Tinha 22, talvez 23 anos, quando ouvi falar de José Saramago pela primeira vez. Posso estar enganado, mas acho que o Evangelho Segundo Jesus Cristo tinha acabado de ser lançado no Brasil e o nome dele estava em tudo quanto é página de entretenimento dos jornais. Apesar de todo apelo midiático e do esforço da assessoria Companhia das Letras, não saí enlouquecido para as livrarias, pois nunca morri de amores por esse negócio de Jesus Cristo e, na adolescência, já tinha lido os quatro evangelhos, as quatro versões da sua biografia autorizada. Jamais me animei por nenhuma delas.
A editora conseguiu pautar Saramago no programa de entrevistas de Bruna Lombardi, no domingo à noite (parece incrível, mas Bruna Lombardi já teve um programa de entrevistas na TV brasileira). A galega fez um monte de perguntas bestas, enquanto o velho tentava explicar que seu Evangelho não era um texto religioso, mas um romance, uma obra de ficção. Mesmo assim, a entrevista mudou minha opinião. Gostei daquele sujeito anacrônico, que tinha peito para se afirmar comunista em plena euforia direitista pós-URSS e queda do muro de Berlim.
Dias depois, comprei o livro, que deixei cevando para ler um ano depois, como faço sempre.
Não me interessa aqui discutir os aspectos religiosos ou a técnica literária. O que me motiva é contar o tesão que foi a leitura do Evangelho. Ler essa obra foi o mesmo que ser tragado por um redemoinho. Ao terminá-lo, estava diante de um mundo novo, de possibilidades antes inimagináveis, estava diante de algo que já sabia por intuição: tão ou mais importante que a história é o jeito de contá-la. E José Saramago contava uma história de forma que eu não imaginava ser possível.
A morte do escritor me fez recordar de tudo isso.
O Evangelho me levou a outro título extraordinário, A História do Cerco de Lisboa. A narrativa desse livro é mais complexa, com o entrelaçamento entre a vida do metódico e contido revisor Raimundo e da história da retomada de Lisboa pelos cristãos, tema do livro revisado pelo protagonista. A paixão descoberta aos poucos transforma a vida de Raimundo, um homenzinho sem graça que perambula por uma Lisboa melancólica.
No meio de uma obra tão vasta, também há aquelas coisas chatas, sem brilho. Digo isso por causa dos contos de A Bagagem do Viajante. Por conta do título, o levei para uma viagem à Alemanha nos anos 90. Li as primeiras histórias, mas cansei logo e, para não morrer entediado, passei a dar mais atenção às cidadezinhas que passavam pelas janelas do trem. Nem o dia e a noite em Lisboa, escala da viagem de volta, serviram de estímulo para a retomada da leitura.
A leitura de Saramago também foi fundamental para me aproximar de outros autores do mundo lusófono. Por algum mecanismo que não sei explicar, sua prosa me aproximou de Lobo Antunes, Agualusa, Luandino Vieira e Mia Couto.
11 Comentários
Não é porque partiu, que vou dizer que gostei do Ensaio sobre a Cegueira. Não capturei o Saramago ficcionista. Também não me esforcei pra isso.
Fui, então, atrás do Poeta Saramago. Há muito pouco conhecimento sobre a poesia portuguesa depois de Pessoa, José Régio, Mario de Sá Carneiro, Florbela Espanca. Somente os poetas e os que estudam e gostam de Poesia é que conhecem a obra de Jorge de Senna, Carlos de Oliveira, Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade. O Saramago Poeta, contemporâneo desses poetas citados, jamais abandonou as formas canônicas.
Tinha um compromisso com o rigor e com a próprio universo, daí os versos memoriais, evocativos e por vezes absolutamente confessionais. A forma fixa para ele fazia parte do jogo. Mas não com um fim em si mesmo. Era, antes, um instrumento, um meio para buscar a mensagem e transformá-la em grito transfirgurado. Que é o sentido da Poesia, segundo a nossa Cecília Meireles.
E o ser político, um tanto quanto transtornado pelo comunismo utópico, fruto de um temperamento ainda preso à revolução dos Cravos, e hoje sem sentido algum, não pode ser confundido com o ser literário.
Há quem o ache um gênio. Eu boio no meu mar de ignorância e fico sem poder palpitar.
Dele, esse trecho:
“Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.”
Comentei ainda há pouco sobre um post de 2009 (o que fala sobre Simenon) e cá estou.
Gostei do Evangelho segundo Jesus Cristo, do filme baseado no Ensaio sobre a Cegueira, porém, meu lamento pela morte de Saramago também tem outros significados. Além de um ser humano especial, era também nascido em Portugal, terra que me acolheu durante anos e onde aprendi muitas coisas da vida.
Algo que me vem agora para recordar, que achei interessante? Numa entrevista com uma repórter brasileira, que lhe pergunta se o sotaque dele atrapalha seu diálogo com os brasileiros, ele respondeu: “Em primeiro lugar, desculpe-me que lhe diga: o sotaque não é meu, é seu” e depois completou afirmando que a barreira das diferenças da língua não o prejudicava, acrescentando seu amor pelas diferenças.
José Saramago…
incrível esse homem, incríveis suas idéias e seus escritos.
Comecei a ler o Evangelho por acaso e me apaixonei desde o princípio, para mim foi um marco, aquela sensação que se tem ao sair, depois de muito tempo, de um filme maravilhoso, um pouco alesada. Sem dúvida, um dos melhores livros que já li.
Depois li alguns outros poucos e o último foi A intermitência da Morte, que gostei demais.
Outro contato marcante foi em Sampa onde fui ao lançamento do livro agorinha citado, vi a palestra de um homem conteporâneo, interessante e muito divertido, o máximo Saramago; fiquei uma hora na fila, apertei a mão dele, ganhei um sorriso só pra mim e um riscado (já que eu era a nº 500 e pouco da fila) no livro (que não empresto a ninguém, claro).
Através do Caótico conheci o Caderno de Saramago, que lia e cada vez admirava mais aquele ser.
Fiquei triste com sua partida, desta para pior, a inexistência. E fiquei ainda mais triste quando li uma matéria com Fernando Meireles que disse que estava coproduzindo um documentário, José e Pilar, sobre a união do casal e os últimos tempos de uma homem lúcidíssimo, ciente de que o seu corpo já estava morrendo, que era super normal isso mas, com uma pena danada de morrer.
com meus melhores sentimentos,
Lea
Inácio, uma sugestão para leitura ou post (caso você já tenha lido, o que é provável): ‘O Barão de Mauá – o Empresário do império’, de Jorge Caldeira.
O livro é de digno de se ler de uma penada só.
É no toitiço, como diria um amigo meu.
Explica – ao menos em parte – o porque de nossa indigência política, cultural e etc.
Arsênio,
nunca li o “Empresário do Império”. lembro quando ele foi lançado e muita gente boa já o elogiou.
Bem que tu poderias escrever uma resenhazinha sobre ele para o Caótico, não é? tu entendes do riscado, ora ora!
Opa Inácio, convocação feita e imediatamente aceita.
Se tu dizes, vou em frente.
Obrigado e abraços.
Inácio,
Tinha também 23 anos quando li o Evangelho Segundo Jesus Cristo. Lembro que estava com hepatite e ganhei de presente de um namorado para ajudar a passar o tempo… A sensação que tive quando cheguei à última página foi exatamente a que você descreveu – estava diante de um mundo novo e sabia que, a partir dali, jamais veria as coisas da mesma forma.
pegando carona…
comecei a ler Cain.
ja tô gostando.
Léa,
aposto que, depois de terminar Caim, tu vai escrever uma resenha pro Caótico sobre ele, né?
sei não sei não…
e não é por frescura não.
é porque até agora não deu o tchan!
não sei se é pela leitura apressada em meio a trabalhos desgastantes (como os plantões na operação reconstrução da zona da mata) ou pela falta de inspiração.
vamo vê.
bj
Perda irreparável. O discurso dele, por ocasião do recebimento do Nobel, é por si, bem elucidativo da personalidade e caráter do homem Saramago.
O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO É UMA DAS OBRAS-PRIMAS DA LITERATURA MUNDIAL.