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	<title>Caótico &#187; cristianismo</title>
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	<description>Espaço de leituras,  histórias &#38; especulações &#124; Por Inácio França</description>
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		<title>A Divina Comédia: o Purgatório</title>
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		<pubDate>Wed, 12 May 2010 15:47:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Inácio França</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Passei a infância escutando as possibilidades de ir parar no céu ou no inferno. Em casa ou na escola, era a mesma ladainha. Lembro de uma noite, voltando para casa num dos muitos Fuscas que papai teve, que pensei ter carimbado minha passagem para as profundezas quando, com uma frase categórica, encerrei um debate familiar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Purgatorio-VISTO-POR-DANTE.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-721" title="Purgatorio-VISTO-POR-DANTE" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Purgatorio-VISTO-POR-DANTE-246x350.jpg" alt="" width="149" height="212" /></a>Passei a infância escutando as possibilidades de ir parar no céu ou no inferno. Em casa ou na escola, era a mesma ladainha. Lembro de uma noite, voltando para casa num dos muitos Fuscas que papai teve, que pensei ter carimbado minha passagem para as profundezas quando, com uma frase categórica, encerrei um debate familiar sobre ir ou não a um aniversário que atrapalharia a ida à igreja no domingo à noite: “Missa é uma merda!”. Tinha uns 11 anos e era um menino sincero, porém desprovido de qualquer senso de oportunidade.</p>
<p>A reação dos meus pais e da minha querida vó Dolores só não me levou à depressão porque, pouco antes, já tinha sido informado a respeito do purgatório. E a proposta me pareceu interessante: não precisaria andar todo certinho, cumprindo infinitas obrigações e pré-requisitos para garantir uma vaga imediata no céu. Com um pecado ou outro, iria ao purgatório, ficaria zanzando por ali para, depois, dar um jeito de subir de divisão.</p>
<p>O problema é que o purgatório não goza de muito prestígio. O imaginário popular, a literatura, o cinema e os textos religiosos são ricos em imagens do inferno e do paraíso. Não faltam, por exemplo, piadas sobre a entrada do céu guardada por São Pedro. Olhando para trás, acho que eu imaginava o purgatório como um vôo quase eterno num boeing lotado, com todas as poltronas do meio ocupadas, aeromoças feiosas servindo suco de maçã ou de pêssego em caixinha. Uma ou outra escala, só para descer o pessoal com os pecados já quitados. Por analogia, o inferno seria uma viagem eterna com oito pessoas suadas, dentro de um Fiat Mille sem ar-condicionado, pelas rodovias de Minas Gerais.</p>
<p>Por causa dessa quase absoluta falta de imagens do Purgatório, iniciei com muita curiosidade a leitura da segunda parte da <em>Comédia</em>, doido para saber como Dante imaginou e construiu sua visão desse lugar de expiação dos pecadores, cujas respectivas almas ainda tinham condição de serem salvas.</p>
<p>Longe de ser especialista no assunto, arrisco o palpite que, ao escrever o purgatório, o poeta estava na ponta dos cascos. O início e a parte central dos 33 cantos, até pertinho do final, têm um ritmo intenso, com Dante afinado, devidamente aquecido pelos anos em que ficou dedicado ao Inferno.</p>
<p>As recorrentes equivalências entre pecado e pena, comumente citadas no Inferno, são ainda mais sutis e sofisticadas no purgatório. Os orgulhosos, por exemplo, tomam lições de humildade obrigados a carregar uma pedra enorme na nuca, de modo que fiquem sempre olhando para o chão.</p>
<p>O miolo da <em>Divina Comédia</em> é repleto de lirismo, com trechos de uma beleza imensa, como neste trecho do canto VIII, quando o poeta/personagem, em sua longa jornada, sente saudades do lugar de origem:</p>
<p>Era já a hora que volve o querer</p>
<p>Do navegante, e induz-lhe o coração</p>
<p>O dia da despedida a reviver</p>
<p>Mais adiante, Dante descreve como seria seu encontro com a amada (mais do que isso, a idolatrada) Beatriz, às portas do céu, no topo da montanha do purgatório. Depois de tanta espera, pouco antes de vê-la, já tremia nas pernas, sentindo do “antigo amor a força imensa”. Todo homem apaixonado sabe o que é isso, mas, no canto XXX, o poeta descreve essas sensações com uma intensidade de arrepiar. A  ilustração abaixo, que peguei emprestada de uma página de um museu britânico, é inspirada quase que linearmente nessas estrofes.</p>
<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Purgatorio-Canto-Xxx-60-146-Beatrice-Addressing-Dante.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-724" title="Purgatorio,-Canto-Xxx,-60-146-Beatrice-Addressing-Dante" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Purgatorio-Canto-Xxx-60-146-Beatrice-Addressing-Dante-350x246.jpg" alt="" width="221" height="156" /></a>Senti pena de Dante, o personagem de si mesmo. Depois de passar pelo passou descendo até o Inferno e subindo a montanha, a moça ainda caga regras como a mais insuportável e moralista das beatas, condenando o sujeito por ele não ter sido leal com sua memória depois de morta. Ou seja, Dante enxerga como pecado quase tudo o que viveu após a morte da mulher que amava, carregando culpas absurdas. É imperdível, possivelmente os versos mais tocantes que já li.</p>
<p>O problema é o que acontece nos três últimos cantos. A leitura começou a ficar aborrecidíssima depois do encontro com Beatriz.</p>
<p>O cristianismo medieval de Dante, impregnado dos mitos gregos, cheio de medos, visões luminosas e alegorias, marca os versos finais do purgatório. Nessa altura, as notas de pé de página do tradutor foram providenciais. Não fossem elas, eu ainda estava empacado em alguns trechos incompreensíveis.</p>
<p>Tenho pouca paciência para epifanias e deslumbramentos religiosos. Se esse for o tom da terceira e última parte, o Paraíso, sofrerei e terei saudades dos muitos cantos do Purgatório em que ele retrata e queixa-se da instabilidade provocada pelas perpétuas guerras entre as cidades-estado que formavam a península da Itália, com o imperador – que administrava os restos do Império Romano – e o Papa cooptando aliados entre as famílias que lutavam pelo poder em cidades como Siena, Milão, Rimini, Ravena e Florença (uma estimulante cidade onde as mulheres eram todas putas, a julgar pelos versos da <em>Comédia</em>) .</p>
<p>Assim como Dante Alighieri admite no canto XIV, eu também sou muito aferrado às fofocas terrenas.</p>
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		<title>Tal qual uma máfia italiana</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Apr 2010 20:26:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Inácio França</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Não criei esse blog para tratar dos assuntos do dia, aqueles que estão em todas as mídias, telejornais, esquinas. Tamanha onipresença parece exigir opiniões ou posicionamento urgentes, mas, como o mundo não precisa de minha opinião para continuar girando, sempre faço o possível para poupar meus leitores de palpites que podem ser encontrados em vários [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/04/mala-educacion.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-694" title="mala educacion" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/04/mala-educacion.jpg" alt="" width="243" height="160" /></a>Não criei esse blog para tratar dos assuntos do dia, aqueles que estão em todas as mídias, telejornais, esquinas. Tamanha onipresença parece exigir opiniões ou posicionamento urgentes, mas, como o mundo não precisa de minha opinião para continuar girando, sempre faço o possível para poupar meus leitores de palpites que podem ser encontrados em vários outros blogs.</p>
<p>Abro uma exceção, incentivado pelo noticiário protagonizado pela Igreja Católica e sua bizarra tropa de papa, cardeais, bispos e padres. Cada um mais doente do que o outro.</p>
<p>Deixo para terceiros a discussão sobre as razões, sobre os aspectos morais e jurídicos dos sucessivos casos de pedofilia dos quais são acusados os sacerdotes católicos. Sobre isso tem gente que escreve melhor do que eu, a exemplo do blogueiro gaúcho <a href="http://miltonribeiro.opsblog.org/2010/04/13/falta-trato-moral-conhecimento-de-vida-e-experiencia-sexual-a-esses-padres/">Milton Ribeiro</a>, que acredita faltar experiência de vida e sexual as padres abusadores. Ou Pedro Almodóvar, em seu ótimo <a href="http://cinema.terra.com.br/ficha/0,,TIC-OI4685-MNfilmes,00.html">Má Educação</a>, cuja cena usei para ilustrar esse texto.</p>
<p>Pretendo apenas compartilhar algumas reflexões sobre a ferrenha defesa que fazem os católicos da regra do celibato. Defesa que é realizada tanto pelos bispos quanto por leigos, a exemplo do senhor <a href="http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&amp;a2=9&amp;i=6330">Andrea Tornielli</a>, como fez em entrevista recente para a revista Carta Capital.</p>
<p>Por que tamanho apego ao antiquado impedimento dos sacerdotes casarem, terem mulher, filhos, cachorro, papagaio etc? Não sei se o fim do celibato significaria o fim dos abusos sexuais. A essa altura do campeonato, a questão é bem mais complicada.</p>
<p>A razões da criação e da manutenção do celibato não são doutrinárias ou morais, como querem nos fazer acreditar os católicos. O celibato foi uma estratégia inteligentíssima que a Igreja de Roma usou para fazer dinheiro, apropriar-se de riquezas alheias e expandir seu patrimônio. Por causa do celibato heranças e mais heranças caíram no colo de dioceses e ordens religiosas mundo afora.</p>
<p>Sem precisar voltar muito no tempo e no espaço, recorro ao Brasil do século XIX e início do século XX, por exemplo. Na sociedade agrária daqueles tempos, as famílias abasteciam a Igreja com, pelo menos, um dos seus filhos, que virava padre e, ao receber sua parte da herança familiar, não tinha filhos – ao menos não oficialmente – para herdar as terras, casas e grana que enriqueciam o tesouro de deus. Em troca, a família aproveitava um pouco do poder da Igreja.</p>
<p>No Brasil urbano das últimas décadas do século passado, a Igreja já não tinha como oferecer tanto poder. E o prestígio foi diminuindo aos poucos, até chegar ao ridículo atual.</p>
<p>Uma vez, um ex-seminarista, ligado à Pastoral da Terra e à Teologia da Libertação, hoje casado e pai de dois filhos, me contou, nas décadas de 80 e 90, a Igreja se tornou um porto seguro para rapazes gays de pequenas cidades do interior. Era um jeito de escapar do preconceito, da pressão da família e salvar as aparências. Era cômodo fazer vistas grossas, afinal, se a Igreja não fingisse desconhecer o troca-troca entre seus soldados de Cristo, quem iria querer ser padre?</p>
<p>A pedofilia não seria, portanto, conseqüência do homossexualismo, como deseja o cardeal Bertone, mas sim da falta de experiência, de vivência de homens que sempre viveram sob uma redoma autoritária, porém superprotetora.</p>
<p>Isso talvez ajude a explicar o fervor do preconceito cristão contra os homossexuais: quanto mais discriminação, mais razões para que o mesmo público discriminado procure o abrigo da Igreja. Hipocrisia pura. Algo bem cristão, aliás.</p>
<p>Agora, nem de fachada para jovens gays discriminados em seus cidades, a Igreja serve. Simplesmente, porque o preconceito praticamente já não existe, ao menos da forma violenta e discriminatória de décadas atrás. Quem conhece as pequenas cidades do sertão nordestino, como eu conheço, sabe que a população homossexual está integrada na vida dos municípios.</p>
<p>A proteção aos padres pedófilos nasceu da necessidade de manter seus poucos quadros. Mais uma vez a mesma questão: se não protegesse seus transgressores e criminosos, como a Igreja iria arrumar gente para pregar a palavra de Deus?</p>
<p>E a Igreja sempre soube proteger seus aliados fiéis, por pior que eles fossem. O modus operandi revelado esses dias pela imprensa internacional, de espalhar os abusadores pelas paróquias do mundo, revela, ao mesmo tempo, uma imensa falta de respeito com as crianças que tinham contato com essas pessoas e a uma ação deliberada, resultado de uma política de Estado do Vaticano. Uma ação que lembra a máfia agindo para proteger seus pistoleiros.</p>
<p>A Igreja não aceita discutir o celibato. Mesmo sem conhecimento sobre o assunto, arrisco uma explicação. Ou melhor, arrisco uma dedução.</p>
<p>A África é a única região do planeta onde a Igreja Católica de Roma continua a crescer. Na América Latina, os cristãos neopentecostais estão perto de virar o jogo. Na América do Norte, o islamismo está comendo pelas beiradas. Na Europa, o secularismo dá as cartas. Sobrou a África.</p>
<p>Mais uma vez, os católicos crescem em sociedades agrárias. Mais uma vez, o celibato deve estar sendo muito útil para garantir a apropriação de riquezas. Por isso, os cardeais fingem que celibato não explica os crimes cometidos nas sacristias. A Igreja de Roma não pode, agora, dizer que sempre esteve errada e abolir o celibato. Logo agora, quando dinheiro e terras poderão voltar cair no colo das dioceses, como caiu no passado?</p>
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		<title>A Divina Comédia: o Inferno</title>
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		<pubDate>Wed, 14 Apr 2010 10:39:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Inácio França</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Acabo de sair do inferno. O famosíssimo Inferno de Dante Aliguieri, quero dizer. Em tudo que li ou ouvi falar sobre A Divina Comédia há referências sobre o sentimento de angústia que toma conta quem conheceu os horrores do inferno imaginado pelo poeta. Realmente, a viagem pelas valas, círculos, penhascos, fossos e rios infernais não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/04/divinacomedia.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-679" title="divinacomedia" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/04/divinacomedia.jpg" alt="" width="120" height="159" /></a>Acabo de sair do inferno. O famosíssimo Inferno de Dante Aliguieri, quero dizer.</p>
<p>Em tudo que li ou ouvi falar sobre <em>A Divina Comédia</em> há referências sobre o sentimento de angústia que toma conta quem conheceu os horrores do inferno imaginado pelo poeta. Realmente, a viagem pelas valas, círculos, penhascos, fossos e rios infernais não são exatamente um domingo no parque, mas também não é coisa para ficar tão horrorizado assim.</p>
<p>A verdade é que me diverti bastante com os castigos que atormentam os pecadores de Dante, a maioria gente que o poeta conheceu em sua Florença natal ou nas cidades vizinhas. Gente que ele não gostava, seus inimigos do partido adversário – os gibelinos &#8211; ou do seu próprio grupo político, os guelfos. Dante se vingou botando esse povo todo  no inferno e revelando seus podres em versos. Um sacana genial, o tal do Dante.</p>
<p>A edição da <em>Comédia</em> que estou lendo é a da Editora 34, que parece ser a melhor tradução em português. O tradutor, Ítalo Eugênio Mauro, ganhou um Jabuti por conta desse trabalho há 10 anos.</p>
<p>E, para quem pretende ler a obra, duas recomendações: a) ignore as edições em prosa, a <em>Comédia</em> original é um enorme poema; b) não pule o prefácio e a introdução, inclusive um diagrama que ajuda a visualizar o Inferno como uma  espiral que acaba no buraco onde está Lúcifer, o manda-chuva (ilustração abaixo). Aliás, na imaginação de Dante, o dito-cujo não vive numa caldeira fervente, mas numa caverna gelada.</p>
<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/04/infernodante.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-678" title="infernodante" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/04/infernodante-139x150.jpg" alt="" width="139" height="150" /></a>Mesmo com tanta ajuda, a leitura só começou a fluir tranquilamente mais ou menos do Canto VII em diante– são 34 cantos que compõem o Inferno. Minha maior dificuldade foi a ordem no qual cada verso é escrito. Por exemplo: “vela de mar vira eu jamais tamanha” e não ‘eu jamais vira tamanha vela de mar’, como diríamos no século XXI. Mas é questão de costume, quando me habituei, a coisa ficou divertida.</p>
<p>Para se manter o mais próximo possível do original, o tradutor também teve que recorrer a um vocabulário muito rico, com muitas palavras de pouco uso no português coloquial. Recorri 58 vezes ao pai-dos-burros para encontrar o significado de palavras como “infida” (infiel), “mesta” (que causa tristeza) e de outras 56.</p>
<p>A criatividade Dante Alighieri era imensa. Os castigos que ele inventou para cada uma das cateogorias de pecados têm uma lógica muito inteligente, como se fossem um reflexo invertido e doloroso da vida pecaminosa na Terra.</p>
<p>Os adivinhos, considerados pecadores pela igreja porque essa era uma prática aos oráculos e pitonistas da tradição Greco-romana, eram obrigados a passar a eternidade andando sem parar com a cabeça torcida, olhando sempre para trás. Ou seja, sem poder, jamais, olhar para a frente, para o futuro. Os gastadores e os unha-de-fome pagavam seus pecados no mesmo local e seus castigos eram complementares. Ironia fina do autor.</p>
<p>A atmosfera do Inferno é tenebrosa mesmo, com monstros horríveis – alguns deles copiados até hoje por Hollywood -, mas é apenas cenário para o sarcasmo de Dante, que debocha dos seus conterrâneos e contemporâneos de forma tão impiedosa quanto duradoura. Setecentos anos depois, cá estou tomando conhecimento das pilantragens dos fiorentinos do século XIII. Como no trecho abaixo:</p>
<p>“Alegra-te, Florença, que és tão grande</p>
<p>Que as asas bates por terra e por mar,</p>
<p>E pelo Inferno o teu nome se expande!</p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p>Entre os ladrões, cinco pude encontrar</p>
<p>Teus filhos, o que, a mim se traz vergonha</p>
<p>Nem com grande honra te deixa escapar”</p>
<p>Sabe-se lá como, mas o fato é que Dante tinha a exata noção que escrevia uma obra-prima a ser lembrada no futuro. Durante a viagem pelo Inferno, guiado pelo poeta latino Virgílio, ele promete àqueles personagem que encontra pelo caminho a garantia de que suas versões daquilo que viveram seriam reconhecidas pela posteridade. Isto, caso eles lhe contassem suas respectivas histórias. Desde a Idade Média, os homens já buscavam a fama.</p>
<p>Com artifícios como esse, o poeta compõe a crônica do seu tempo, interpretando e analisando aos fatos do seu tempo, como as raízes da riqueza do Vaticano, para ficar só em um exemplo.</p>
<p>O mais genial é o poder de síntese, a concisão com que Dante conta tudo isso no formato que ele mesmo criou: estrofes de três versos, onde o primeiro rima com o terceiro, enquanto o segundo rima com o primeiro verso da estrofe seguinte. E assim sucessivamente. Dá para ter ideia do esforço e do talento do tradutor, para manter as rimas e a métrica originais em outro idioma.</p>
<p>Agora, depois de ler mais uma aventura de Maigret para mudar um pouco de ares, estou preparado para subir a montanha do purgatório.</p>
<p><strong>Sobre o poeta</strong></p>
<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/04/DanteFresco.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-681" title="DanteFresco" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/04/DanteFresco-226x350.jpg" alt="" width="163" height="252" /></a></p>
<p>Dante Alighieri nasceu em 1265, em Florença, e morreu em 1321, em Ravena, logo depois de concluir o Paraíso, a terceira parte da <em>Comédia</em>, que só receberia o adjetivo &#8220;divina&#8221; uns dois séculos depois. O poeta casou por acerto dos pais, com uma mulher chamada Gemma, mas ele era doido mesmo por Beatrice. O detalhe é que ele conheceu a sua musa eterna com nove anos de idade, quando ela tinha apenas oito. A fixação do sujeito era tão marcante que sua filha Antonia virou freira e, no convento, adotou o nome de&#8230; Beatrice.</p>
<ul>
<li><strong><a href="http://www.bocadoinferno.com/romepeige/artigos/dante.html">Clique aqui para ler artigo sobre o Inferno publicado em 1999 na fanzine Juvenatrix</a></strong></li>
<li><strong><a href="http://www.overmundo.com.br/overblog/o-inferno-de-dante">Mais Dante e seu Inferno no site Overmundo </a></strong></li>
</ul>
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		<title>Trechos de Juliano</title>
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		<pubDate>Sat, 16 Jan 2010 16:11:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Inácio França</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;- Como podem muitos ser negados? Serão todas as emoções iguais? Ou cada uma tem característica peculiares? E se cada raça tem suas qualidades, não serão elas dadas por um deus? E se não forem dadas por um deus, essas características não seriam mais bem simbolizadas por um deus nacional específico? No caso dos judeus, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright size-full wp-image-579" title="Juliano Vidal" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Juliano-Vidal1.jpg" alt="Juliano Vidal" width="142" height="212" />&#8220;- Como podem muitos ser negados? Serão todas as emoções iguais? Ou cada uma tem característica peculiares? E se cada raça tem suas qualidades, não serão elas dadas por um deus? E se não forem dadas por um deus, essas características não seriam mais bem simbolizadas por um deus nacional específico? No caso dos judeus, um patriarca mal-humorado e ciumento. No caso dos sírios efeminados e astutos, um deus como Apolo. Ou tomemos os germanos e os celtas, que são aguerridos e ferozes. Será por acaso que adoram Ares, o deus da guerra? Ou será inevitável? Os antigos romanos foram absorvidos pela legislação e pelo governo. Seu deus? O rei dos deuses, Zeus. E cada tem muitos aspectos e muitos nomes, pois há tanta variedade nos céus quanto entre os homens. Alguns perguntam: &#8216;Nós criamos esses deuses, ou eles nos criaram?&#8217; É um debate muito antigo. Seremos nós um sonho da divindade, ou cada um de nós um sonhador separado, evocando sua própria realidade? Embora não se tenha certeza, todos os nossos sentidos nos dizem que existe uma única criação, e que estamos contidos nela para sempre. Ora, os cristãos impõem um mito final e rígido àquilo que sabemos ser variado e estranho. Não, nem mesmo um mito, pois o Nazareno existiu em carne e osso, ao passo que os deuses que adoramos jamais foram homens; são, ao invés disso, qualidades e poderes, que se transformaram em poesia para nossa instrução. Com a adoração do judeu morto, a poesia cessou. Os cristãos desejam substituir nossas belas lendas pelo relatório policial de um rabino reformista. Com esse material impossível, esperam fazer uma síntese final de todas as religiões conhecidas. Agora apropriaram-se também dos nossos dias festivos. Transformaram divindades locais em santos. Tomam emprestados nossos ritos misteriosos, especialmente os de Mitra. Os sacerdotes de Mitra são chamados de &#8216;pais&#8217;, &#8216;padres&#8217;. Então os cristãos chamam <em>seus</em> sacerdotes de padres. Imitam até a tonsura, na esperança de construir novos adeptos com os atavios familiares do culto antigo. Agora, começam a chamar o Nazareno de &#8216;salvador&#8217; e &#8216;aquele que cura&#8217;. Por quê? Porque um dos nossos mais amados deuses é Asclépio, a quem chamamos de &#8216;salvador&#8217; e &#8216;aquele que cura&#8217;.&#8221;</p>
<p><strong>O charlatão Máximo, em conversa com Juliano ainda jovem, estudante de filosfia em Atenas</strong></p>
<p style="text-align: center;">
<strong>*****</strong></p>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: left;">&#8220;<strong>- </strong>Não é assim que deve se aproximar da divina presença. &#8211; Borrifei água em Oribásio, com ótima pontaria. Ele riu. Meu tio também, pois eu fizera o mesmo com ele. Então, fiquei assustado. Era exatamente assim que nasciam os monstros. Primeiro, o tirano faz brincadeiras inofensivas: borrifa água nos senadores durante o banho, serve pedaços de madeira ao invés de comida aos seus convidados, prega peças em todos ; e não importa o que ele faça, todos riem e o lisonjeiam, acham inteligentes suas osbervações<strong> </strong>mais cretinas. Depois as brincadeiras começam a perder a graça. Certo dia ele acha divertido violentar a mulher de outro homem diante do marido, ou o marido, na frente da mulher, ou torturar os dois, ou matá-los. Quando começa a matança, o imperador não é mais um homem, mas um animal, e já tivemos muitos animais no trono do mundo. Desculpei-me veementemente por ter molhado meu tio. Desculpei-me até por ter molhado Oribásio, embora ele seja como um irmão para mim. Nenhum deles adivinhou o significado daquele súbito acesso de culpa.&#8221;</p>
<p style="text-align: left;"><strong>Juliano, logo depois de chegar a Constantinopla, já na condição de imperador</strong></p>
<p><strong><br />
</strong></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Juliano</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Jan 2010 13:39:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Inácio França</dc:creator>
				<category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[Gore Vidal]]></category>
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		<category><![CDATA[intolerância religiosa]]></category>
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		<category><![CDATA[literatura americana]]></category>
		<category><![CDATA[paganismo]]></category>
		<category><![CDATA[Roma]]></category>
		<category><![CDATA[romance histórico]]></category>

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		<description><![CDATA[Nos últimos dias de 2009, no meio daquela correria sem sentido de final de ano, considerei que eu merecia um presente. As semanas que viriam pela frente prometiam ser de muito trabalho, com a chegada dos filhos que moram com a mãe em Tocantins, a obrigação de correr contra o tempo e entregar os textos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright size-thumbnail wp-image-574" title="Juliano Vidal" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Juliano-Vidal-100x150.jpg" alt="Juliano Vidal" width="108" height="162" />Nos últimos dias de 2009, no meio daquela correria sem sentido de final de ano, considerei que eu merecia um presente. As semanas que viriam pela frente prometiam ser de muito trabalho, com a chegada dos filhos que moram com a mãe em Tocantins, a obrigação de correr contra o tempo e entregar os textos do <em>Um Rio de Gente</em> e a perspectiva de mais demanda por conta do carnaval em Olinda.  Então, resolvi me dar de presente a leitura de <em>Juliano</em>, de Gore Vidal.</p>
<p>Depois de comprá-lo num sebo, deixei o livro curtindo na estante, cevando, enquanto gozava a expectativa da leitura. De vez em quando faço isso com algumas coisas que passo um tempão desejando ler, mas quando estou com ele nas mãos, resolvo esperar mais um pouquinho. Um traço masoquista, provavelmente.</p>
<p>Eu estava duplamente certo. Estou a ponto de enlouquecer de tanto preparar café-da-manhã, arrumar atividades para as crianças, apartar brigas, suportar arengas, além da ansiedade por causa dos prazos. A sorte é que <em>Juliano</em> é realmente show de bola. Só nas três primeiro páginas, já tinha marcado de lápis uma meia dúzia de trechos. Peguei essa mania de rabiscar o que vou lendo por causa do Caótico, antes meus livros permaneciam limpinhos.</p>
<p>Juliano foi o imperador romano que ensaiou uma reação contra o domínio do cristianismo e uma tentativa de revitalizar os cultos aos deuses gregos. O sujeito era filósofo, acreditava que o monoteísmo era uma ameaça ao debate de ideias, à diversidade da natureza e da humanidade. Quando assumiu o poder, tentou enquadrar a máfia dos bispos sem perseguir a liberdade de culto. Acabou vítima de uma conspiração dos galileus, como ele chamava os cristãos. A Idade Média e a intolerância religiosa que é uma das marcas registradas do monoteísmo provou que, em muitas coisas, o imperador estava coberto de razão da cabeça aos pés.</p>
<p>Qualquer dia pretendo publicar aqui alguma elocubração sobre monoteísmo, politeísmo e ideologia, mas hoje vou me concentrar no livro. Tem outro esperando que eu o escreva.</p>
<p><em>Juliano </em>é um romance histórico. Gore Vidal tomou como ponto de partida fatos históricos e costurou a história com sua imaginação. A vida desse imperador é muito bem documentada, apesar do seu governo ter durado pouco.</p>
<p>Vidal não poupa o cristianismo, principalmente porque levanta argumentos teológicos sem se submeter à lógica hegemônica do monoteísmo. Seu protagonista também não escapa da visão crítica e irônica do escritor norte-americano, que é mordaz, por exemplo, quando narra e descreve os rituais que o estudante de filosofia e futuro imperador considerava sagrados. Em um desses ritos, Juliano e um monte de gente entram no mar segurando um porquinho guinchando. O personagem vê beleza e santidade nessa cena ridícula.</p>
<p>Em matéria de ridículo, leitões tomando banho de mar são colocados no mesmo pé de, por exemplo, a convicção de que um monte de ossos de um “santo” pode curar seja lá o que for.</p>
<p>O imperador era um humanista, tinha horror à tirania, era um sujeito de bom coração, justo, porém meio ingênuo, quase abestalhado em sua crença nos sacerdores, oráculos, pitonisas e magos.  Esse abestalhamento, somada à pressa e falta de habilidade para tocar seus projetos, o lascou.</p>
<p>A história é ótima, mas a técnica literária de Vidal faz o livro ficar ainda melhor.  Parte da narrativa é em primeira pessoa: as memórias e os diários de Juliano, que foram parar nas mãos do filósofo Prisco, um sujeito bem pragmático, mas frouxo todo, que não pretende usar o material porque tem medo de se expor numa época em que os cristãos já estão tomaram conta do aparelho do Estado romano e estão por cima da carne seca.</p>
<p>Os comentários de Prisco, de outro velho filósofo, Libânio, e a troca de cartas entre eles completam a estrutura do romance. Tanto Prisco quanto Libânio existiram e tiveram contato com o imperador. Esse último, aliás, escreveu livros sobre Juliano no século IV.</p>
<p><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-575" title="Juliano no louvre" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Juliano-no-louvre-112x150.jpg" alt="Juliano no louvre" width="112" height="150" />Gore Vidal é escritor, roteirista de cinema e militante de esquerda, não um gênio da literatura. Em consequência, não experimentei aquela sensação de felicidade e completude que senti ao final de livros de Bolaños, Benedetti, Tchekhov ou Dostoievski. Mas é preciso ser justo: além de ter sido envolvido pela história muitíssimo bem contada, aprendi muito, tanto que consultei diversas vezes o Google, o oráculo moderno, para descobrir imagens do próprio Juliano (ao lado), do seu tio e antecessor, Constâncio, e de lugares como Aquiléia, Sirmium, Sarmácia, Nicomédia e Antióquia. No Aurélio, descobri que &#8220;perifrástico&#8221; é o discurso com muitos rodeios, cheio de voltas; e &#8220;virago&#8221; é o mesmo que machão.</p>
<p>O livro tem uma série de trechos excelentes, que vou transcrever na página <a href="http://www.caotico.com.br/trechos-arretados/">Trechos Arretados</a> nos próximos dias, a medida que tiver tempo para digitar.</p>
<ul>
<li><a href="http://www.caotico.com.br/ao-vivo-do-calvario/"><strong>Para saber mais sobre Gore Vidal, leia a postagem sobre o livro <em>Ao Vivo do Calvário</em></strong></a></li>
</ul>
<p><strong>P.S &#8211; Até o carnaval, a atualização do Caótico permanecerá meia-boca pelos motivos expostos no início desse texto. Na verdade, só aualizei hoje para Samarone não encher mais o saco!<br />
</strong></p>
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		<title>Trechos de Ao Vivo do Calvário, de Gore Vidal</title>
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		<pubDate>Sat, 17 Oct 2009 04:41:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Inácio França</dc:creator>
				<category><![CDATA[Trechos arretados]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[Gore Vidal]]></category>
		<category><![CDATA[igreja católica]]></category>
		<category><![CDATA[Jesus Cristo]]></category>
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		<description><![CDATA[“- Por que – ganiu o Filho do Deus Único – me perseguis? – Santo sempre recorria ao vós arcaico quando citava o Nosso Salvador – mas salvador de quê? A pergunta nunca me ocorreu antes, e olha que sou bispo. Do pecado, suponho. Mas todos já desistimos disso, diga-se a bem da verdade. Certamente [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright" title="aovivodocalvário" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2009/09/aovivodocalv%C3%A1rio1.jpg" alt="aovivodocalvário" width="75" height="109" /></p>
<p>“- Por que – ganiu o Filho do Deus Único – me perseguis? – Santo sempre recorria ao vós arcaico quando citava o Nosso Salvador – mas salvador de quê? A pergunta nunca me ocorreu antes, e olha que sou bispo. Do pecado, suponho. Mas todos já desistimos disso, diga-se a bem da verdade. Certamente Jesus não iria nos salvador do Dia do Juízo Final nem do Inferno já que Ele próprio é parte integrante de Todo esse Processo Judicial. Suponho que pretenda livrar a cara dos Seus amigos e angariadores de fundos. Um dia desses preciso pensar seriamente nessa faceta do cristianismo. Como, por exemplo, quem está salvando quem de quê”.</p>
<p><strong>São Timóteo, se referindo à forma como São Paulo (que ele chama de Santo) contava seu encontro com Jesus Cristo.</strong></p>
<p style="text-align: center;">*****</p>
<p style="text-align: left;">“…ao se lembrar de mim agora enquanto escreve, o que você pensa que são suas lembranças de Roma são na realidade algo bem diferente, pois a memória é facilmente manipulável, não só pelo Príncipe Deste Mundo e outros demônios, mas também por uma constante exposição à CNN na televisão. Você está sendo sutilmente alterado a cada instante, e à medida que muda, eu também mudo, porquanto sou uma invenção sua.”</p>
<p style="text-align: left;"><strong>São Paulo conversando com São Timóteo, que tenta escrever seu evangelho.</strong></p>
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		<title>Ao vivo do Calvário</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Oct 2009 02:04:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Inácio França</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Você acredita que Jesus foi o filho do “ômi” , que era filho de uma virgem e no mistério da Santíssima Trindade? Ou é daquelas pessoas que, mesmo sem religião, costuma dizer que respeita todas as religiões? Em qualquer um dos casos, evite a leitura de Ao Vivo do Calvário. Aliás, ignore esse texto, procure [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright size-full wp-image-388" title="aovivodocalvário" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2009/09/aovivodocalvário.jpg" alt="aovivodocalvário" width="117" height="172" />Você acredita que Jesus foi o filho do “ômi” , que era filho de uma virgem e no mistério da Santíssima Trindade? Ou é daquelas pessoas que, mesmo sem religião, costuma dizer que respeita todas as religiões? Em qualquer um dos casos, evite a leitura de <em>Ao Vivo do Calvário</em>. Aliás, ignore esse texto, procure outra coisa para ler na Internet. Blog é o que não falta por aí.</p>
<p>Logo na primeira página Gore Vidal dá o tom do que virá nos capítulos seguintes. O cacete (no sentido sexual do termo, sinônimo de pênis, rola, pau ou pica, e não de cajado) de São Timóteo e o tesão de São Paulo por menininhos, mencionados nos primeiros parágrafos, deixam claro que Vidal não alisou quando escreveu esse romance no início dos anos 90.</p>
<p>Não se trata de nenhuma obra-prima, muitas vezes, me dispersei no meio da leitura, mas é um livro engraçado. Aliás, quem deve ter se divertido mesmo foi o próprio autor. Deve ser muito legal escrever uma história sem dar a mínima para o respeito a qualquer crença, a fatos históricos ou mesmo à verossimilhança.</p>
<p>A ideia básica é a seguinte: a tecnologia para viajar ao passado já está sob domínio das grandes corporações como a General Eletric e das redes de TV americanas, assim um “pirata” temporal e religioso está apagando as “fitas” com as histórias dos evangelhos. São Timóteo, bispo da Macedônia e comedor/comida de São Paulo em seus tenros anos (poderia ter escrito “tenra idade”, mas a obviedade do trocadilho é boa demais), recebe a missão de escrever seu próprio evangelho para que a verdade sobre os primeiros tempos de cristianismo não se perca.</p>
<p>Quase ia esquecendo que uma TV conseguiu os direitos para transmitir ao vivo a crucificação de Jesus, direto do monte Calvário.</p>
<p>Só sofri um pouco na leitura porque fiquei com a impressão que o autor se animou demais. As idas e vindas entre passado, presente e futuro são tão intensas, com tantos personagens, que muitas vezes fiquei me perguntando “quem falou isso antes?” ou “e isso, está relacionado com qual situação mesmo?”.</p>
<p>Me embananei, aí resolvi relaxar e deixar pra lá, não suporto ter de voltar dezenas de páginas para checar alguma frase ou situação descrita. Se o sujeito que escreveu não estava preocupado com esse tipo de lógica porque eu é que teria de me preocupar? Tentei ler com o mesmo espírito com que, acho eu, Vidal escreveu.</p>
<p>O mais interessante é a visão completamente anárquica e esculhambada do novo testamento. O exercício de imaginar os intestinos dos conflitos entre os primeiros cristãos e entre judeus e cristãos vale a leitura com sobras.</p>
<p>A esculhambação é tão grande que poderia inspirar um roteirista de escola de samba da terceira divisão ou o decorador daquele baile de carnaval do Rio de Janeiro, o Gala Gay.</p>
<p>O romance tem outro mérito. Com humor, leveza, Gore Vidal leva o leitor a se inquietar com o poder da mídia em construir a memória coletiva, reconstruindo a história a partir dos interesses das corporações, da religião, dos donos do poder. A velha discussão filosófica sobre a verdade, ou melhor, sobre as verdades também está lá, presente em tudo quanto é capítulo.</p>
<p>Outra coisa boa é que conheci duas palavras novas para mim: “tepidário” e “solipsista”. Tepidário é a parte que fazia parte das termas romanas onde a água era a mais quente. E solipsista é o sujeito que só acredita que são reais as coisas que estão em seu próprio pensamento, todo o resto é fantasia. Miriam Leitão e Alexandre Garcia, por exemplo, são solipsistas de carteirinha.</p>
<p>Ah, se você é cristão e ainda vai insistir em ler <em>Ao</em><em> Vivo</em><em> do Calvário, </em>aviso que o Jesus Cristo de Gore Vidal não é nenhum santinho.</p>
<p><strong>Sobre o escritor</strong></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-389" title="gore-vidal-cloudy" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2009/09/gore-vidal-cloudy.jpg" alt="gore-vidal-cloudy" width="218" height="174" /></p>
<p>Gore Vidal é neto de um senador de Oklahoma, foi criado em Washington e lutou na Segunda Guerra Mundial. Mesmo assim, é um crítico feroz e incansável do modo como seu País exerce o poder e como o poder é exercido em  seu País. É autor de frases ótimas, como “não basta ser bem-sucedido, os outros também precisam fracassar”. Escreveu 35 romances e pelo menos 20 roteiros de cinema ou teatro. Hoje, mora na Itália, com medo de ser assassinado pelos seus conterrâneos republicanos.</p>
<ul>
<li><a href="http://www.scribd.com/doc/16933806/Gore-Vidal">artigo de Gore Vidal sobre Timothy McVeigh, autor do atentado de Oklahoma</a></li>
<li><a href="http://www.esquerda.net/index.php?option=com_content&amp;task=view&amp;id=1001&amp;Itemid=64">Entrevista à AFP, reproduzida no site português Esquerda.net</a></li>
</ul>
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