Primeiras leituras

80diasNão sou nenhum prodígio, ou seja, aprendi a ler na alfabetização mesmo, com os seis anos da idade regulamentar. Lembro de uma porção de coisas dessa época, incluindo nessa lista o fato de que costumava apanhar no colégio de um menino maior do que eu, da timidez galopante e da escassa vocação para atividades físicas do gênero “corrida de velocípede”.

Lembro com surpreendente nitidez que, na mesma época em que aprendi a ler, devorava gibis e mais gibis de Walt Disney, hábito de leitura que não faz de mim nenhum gênio hiperprecoce. Mesmo assim, não invejo as crianças que orgulhavam os pais por terem lido Machado de Assis com oito anos. Meu pai costumava parar o Fusca ao lado de uma enorme banca de revistas que ainda existe na frente do Mercado de Boa Viagem e me dava tempo para que eu escolhesse duas ou três revistinhas.

Demorei a cansar de histórias em quadrinhos, pois ainda na mais tenra infância troquei Tio Patinhas pelo Fantasma, o “espírito-que-anda” das selvas de Bengala, sempre sob influência do velho Lúcio França, leitor de gibis até hoje.

Hoje, quando chegaram dois livros embrulhados em papel madeira que comprei no sebo virtual, minha memória resgatou de algum arquivo a informação de que os primeiros livros que passaram pelos meus olhos foram os volumes de bolso da Edições de Ouro.

Esses livros também chegavam até minha casa entregues pelos correios. Não foi preciso muito esforço para encontrar a explicação: se meu pai gostava de quadrinhos, minha mãe vivia fazendo palavras cruzadas coquetel, editadas pela mesma editora.

Devorei muita coisa de Júlio Verne. Fiquei fascinado por A Volta em Mundo em 80 Dias, mas li ainda Cinco Semanas num Balão, Viagem ao Centro da Terra e, é lógico, 20.000 Léguas Submarinas.

Até há poucos minutos, não sabia muita coisa de Júlio Verne, mas graças ao Google, descobri que o sujeito estava de saco cheio de trabalhar na Bolsa de Valores de Paris quando assinou um contrato com uma editora para escrever duas histórias anuais sobre viagens fantásticas e aventuras, sempre apegado às descobertas científicas e às grandes explorações do mundo em plena revolução industrial.

KarlMayA viagem de Phileas Fogg, o personagem principal da Volta ao Mundo…, me empolgou, é verdade, mas o que me tocou mais profundamente foi Winnetou, de um alemão chamado Karl May (foto).

Mal e porcamente, guardo a lembrança que o tal Winnetou era um índio americano, um sujeito honrado, cheio de dignidade e corajoso que só a gota-serena-da-bubônica-do-rato. Não tenho certeza, mas acredito que era um “bom selvagem” que defendia sua terra e o modo de vida do seu povo.

Instigado pela memória, continuei apelando para o Mr. Google. Então, surpresa! Passei quase 30 anos jurando que Winnetou era o título de um romance. Nada disso, era uma série, uma coleção. Ah, se eu soubesse…

Tem umas curiosidades sobre Winnetou: pelo que li nas rápidas pesquisas que fiz hoje, o alemão acabou se tornando um dos autores prediletos de Hitler, mas não influenciou em nada o nazismo. Pelo contrário, May defendia em sua obra o diálogo entre os povos e as culturas. Hitler só deve ter lido Winnetou para se entreter mesmo.

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2 Comentários

  1. samarone
    Publicado 22 de agosto de 2009 em 21:11 | Permalink

    Engraçado, não sei como diabos esse Winetou chegou à minha biblioteca, e nunca dei a mínima para ele. Vou sacar agora.
    Faltou você dizer que economizava o dinheiro da merenda para comprar livros, um episódio que emocionou meus ex-alunos da Kabum!
    Samarone

  2. Geórgia Araújo
    Publicado 24 de agosto de 2009 em 10:03 | Permalink

    Esse texto me fez lembrar as minhas “primeiras leituras”, dos livros de estórias infantis herdados dos meus irmãos mais velhos e do prazer da descoberta da leitura e da liberdade que ela nos dá!

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