 2009 em 12:17 | Permalink

    Lino meu velho,

    vamos retomar a pelada sim! Vamos nos comunicar por e-mail durante a semana.

  3. Publicado 3 de novembro de 2009 em 17:31 | Permalink

    Do caralho este postagem. Perfeita. Tenho uma inveja fundamental de quem consegue encaixar uma “encimada” no texto, coisa que não consigo há tempos.
    O livro citado foi apenas uma bela desculpa para uma bela crônica.
    Espero um texto sobre a morte de Denner, e o choro solitário no banheiro de casa.
    Samarone

    ps.Eduardo Galeano na quinta. Já estou com os ingressos.

  4. Publicado 3 de novembro de 2009 em 18:19 | Permalink

    Passei 3 meses morando, ou melhor, trabalhando no RJ e não conheci 1/3 do que descreves, mas os cariocas conheci muito bem, e são ótimas pessoas.
    Adorei o texto, leve, rápido e interligado.

  5. Yvette Teixeira
    Publicado 4 de novembro de 2009 em 14:16 | Permalink

    Engraçado, eu sempre disse que gostava do Rio, apesar do calor de matar, mas não dos cariocas. Pode ser preconceito porque fui casada com dois e os casamentos não foram nada bons? Um de cada vez, claro! Prestarei mais atenção. O texto está muito bom mesmo!

    Segue um texto do Benedetti, porque descobri que você gosta. beijo

    As estações são pelo menos inverno, primavera e verão. O inverno é famoso pelas echarpes e pela neve. Quando os velhinhos e as velhinhas tremem no inverno, diz-se que tiritam. Eu não tirito porque sou menina e não velhinha e também porque me sento perto da estufa. Nos invernos dos livros e dos filmes aparecem trenós, mas aqui não. Aqui também não tem neve. Que chato o inverno aqui. No entanto, tem um vento grandioso que se sente sobretudo nas orelhas. Meu avô Rafael diz às vezes que vai se recolher para seus quartéis de inverno. Não sei por que não se recolhe para seus quartéis de verão. Tenho a impressão de que nos outros ele vai tiritar, pois é bem idoso. Nunca se deve dizer velho, mas sim idoso. Um menino da minha sala disse que sua avó é uma velha de merda. Eu ensinei que em todo caso deveria dizer idosa de merda.
    Outra estação importante é a primavera. Minha mãe não gosta da primavera porque foi nessa estação que prenderam meu pai. Prenderam com um A na frente é o que se faz na escola. Mas sem A é como ir à polícia. Prenderam meu pai sem A na frente e como era primavera ele estava com um pulôver verde. Na primavera também acontecem coisas lindas, como quando meu amigo Arnoldo me empresta o skate. Ele bem que me emprestaria no inverno, mas Graciela não deixa porque diz que tenho tendência a me resfriar. Na minha sala não tem mais ninguém com tendência. Graciela é minha mãe. Outra coisa muito boa que tem na primavera são as flores.
    O verão é a campeã das estações, porque tem sol e, sem dúvida, porque não tem aulas. No verão só quem tirita são as estrelas. No verão todos os seres humanos suam. O suor é uma coisa bem úmida. Quando alguém sua no inverno é porque está por exemplo com bronquite. No verão minha testa sua. No verão os vagabundos vão à praia porque de maiô ninguém os reconhece. Na praia não tenho medo dos vagabundos, mas dos cachorros e das ondas. Minha amiga Teresita não tinha medo das ondas, era muito valente e uma vez quase se afogou. Um senhor não teve outro remédio a não ser salvá-la e agora ela tem medo das ondas, mas ainda não tem medo dos cachorros.
    Graciela, quer dizer, minha mãe, repete e torna a repetir que tem uma outra estação chamada outono. Acho que pode ser, mas nunca vi. Graciela diz que no outono tem um agrande quantidade de folhas secas. É sempre bom que exista uma grande quantidade de alguma coisa, mesmo que seja no outono. O outono é a mais misteriosa das estações porque não faz nem frio nem calor e então as pessoas não sabem que roupa vestir. Deve ser por isso que nunca sei quando estou no outono. Se não faz frio, penso que é verão e se não faz calor penso que é inverno. E acaba que era o outono. Tenho roupa de inerno, verão e primavera, mas acho que não vão me servir para o outono. Lá onde meu pai está, o outono chegou bem agora e ele escreveu que está muito contente porque as folhas secas passam entre as grades e ele imagina que são cartinhas minhas.

    O trecho acima é de Primavera num Espelho Partido, o mais recente livro de Mario Benedetti a ganhar edição no Brasil, pela Alfaguara (Tradução de Eliana Aguiar, 218 páginas). O ponto de vista é o de Beatriz, menina que é um dos personagens centrais dessa história narrada de forma fragmentada. Para dar conta da complexidade das relações humanas em circunstâncias de pressão externa extrema, Benedetti lança mão de uma estrutura episódica, que alterna os pontos de vista entre Beatriz, seu avô Rafael, sua mãe, Graciela e seu pai Santiago. Preso durante a ditadura que oprimiu o país de 1974 a 1983, Santiago passa cinco anos na cadeia rememorando os instantes domésticos de sua felicidade familiar e se comunicando por cartas com a mulher. Para Santiago, o mundo, a vida, ele mesmo, não mudaram, sua existência se dá em um presente congelado nos dias sempre iguais em sua prisão. Graciela, ao contrário, muda-se com a filha e o sogro para a Argentina, é obrigada a arranjar trabalho para sustentar a família e vai gradativamente mudando — mudanças essenciais que afetam não apenas os valores que ela partilhava com o marido mas sua própria paixão por ele.

  6. carla conde
    Publicado 9 de novembro de 2009 em 9:54 | Permalink

    Inácio, sensacional a sua crônica do meu Rio. Me deu uma saudade danada de vc e daquele tempo em que de vez em quando vc fugia de sâo Paulo e se exilava lá em casa!!!! Adorei ser citada no seu texto, é muito bom fazer parte das lembranças boas da tua vida, assim com vc faz da minha. Adorei ver os lugares por onde passo todo dia pelos olhos de quem vê algo pela primeira vez, como uma criança!!! Vou lá na travessa das artes conhecer o tal raimundo e vou contar pro marcos Lobo que ele também foi citado !!(é,, o Rio de janeiro não é uma novela do manoel carlos, mas todo mundo se conhece…rsss)

  7. Geórgia Araújo
    Publicado 11 de novembro de 2009 em 22:43 | Permalink

    Que bom que você não foi morar no Rio, que você voltou de São Paulo, que está ao meu lado…
    Adorei essa postagem! BJS

  8. Claudio
    Publicado 23 de novembro de 2009 em 23:43 | Permalink

    Morei um ano no Rio e lembro de uma cronica de Drummond em que ele falava do trajeto de Copacabana ao Centro do Rio de Onibus e como, com o passar dos anos, nao reparava mais na paisagem. Ele usou a imagem maravilhosa de dois irmaos que pela convivencia cotidiana, esquecem de admirar as qualidades um do outro.

    O Rio eh uma maravilha, apesar dos times cariocas!

    Em setembro tambem fomos passar um fim de semana no Rio. Do carneiro no Nova Capela, Santa Tereza, Jardim Botanico (onde ficamos uma manha inteira) ao ensaio da Salgueiro na quadra da escola. Foi 1000!

  9. Rinaldo Vasconcelos
    Publicado 24 de novembro de 2009 em 19:06 | Permalink

    Inacinho,
    só uma correção; não é uma carreira de peito são duas. “Se minha mão tivesse duas carreiras de peitos ela era uma poica” !!!!
    Carlinha que bom ler notícias tua, entra em contato comigo:
    rinaldov@oi.com.br .

  10. diogenes
    Publicado 6 de maio de 2010 em 16:27 | Permalink

    Que bom que alguem ainda lembre do velho Diario Popular e do eterno e atual Jorge de Miranda Jordao.

    Um abraco de quem tb estava la.

    Diogenes

  11. Publicado 6 de maio de 2010 em 19:52 | Permalink

    Ô Diógenes,

    tu eras diagramador ou secretário-gráfico lá no Dipo, não era?

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