Relato de um lançamento cheio de gente

Eram mais de dez da noite quando o lançamento de Um Rio de Gente acabou. Meu estado era de petição de miséria. Eu e Tuquinha autografamos uns 290 livros durante três horas. Nunca pensei que ficar sentado, escrevendo duas ou três frases aparentemente inteligentes e assinando embaixo fosse algo tão cansativo. Depois do último livro, contabilizava dores no braço direito, nas costas e a vista ardendo.

As dedicatórias não variavam muito, duas ou três, de acordo com a cara do freguês. Para Júlia Kacowicz, do Diário, que entende dessas coisas de meio-ambiente, escrevi algo ecologicamente correto. O livro de Luciana Santos recebeu uma frase mais politicamente engajada. No finalzinho, não conseguia repetir a letra de jeito nenhum: tinha que mudar os movimentos da mão para driblar uma dorzinha sacana com vocação para virar uma tendinite.

Ontem, me arrastei o dia todo, estropiado. Parecia que tinha disputado uma meia-maratona na véspera. O fato de, só nos acréscimos do segundo tempo, terem descoberto que havia um ventilador de teto bem acima das nossas cabeça não nos ajudou muito.

Dizem que o lançamento foi bem organizado. Iniciei o parágrafo com “dizem” porque, autografando livros, não vi nada da festa que Alexandre Ramos e Tuca organizaram. Tinha bolo de macaxeira, tapioca e uma inédita raspa-raspa com vodca. Nada disso eu vi. Mas tomei uma dúzia de copos de suco de fruta, mas só depois que os garçons descobriram que a dupla que estava de castigo na mesa eram as estrelas da festa. Aposto que foi Geórgia, a menina-dos-meus-olhos, quem avisou.

As poetisas lideradas por Cida Pedrosa fizeram uma leitura de trechos do livro. Escutei trechos e agradeço muito às declamadoras, mas não conheci nenhuma delas. Cida, aliás, escreveu um texto em seu Interpoética que me encheu de satisfação e inflou meu ego.

A quantidade de gente que compareceu ao Mamam surpreendeu a mim e a Alexandre. Como os livros só ficaram prontos três dias antes, o trabalho do assessor de imprensa Daniel Vilarouca foi bastante prejudicado. O temporal que caiu de tarde e o engarrafamento paulistânico na Agamenon Magalhães me deixaram ainda mais céticos.

Não acredito que a importância de qualquer coisa possa ser aquilatada pelo tamanho do público, mas estou convencido que a pequena multidão que foi ao Mamam confirmou o quanto foi acertada nossa decisão de não comercializar o livro.

Muita gente que estava lá nem passaria por perto se fizéssemos o lançamento numa livraria sofisticada e cobrássemos 3o contos por exemplar. E o livro foi produzido com recursos públicos, da pesquisa à impressão. Ou seja, não nos pertence. Por isso, a distribuição gratuita no lançamento. Por isso, a distribuição para escolas e bibliotecas. É preciso devolver ao povo às histórias contadas pelo povo simples do Capibaribe.

Agradeço a Beth e Sílvia do Mamam pela acolhida. Agradeço a todos que foram ao lançamento, mas agradeço também aos que não foram. Se tivesse ido mais gente, eu e Tuca teríamos saído de maca.

Agradeço publicamente a Alexandre, à própria Tuca Siqueira e ao povo da Via Design. É bom demais trabalhar em equipe com gente decente, instigada e generosa.

*****

A foto lá em cima de Passarinho. O pirralho é o caçula Bruno.

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8 Comentários

  1. Publicado 28 de março de 2010 em 22:04 | Permalink

    Inácio,

    o lançamento foi bem organizado sim. O bolo de macaxeira e especialmente o raspa-raspa com vodca estavam ótimos. Relembrei a infância quando tomava raspa raspa na praia com meu avô (sem a vodca, claro).

    Vou começar a percorrer o rio e o livro. Mas já digo que o projeto é genial. É desse tipo de material que precisam nossas bibliotecas, já que “entendo dessas coisas de meio ambiente”: um registro do meio ambiente completo, com sua gente, seu rio e suas histórias.

    Abs, Júlia

  2. Publicado 28 de março de 2010 em 23:42 | Permalink

    Que noite linda! As meninas do Vozes Femininas arrasaram! Eu poderia ter ficado lá e ouvi-las recitar o livro inteiro, sem problemas! Mas aí, elas é que teriam de sair de maca do MAMAM! Mais uma vez parabenizo pelo trabalho tão bonito, uma verdadeira declaração de amor a um personagem tão importante e que anda tão abandonado. Que “Um rio de gente” consiga tocar a consciência e o coração de todos que o lerem. E com certeza, vai! Agradeço muito a visita lá no blog! Volte sempre, visitante ilustre! Abraço!

  3. Lea Cavalcanti
    Publicado 29 de março de 2010 em 13:29 | Permalink

    inácio

    Acho que se você encarasse o raspa-vodka-raspa não sentiria tantas dores no outro dia.

    E…uma vez encarei uma fila de umas mil pessoas para uma assinatura de Saramago (em São Paulo), sim assinatura e só, e ilegível, na verdade, depois da quadringentésima canetada era impossível ser ele, acho que ele estava psicografando; enfim, o velhinho sorria para todo mundo, mais de mil sorrisos seguidos, imagine a dor na bochecha do outro dia.

    Deixa de ser reclamão rapaz.

    Ah! Está faltando a minha dedicatória.

    Parabéns, e já estou mergulhando no rio gente.

    Lea

  4. Alexandre Cavalcanti
    Publicado 29 de março de 2010 em 21:58 | Permalink

    É amigo, tá pensando que vida de escritor é fácil?
    Mas acredito muito que todo sacrifício valeu a pena.
    Parabéns pelo seu “RIO” que banha toda essa “GENTE” contida nesse brilhante relato.

  5. Publicado 5 de abril de 2010 em 14:45 | Permalink

    SInto não ter ido, meu velho. Mas parabéns e um abraço forte.

  6. Desirée Machado
    Publicado 22 de junho de 2010 em 16:30 | Permalink

    Inácio,
    Como posso comprar o livro?

    Você tem algum exemplar ainda?

    Aguardo a resposta.

    Obrigada.

  7. Publicado 22 de junho de 2010 em 17:32 | Permalink

    Desirée,

    estamos fazendo a distribuição entre as entidades e as redes municipais de educação. Deve sobrar alguma coisa sim. Pelo menos essa é a nossa expectativa. Vamos manter contato.

  8. gildo
    Publicado 6 de setembro de 2010 em 11:10 | Permalink

    Parabéns pelo belo trabalho realizado, retratando as histórias de pessoas simples que construiram suas vidas às margens do Capibaribe. E, obrigado por incluir a do meu avô, o quase centenário, José Cincinato da Silva. Fiquei muito muito feliz em vê-lo eternizado nas páginas de “Um rio de Gente”.

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