Se me deixam falar…

Já nem lembrava quando havia lido Se me deixam falar. Como há semanas que vinha querendo recordar essa leitura e compartilhar as lembranças da sua leitura, resgatei o volume do ostracismo da estante do corredor. Na folha de rosto, está lá o registro que costumava fazer: “Inácio França – ago 1987”. Alguns centímetros abaixo, a etiqueta da Livro 7 para casos de troca.

Há 23 anos, li de uma tacada só, praticamente sem intervalos, o depoimento da boliviana Domitila Chungara registrado pela educadora gaúcha Moema Viezzer. Ainda iria completar 19 anos, estava no segundo período de Jornalismo da Católica de Pernambuco e militando no PCB. Um ano antes, ainda gazeava as aulas no Salesiano para participar da histórica campanha eleitoral de Arraes em 1986.

Naquele ano, dei o grande golpe que mudou minha vida: meus pais foram morar em Natal e eu fiquei pelo Recife, alegando que começaria o curso para depois fazer outro vestibular na UFRN. Eles acreditaram. Sozinho, trilhei meus próprios caminhos.

Eduardo Galeano falou para a minha cabeça com As Veias Abertas da América Latina, mas Se me deixam falar causou impacto em meu coração. Fiz com o nariz enfiado nesses dois livros e nos diários de viagem de Che Guevara as descobertas que os mochileiros endinheirados, militantes endinheirados e os porra-loucas endinheirados dos anos 80 fizeram viajando pelos Andes nos anos 80.

Admito, se pudesse, também teria feito uma viagem daquelas, mas sempre tive que trabalhar para juntar meus trocados. Depois de casado, recasado e pai de três filhos, ainda não consegui me organizar nem poupar para conhecer os países da América do Sul que tanto me fascinam.

Então, me pergunto, do que serviu ter me tornado tão sensível aos problemas latino-americanos se nunca fiz uma pesquisa acadêmica, não me especializei no tema, não me tornei um militante internacionalista, nem uma viagem de turismo eu fiz? Parece pouco, mas não é: a leitura de Se me deixam falar e das Veias de Galeano, na década de 80, foram fundamentais para que, no século XXI, eu não deixe me enganar pelas manchetes impressas nos jornalões ou editoriais histéricos do noticiário das emissoras de TV.

Quando o Evo Morales nacionalizou o gás boliviano, lembrei de Domitila Chungara contando como o povo do seu país sofria nas mãos dos ditadores militares que deixavam os gringos roubarem seus minérios em troca de poder e fortuna. Enquanto os cachorrinhos de estimação dos donos do poder no Brasil exigiam que Lula invadisse a Bolívia, eu tinha certeza que os cocaleros de Morales nunca seriam meus inimigos.

Dona-de-casa e esposa de um mineiro, Domitila contava como as famílias dos trabalhadores das minas eram obrigados a gastar seus salários comprando produtos básicos superfaturados nos armazéns de propriedade das Minas. Entendi, então, tudo o que une um canavieiro de Palmares e um mineiro da Siglo XX.

Até hoje, isso me ajuda a entender, por exemplo, o que distingue os grupos políticos que disputam as eleições no Brasil. Estou longe, muito longe, daqueles que defendem a “desregulamentação” das leis trabalhistas, a redução dos gastos com os trabalhadores, o vale-tudo que permitiria que trabalhássemos a vida toda para que outros pudessem concentrar mais riqueza e poder.

Se me deixa falar me ajudou a entender que a luta política não é apenas uma luta de fulano contra sicrano, por mais que seja isso que aparente ser.

O livro também me ajudou a sentir que, muitas vezes, aqueles que admiramos incondicionalmente cometem erros grotescos. É marcante, lá pelo meio do livro, quando Domitila se diz triste quando, nos congressos e seminários que participava, o público formado por esquerdistas militantes acusavam o povo boliviano de ter traído a guerrilha de Che Guevara. Com simplicidade e clareza, ela conta que a guerrilha “artificial” criada pelo Che foi uma burrada sem tamanho. Ou melhor, foi uma imensa irresponsabilidade, pois aumentou a pressão sobre os operários das minas, provocou um massacre de mineiros, que nada sabiam de guerrilha nenhuma.

Tenho motivos de sobras para ser grato a Moema Viezzer e a Domitila Chungara.

Sobre a autora


Moema Viezzer nasceu em 1938, no Rio Grande do Sul, é educadora e cientista social. Não há muitas informações sobre ela disponíveis na internet. Entre esses poucos dados, consta que, em 2008, ela era consultora de Educação Ambiental da Itaipu Binacional.

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6 Comentários

  1. Monica Crisostomo
    Publicado 11 de agosto de 2010 em 15:31 | Permalink

    Inácio, também li Se Me Deixar falar na faculdade, conicidentemente no 2º período de jornalismo. Foi um livro que me marcou, para sempre. E hoje, lendo seu post me deu uma vontade danda de reler tudo. Ele está no meu baú de “valores” que guardo com carinho desde a adolescencia. Muito bom :)

  2. Arsenio Meira Junior
    Publicado 11 de agosto de 2010 em 17:23 | Permalink

    Inácio, ainda contaminado pelo EXCELENTE VIAGEM AO CREPÚSCULO, desconfio de todo e qualquer ditador e de alguins mitos.

    Mas é certo que o entreguismo – praticado por FHC, por exemplo, – é uma merda, e depõe contra qualquer sentimento de civilidade.

    As Veias de Galeano também me marcaram.
    Mas infelizmente, em se tratando de política, as admirações de hoje transformam-se em amarga desilusão.

    Os herois de outrora – não raro – se transformam em gangsters, assassinos e embusteiros.
    É ceticismo misturado com a realidade.

  3. Arsenio Meira Junior
    Publicado 11 de agosto de 2010 em 17:32 | Permalink

    Exemplo: 1968: O ano que não terminou, de Zuenir Ventura.

    Fascinado pela história, pelos personagens capitais do livro, hoje vejo quanto perda de tempo.
    Explico; um dos personagens capitais do livro é o venerando Zé Dirceu (toc, toc, toc), em menor grau (Zé Serrote, toc toc toc); FHC aparece também e Genoíno… Um milhão de tocs tocs tocs.
    Ps – Mas o livro do Zuenir, como retrato de uma geração, é muito banaca.

  4. João Roberto Gomes
    Publicado 13 de agosto de 2010 em 12:16 | Permalink

    O post valeu mais pelas informações pessoais sobre o autor. Confesso que esses livros com conteúdo político não me satisfazem mais. Sou um pessimista amargo.
    Confesso: exalo amargura.
    Sempre um eleitor da esquerda, hoje vejo a esquerda trasnformar-se… Deixa pra lá.

  5. Publicado 16 de agosto de 2010 em 11:49 | Permalink

    Inácio, dê uma olhada no blog do jornalista (e pesquisador sobre internet) Carlos Nepomuceno, ele tem uma opinião bem, digamos, polêmica sobre o papel dos livros… de papel: “Pelo fim dos livros” http://bit.ly/9vtkwZ

    Obs.: leia o post e também os comentários…

  6. Publicado 29 de outubro de 2011 em 14:31 | Permalink

    Vontade de comentar tudo,i.e., de dialogar sobre tudo…esse Caótico é uma perdição ! Vou deixar pra mais tarde. Tenho de reler, assimilar alguns conceitos, trabalhar ideias embrionárias, enfim. Mas à guisa de antecipação necessária devo dizer-lhe,caro Inácio, que não é pouco, mochilagens à parte, ajudar a despertar consciências que o – chamemos assim – Mercado quer ver cada vez mais dormentes, alheias, alienadas e alienantes.

2 Trackbacks

  1. [...] Uma ótima resenha está no interessante site “Caótico”, de Inácio França: http://www.caotico.com.br/se-me-deixam-falar [...]

  2. [...] ótima resenha está no interessante site “Caótico”, de Inácio [...]

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