Ponto final… ufa!

arvoreDomingo, antes da uma da tarde. Setenta e nove dias desde a primeira vez que sentei a bunda na cadeira para batucar a primeira linha do Um Rio de Gente, cheguei ao fim colocando o ponto final na história de seu Zomilton, o barqueiro que faz a travessia do Capibaribe da Torre para a Jaqueira. Agora, é só esperar a revisão e fazer mais umas duas leituras, uma com o material impresso e mais outra com tudo diagramado.

Foi uma luta parir um capítulo a cada três dias. O pior é que os prazos do Funcultura estão todos estourados. Não precisava ter sido essa correria toda, mas atrasou bastante o processo da transcrição dos arquivos de áudio gerados por mais de 30 horas de entrevistas. O jeito foi arrumar tempo para escrever enquanto cuidava dos filhos nas férias ou trabalhava na preparação do carnaval de Olinda. Quase escrevo “organização” do carnaval, mas uma coisa não combina com a outra.

A reta final foi na pressa, corrida contra o relógio mesmo. Apesar disso, participar desse projeto foi uma experiência arretada de boa.

Verdade verdadeira, o livro começou a nascer em abril do ano passado, quando a equipe viajou a primeira vez para Brejo da Madre de Deus e Jataúba. Lá, entrevistamos seu Bartolo, um sujeito que fala pelos cotovelos na Passagem do Tó.

Na mesma viagem, deu para ter uma amostra significativa do que encontraríamos pela frente quando encontramos seu Cincinato, um sujeito de quase 100 anos e que esperou meio século para casar com a mulher que amava. Ele nos contou uma história de amor e de safadeza também. Sem safadeza, as histórias de amor ficam chatas, idealizadas, açucaradas, disneylandizadas.

Cincinato é o mais velho dos personagens do livro. O mais novo é o professor Arnaldo Vitorino, de Santa Cruz do Capibaribe, que tem 56 anos.

Nessa fase das entrevistas, a pesquisa de campo, o objetivo era ouvir as histórias dos moradores mais velhos e também dos bons contadores de histórias. Não buscamos a diversidade, mas ela veio sem muito esforço. O resultado foi um livro plural, com muitas vozes contando suas histórias e, a partir dela, a história da vida ao longo das margens do Capibaribe.

Ao escrever, dispensei as regras da reportagem. Resolvi manter um diálogo com as pessoas que tão generosamente dividiram suas memórias e opiniões conosco. Mantive o máximo possível do discurso e do jeito de contar dos entrevistados, inclusive muitos dos cacoetes da expressão oral permaneceram no texto. A ideia foi, além de registrar o conteúdo, manter intacta a forma. Não sei se consegui.

Admito: essa experiência não teve qualquer referência teórica ou acadêmica. Ou melhor, nesse meio tempo, li um trabalho produzido pelo pessoal do núcleo de história oral da USP, onde os autores afirmam que “o direito de contar a própria história é uma conquista”. Tentei ser um mero intermediário, um facilitador desta conquista, mas acho que isso é muita pretensão. Tudo bem, isso revela certa coerência, pois quem me conhece sabe que sou um sujeito muito pretensioso.

O livro não será vendido. O livro foi produzido com dinheiro público, então deve retornar para o povo. A maior parte da tiragem será distribuída para as bibliotecas e escolas municipais dos municípios que visitamos; outra parte será entregue para fundações, entidades públicas ou não-governamentais do Recife. E uma parte será distribuída para quem der as caras lançamento, que deverá acontecer em meados de março. Quando definirmos data e local, avisarei. Também voltaremos a visitar todas as pessoas entrevistadas para entregar seus exemplares.

Podem reparar que abusei da primeira pessoa do plural nesse texto, pois participaram do projeto a fotógrafa Tuca Siqueira, que clicou a árvore da foto lá em Jataúba, o produtor e ambientalista Alexandre Ramos, e à historiadora Jakeline Soares, que auxiliou na pesquisa.

Para concluir, o registro de uma feliz coincidência. Estava enfurnado em casa, escrevendo o antepenúltimo capítulo, quando Ivan Moraes Filho, o Ivanzinho do blog Bodega, recomendou o vídeo do depoimento da escritora nigeriana Chimamanda Adichie. Clique aqui para ver o vídeo. Um Rio de Gente é uma contribuição modesta ao esforço para que a história dos brasileiros não tenha apenas uma versão.

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12 Comentários

  1. Geórgia Araújo
    Publicado 22 de fevereiro de 2010 em 21:24 | Permalink

    Parabéns pela objetivo alcançado, pela prova de resistência e por conseguir ser brilhante apesar de todas as adversidades. Te amo!

  2. Publicado 23 de fevereiro de 2010 em 8:33 | Permalink

    Parabéns Inácio.
    É sempre bom concluir um trabalho.
    A única coia ruim foi que ficamos sem posts.

    Pode ter certeza que irei no lançamento e vou querer meu exemplar.

    PARABÉNS!!

  3. Publicado 23 de fevereiro de 2010 em 11:39 | Permalink

    É isso, meu querido. A paternidade é uma coisa linda:p

  4. Lea Cavalcanti
    Publicado 23 de fevereiro de 2010 em 12:00 | Permalink

    Inácio

    Tô doida pra ler o Rio de Gente, primeiro pela propaganda do autor, e o segundo motivo, não menos importante, por razões profissionais. Estou (juntamente com uma equipe) formatanto um programa de infraestrutura para as margens do velho Capibaribe.

    Lea

  5. Publicado 23 de fevereiro de 2010 em 18:25 | Permalink

    Parabens por esse grandioso espaço.Confesso que não conhecia.Foi numa dessas minhas viagens por essa grande rede que descobrir, por acaso, esse seu CAÓTICO.De repente ele pulou para os meus favoritos.Um abraço

  6. Publicado 23 de fevereiro de 2010 em 20:11 | Permalink

    Obrigado, Jair. Apareça sempre por aqui.

  7. Publicado 24 de fevereiro de 2010 em 9:55 | Permalink

    Compromete-se portanto o autor a dedicar-me uma cópia quando do lançamento deste
    referido livro.

    Cidade de Olinda
    24 de fevereiro de 2010
    Protocolo nº 00000000000000000000000000000000000000000000000000001/2010

  8. Antônio Lino Jr
    Publicado 24 de fevereiro de 2010 em 19:35 | Permalink

    Dessa vez me convide, juro que não falarei sobre futebol, até porque nesse dado momento, tá tão sem conteúdo que perde a graça.

  9. Publicado 25 de fevereiro de 2010 em 15:37 | Permalink

    Reserva uns exemplares pra Rede de Bibliotecas Comunitárias, Inácio. São, atualmente, creio que umas 15 bilbiotecas que compõem a rede. Falo contigo no lançamento. Beijos. Tenho certeza que o livro deve estar maravilhoso…

  10. Anizio Silva
    Publicado 25 de fevereiro de 2010 em 20:45 | Permalink

    A diagramação do livro é BOA, e as fotos também (as que vi). Resta saber dos textos…

  11. Publicado 25 de fevereiro de 2010 em 21:22 | Permalink

    Fabiana,

    pode contar com seus 16 exemplares. Um seu e 15 das bibliotecas.

  12. Julio Vila Nova
    Publicado 6 de março de 2010 em 19:57 | Permalink

    Inácio, já definiu os detalhes do lançamento?
    Se quiser, o Mamulengo abre as portas pro Rio de Gente.
    Se puder, separe um exemplar pra sala de leitura do Depto.de Letras da UFRPE.

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