Depois de ler Crime e Castigo, tomei coragem para mergulhar em outro Dostoievski e escolhi Recordações da Casa dos Mortos, que li no final de 2007. Sei disso porque tenho a mania besta de, terminado um livro, anotar nas páginas iniciais o mês e o ano em que cheguei ao ponto final.
Sei que tanto o título quanto o tema podem assustar, mas foi um dos livros mais saborosos que li nos últimos anos. Resumindo em duas linhas, diria que Recordações… é uma ficção construída a partir da experiência real que o barbudo Dostoievski viveu durante os anos em que cumpriu pena num presídio na Sibéria.
Nesse livro, que originalmente foi publicado em capítulos pelo jornal de Mikhail, irmão do escritor, a reflexão profunda que marca Crime e Castigo já está presente, porém a narrativa é bem mais solta, seus capítulos são quase crônicas do cotidiano da prisão e nem sequer estão alinhavados em ordem cronológica. É uma boa pedida para quem ainda não leu os outros livros mais complicados do russo.
O mais interessante de Recordações da Casa dos Mortos é que o relato do dia-a-dia de centenas de homens num presídio gelado e distante de tudo não se resume à narração dos fatos e descrições dos ambientes como num diário, por exemplo. Dostoievski não era escritor para fazer um relatozinho qualquer e ficar por isso mesmo. Ninguém exagera quando diz que o cara era um gênio.
Na cadeia, no frio, no meio de um monte de gente barra-pesada, na precariedade e sob trabalhos pesados, o sujeito tem uma fé enorme no ser humano, na diversidade e na capacidade da homem. Dostoievski gostava de gente, ele acreditava piamente que as pessoas podem melhorar, se superar, aprender. Essa sua crença está presente na narração de cada situação e de cada presidiário com que seu personagem e alter-ego Alexander Petrovich Goriantchikov conviveu no desterro siberiano.
Por isso é que não dá para simplificar em duas linhas. Esse livro se passa num presídio, mas na verdade é um livro sobre fraternidade, solidariedade e esperança.
Não pretendo me especializar em Dostoievski, mas a literatura desse sujeito me emociona tanto que já incluí Os Demônios e Irmãos Karamazov na minha lista de prioridades a serem compradas no sebo.
Sobre o escritor

Dostoievski: pensador e gênio da prosa
Fiódor Mikhailovitch Dostoievski nasceu em 1821, em Moscou, e sofreu muito durante a vida toda. Sua mãe morreu quando ele ainda era criança, seu pai era tão cruel que ele rezava pedindo para ficar órfão, era epiléptico, fracassou redondamente no primeiro casamento, foi preso, viveu na miséria, gastava o pouco que ganhava em jogo. Quando começou a fazer sucesso, morreu. Se fosse pernambucano, com certeza seria torcedor do meu Santa Cruz.
4 Comentários
Li dois livros de Doistoievski, que me marcaram demais: Crime e Castigo e Os Irmãos Karamázov. Depois, comecei a ler O Idiota, mas não gostei muito, parei na metade e fiquei um pouco frustrada por isso. Vou ler Recordações da Casa dos Mortos, pra retomar o pique. Obrigada pela dica.
PS: Postei um desabafo tricolor em meu blog. Dá uma passadinha por lá…
Fica à vontade para publicar o desabafo. Nossa intenção é essa mesmo, compartilhar a dor… É o que nos resta agora… (desculpa responder aqui. Não tinha teu e-mail)
França, depois dessa, vou ter que retomar “Crime e Castigo”, que ficou me entalando. Agora terei que comprar também esse “Recordações”, que parece ser mesmo imenso.
Botei um pedido literário para você no Estuário de hoje. Vê lá.
Sama
Crime e Castigo e Os Irmãos Karamázov são os clássicos de Dostoievski que todos devem iniciar na literatura existencialista.
Me empolguei: vou procurar Memórias e ver se consigo imergir o suficiente pra apreciar mais ainda
Parabéns pelo blog, Inácio!
Um Trackback
[...] ficando íntimo de Dostoievski. Viciado também. O problema é que tamanha intimidade implica em mais responsabilidade: sinto o [...]