Primavera num Espelho Partido

Acabo de assistir pela TV as imagens da festa da posse do ex-tupamaro Pepe Mujica no meio das ruas de Montevidéu. Simpático e bonachão, o novo presidente uruguaio me levou de volta às páginas de Primavera num Espelho Partido, de Mario Benedetti, cuja leitura acabei às vésperas do carnaval.

Benedetti me toca profundamente. Sua prosa é terna e delicada. Foi com delicadeza que tratou de um tema tão duro e complexo como as vidas separadas pelas ditaduras militares na América Latina dos anos 60 aos 80.

O livro tinha tudo para ser pesadão e angustiante, afinal o personagem principal, Santiago, está preso numa penitenciária uruguaia. Sua família, em algum outro país latino-americano – acho que é o México -, tentando levar uma vida normal no exílio. O tempo passa em ritmos diferentes dos dois lados dos muros da cadeia. Mas Benedetti surpreende com leveza e esperança nos homens.

Volto a Mujica, o presidente que já foi guerrilheiro e poderia ter sido personagem do livro. É que Benedetti intercala relatos verídicos ou autobiográficos – ele próprio exilado – com a ficção das cartas de Santiago, as confidências da sua esposa Graciela, os comentários do amigo Rolando, as redações escolares da pequena Beatricita ou os desabafos do velho Rafael, seu pai.

Não interessa as condições da cadeia, divergências políticas ou a violência da repressão. Benedetti é um poeta e um humanista. A ele, interessam os sentimentos. Santiago está na cadeia, sofre imaginando a filha crescer. A menina sonha com o pai. Graciela trabalha, se vira para criar a menina e sente que a vida a levou para longe da cela onde Santiago tenta não mofar. O velho e sensível Rafael sabe que seu filho vai sofrer, mas não julga a nora, a qual, a bem da verdade, é um mulherão.

Durante a leitura de Primavera… li em algum lugar que as ditaduras na América Latina não foram nocivas apenas pelo aspecto político ou econômico, mas por terem interrompido vidas, sonhos e instaurado o medo em toda uma geração. Eu, que me tornei adulto em pleno exercício democrático, tento imaginar o quanto se pode perder por estar impedido de participar do jogo político. Por isso, é fundamental jamais esquecer.

A história da segunda metade do século XX no Brasil e no restante da América do Sul precisa ser contada por quem sofreu e não pelos carcereiros, que tentaram apagá-la. Permitir que um general ou uma emissora de TV construam essa história é o mesmo que delegar a um assassino a tarefa de contar a história da vida de sua vítima, ou seja, de como ela mereceu morrer.

Nesse livro, Benedetti dá uma enorme contribuição para que essa história seja contada de outra forma, pois escreve sobre os estragos da ditadura nos corações dos amantes e na dinâmica de uma família.

O fato de Mujica ser, desde ontem, o presidente do Uruguai justifica as esperanças e a fé de Benedetti no ser humano.

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3 Comentários

  1. Publicado 2 de março de 2010 em 0:53 | Permalink

    Olá.
    Muito obrigada pela indicação do Caótico. Adorei. E se tratando de Benedetti gostei ainda mais. Meu autor preferido. Primavera num espelho partido está no topo da minha lista. Com uma temática parecida eu citaria “Andamios” também do Benedetti. Foi o último que li dele e recomendo.

    Abraços!

    Já estás entre os meus links.

  2. Publicado 2 de março de 2010 em 1:02 | Permalink

    Aaaah, o país onde estava a sua família era a Argentina. Há uma passagem em que ele fala no aeroporto de Ezeiza. =)

  3. Publicado 2 de março de 2010 em 8:11 | Permalink

    Lidiane,

    inicialmente, também pensei que o país do exílio pudesse ser a Argentina. Mas acabei apostando minhas fichas no México, afinal no final dos anos 70 e início dos 80 (1981/82) o ar na Argentina continuava irrespirável para parentes de presos políticos de qualquer país do Cone Sul. Além disso, a viagem de avião que Santiago faz ao sair da cadeia para reencontrar a família é longa demais para ser apenas a travessia do rio da Prata.

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