Esta é a primeira vez que escrevo sobre um livro que não li. Apesar de nunca sequer ter ficado frente-a-frente com a capa de Roliúde, vou rasgar elogios ao romance escrito por Homero Fonseca. Ou melhor, vou falar bem mesmo é da peça que o ator e diretor João Ricardo Oliveira montou a partir do livro do pernambucano e foi encenada no Hermilo Borba Filho dentro da programação do Festival A Letra e a Voz, muitíssimo bem organizado pela Prefeitura do Recife.
Já convivi bastante com Homero quando fui repórter do Diário de Pernambuco e ele dirigia a redação. A vida acabou nos afastando. Pra piorar, encaixo-me no perfil de “leitor desatento” que José Teles definiu no Jornal do Commércio de segunda-feira, 30 de agosto. Mas tenho uma desculpa: de tanto viajar para cima e para baixo nos meus quatro anos no Unicef, nem sabia que meu ex-chefe tinha escrito esse romance, a história de um matuto doido por cinema, que assistia aos filmes e depois contava tudinho para o povo nas feiras do interior.
Uma ótima ideia, aproveitada com por João Ricardo, carioca que vive no bairro da Ilha do Governador e se define como um professor/ator que pretende, em breve, ser ator/professor para, depois, reviver como ator mesmo, sem depender de nenhuma outra renda. Foi isso que ele contou nos dois dedos de prosa que o ator e autor tiveram com a plateia logo depois do espetáculo.
No bate-papo, o ator contou que chegou cedo a um shopping-center do Rio para assistir a um filme. Comprou ingresso e resolveu gastar o tempo livre olhando as prateleiras de uma livraria. Bateu o olho na capa de Roliúde, atraído pela grafia da palavra. Pegou o volume, folheou, leu as orelhas, foi para a fila do caixa e saiu carregando o livro na sacolinha plástica da loja. Numa mesa da praça de alimentação, começou a ler. Resultado: perdeu a sessão do filme, mas ficou tão encantado que resolveu adaptar a obra para o teatro, transformando o romance num monólogo.
Veio ao Recife discutir o assunto com Homero, que percebeu o tesão de João Ricardo pelo seu livro e deu carta branca para a adaptação, além de explicar os significados das expressões do pernambuquês falado por Bibiu, o personagem (quase uso o adjetivo “extraordinário”, mas como não li o livro, resolvi maneirar) criado por Homero e da mesma dinastia de João Grilo.
Depois de receber o sinal verde, passou meses trabalhando em cima do texto. Só agora, os recifenses tiveram a chance de conhecer o trabalho (ao menos os que foram ao pequeno teatro), apesar da peça estar há um ano em cartaz no Rio de Janeiro.
Além de cortar e costurar o texto com cuidado e esmero, João Ricardo é um ator com talento para dar, vender e trocar. Em alguns momentos, a transição entre uma fala e outra é assustadora. Parece coisa de espiritismo ou transe mediúnico. Quando a peça terminou e voltou a falar em “carioquês”, o teatro ficou mudo de espanto. Pensávamos todos que ele era de Caruaru, tal qual Homero.
E quem foi riu, mas riu muito. Minha digníssima senhora, por exemplo, nunca vi gargalhar do jeito que gargalhou ontem. Um jovem casal sentado na fileira da frente olhava para trás e ria do riso dela. Fiquei até empulhado. Lá atrás, um sujeito quase perdia o ar das gaitadas que dava.
E eu respeito quem me faz rir. Podem vir com a filosofia que for, mas rir é melhor do que chorar e pensar. Sempre foi.
O melhor de tudo é que, por não conhecer o livro e não ter lido as, digamos, “críticas” nas páginas de entretenimento dos jornais locais, saí de casa sem saber o que iria encontrar. A bem da verdade, só fui porque Homero me mandou um e-mail e estava me sentindo em dívida com ele, pois – por preguiça, falta de tempo ou sacanagem do acaso – não atendi a nenhum dos seus 748 convites anteriores. A surpresa contribuiu para tornar a noite ainda melhor.
Agora, não quero perder Homero Fonseca de vista. Acabo de comprar o Roliúde, mas aposto que a moça das sonoras gargalhadas dias vai lê-lo antes de mim.
Sobre o escritor
Quem quiser saber mais sobre o caruaruense Homero Fonseca, favor dar uma olhada no blog dele: http://www.interblogs.com.br/homerofonseca

9 Comentários
Inácio, eis a grande frase do artigo: “E eu respeito quem me faz rir. Podem vir com a filosofia que for, mas rir é melhor do chorar e pensar. Sempre foi.”
Não há verdade maior.
Texto bacana demais, e que prova o quanto podemos e devemos nos influenciar por coisas boas, até por aquelas que a gente nunca viu.
Afinal, Oswald já havia dito que aprendera “com o filho de dez anos, que a poesia é a descoberta das coisas que nunca vi”.
Eu, que tenho uma deformação cultural grande em relação à teatro, fiquei com vontade de assistir a peça, ao lado da minha digna senhora.
Afinal, tenho que ela iria sorrir ou gargalhar, e isto é o melhor roteiro da melhar peça que há no mundo.
Inácio, fiquei curiosíssima pelos dois: peça e livro. Pena ter perdido a oportunidade da peça, mas o livro é mais fácil, como também mais seguro, porque quando vejo comédia sempre corro risco de ser expulsa dos ambientes.
O tema do matuto e do cinema lembrou-me muito um “causo” de Jessier Quirino, chamado Matuto no Cinema, o qual conta a história de um matuto analfabeto que assiste a um filme legendado e conta tudinho depois com riqueza de detalhes. É simplesmente hilário.
Abraço.
Magna
O bom texto desperta no leitor a curiosidade.
Concordo com Magna, e o tema, por si só, já é fascinante e engraçado, porque expõe duas inúmeras vertentes culturais com humor.
Inácio, esse blog veio a calhar em minha vida, eu que amo também os livros, posso conviver com um pessoal muito legal. Valeu, ótimo texto.
Inácio, a crítica do Jornal do Commercio era negativa em relação ao sotaque do ator – um exagero – nós só descobrimos que ele era carioca na hora do bate-papo. E olha que eu sou exigente em relação a isso. Queria mesmo era ouvir críticas desse tipo em relação aos repórteres da Globo local, que falam com sotaque sulista.
A peça é uma delícia…
É verdade Geórgia. Bem lembrado.
Chega a ser patético e tragicômico…
Uma mistura de carioquês, paulistês e um resquício do sotaque da terra…
Uma salada.
É a Globo e seus manuais…
Inácio, Roliúde é leitura fácil, histórias dentro de uma história que pega o leitor pelo pé. Superprodução da criatividade do autor (muito bom dele também é Viagem ao Planeta dos Boatos). Mas Homero é bezerrense, e não caruaruense. Conserte aí. É, portanto, conterrâneo de Seu Vital e do meu pai, Seu Vila. Todos eles tricolores, feito nós. No livro, aliás, tem uma passagem com uma pequena homenagem ao Santa Cruz, lembrado na foto de um jogador do Mais Querido postada à penteadeira de uma das meninas com quem o personagem Bibiu se divertia, em suas andanças.
Não li a crítica do JC, mas vi a peça lá no Apolo. O ator é bom, mas acho que faltou alguma coisa, que não sei dizer o quê. De todo modo, o trabalho dele merece aplausos. Assim como o de Homero, evidentemente.
Viva Homero! Viva Inácio! Abs de Carrero
Ainda não vi a peça, mas Bibiu salta das páginas do livro como se realmente estivesse no palco. Parabéns Homero, João Ricardo, parabéns Inácio, pelo texto.
Um Trackback
[...] dinâmica de Roliúde clamava por uma adaptação. Para o teatro isso já foi feito com muita competência: o monólogo de Bibiu poderá ser conferido novamente em Recife no próximo [...]