<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?> <rss version="2.0" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/" xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/" xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/" ><channel><title>Caótico &#187; ditadura</title> <atom:link href="http://www.caotico.com.br/tags/ditadura/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" /><link>http://www.caotico.com.br</link> <description>Espaço de leituras,  histórias &#38; especulações &#124; Por Inácio França</description> <lastBuildDate>Tue, 07 Feb 2012 19:41:39 +0000</lastBuildDate> <language>en</language> <sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod> <sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency> <xhtml:meta xmlns:xhtml="http://www.w3.org/1999/xhtml" name="robots" content="noindex" /> <item><title>De Mandelstam para Stálin</title><link>http://www.caotico.com.br/de-mandelstam-para-stalin/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/de-mandelstam-para-stalin/#comments</comments> <pubDate>Sun, 03 Apr 2011 21:15:28 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[anos 30]]></category> <category><![CDATA[ditadura]]></category> <category><![CDATA[poesia russa]]></category> <category><![CDATA[Rússia]]></category> <category><![CDATA[Sibéria]]></category> <category><![CDATA[socialismo]]></category> <category><![CDATA[stalinismo]]></category> <category><![CDATA[União Soviética]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1272</guid> <description><![CDATA[O núcleo do romance histórico De Mandelstam para Stalin realmente aconteceu: o poeta Ossip Mandelstam, que já não conseguia sequer publicar seus livros sob a ditadura de Josef Stalin, foi preso em 1934 e enviado para o exílio no interior da própria União Soviética ao escrever um poema cheio de coragem contra o ditador. Anos [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/de-mandelstam-para-stalin/' addthis:title='De Mandelstam para Stálin '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/03/de-mandelstam-para-stalin.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1273" title="de-mandelstam-para-stalin" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/03/de-mandelstam-para-stalin-235x350.jpg" alt="" width="145" height="217" /></a>O núcleo do romance histórico <em>De Mandelstam para Stalin </em>realmente aconteceu: o poeta Ossip Mandelstam, que já não conseguia sequer publicar seus livros sob a ditadura de Josef Stalin, foi preso em 1934 e enviado para o exílio no interior da própria União Soviética ao escrever um poema cheio de coragem contra o ditador. Anos depois, recebeu autorização para retornar a Moscou, foi preso novamente. Perdeu a razão e a vida nos confins da Sibéria.</p><p>Boa parte dessa história já havia sido contada antes em pelo menos outros dois livros – <em>Arquipélago Gulag</em>, de Alexander Soljenitsyn, e <em>Contra toda esperança</em>, de Nadejda Iakovlevna Mandesltam, viúva do personagem principal desse livro que li logo após o carnaval. O escritor norte-americano Robert Littel decidiu ir além do que já era público e notório.</p><p>A imaginação de Littel preencheu as lacunas que havia na história. Assim, ele recriou os interrogatórios a que foi submetido Mandesltam, reconstituiu reuniões de intelectuais com o próprio Stálin e, por meio das cartas de um personagem fictício, o levantador de peso Fikrit Shotman, reconstrói a farsa de um ridículo julgamento público conduzido pelos bolcheviques e nos conta os últimos dias do poeta.</p><p>O cotidiano de um intelectual proibido, cercado, vigiado e humilhado na segunda década da fracassada experiência socialista na URSS é outra das lacunas preenchidas com maestria pela ficção de Littel, com ajuda das lembranças da viúva Nadejda, com quem ele teve ao menos uma conversa nos anos 70.</p><p>As dificuldades para comprar comida, para conseguir lugar para morar, para se aquecer no inverno moscovita e os artifícios que ele tinha de armar para conseguir alguns rublos são de apertar o peito do leitor.</p><p>As situações do dia-a-dia sob o estado policial e os interrogatórios conduzidos pelo sofisticado e calculista senhor Kristóforovich garantem uma leitura que não chega a ser daquelas de segurar o leitor pelo pescoço, mas é bem interessante, para dizer o mínimo. O autor foi hábil o suficiente para criar os interrogatórios de forma a revelar a paranóia e o labirinto das mentalidades dos bolcheviques na década de 30.</p><p>Cartas enviadas para um destinatário indefinido foi o recurso usado por Littel para contar essa história. Recurso, aliás, que já não é lá muito criativo. A narrativa do norte-americano não ajuda a melhorar as coisas, pois o texto da maioria dessas cartas tem características mais parecidas com o de depoimentos, não de confissões íntimas.</p><p>Esses depoimentos (cartas, vá lá) têm um cacoete chato: o escritor parece sentir a necessidade de fazer seus personagens explicarem e revelarem seu passado para que o leitor não fique perdido com a ausência de alguma informação. E aí o texto perde ritmo e verossimilhança.</p><p>As limitações da narrativa não impedem o leitor de deduzir (ou compreender) que a absurda política de expurgos de Stálin nos anos 30 serviu aos propósitos dos comunistas que precisavam varrer do mapa a primeira geração de bolcheviques idealistas para que um bando de jovens ambiciosos, amorais e medíocres, dispostos a tudo, tomasse conta do Estado soviético. Assim, erros grotescos como o desastre econômico provocado pela coletivização forçada das pequenas propriedades, puderam ser esquecidos na marra.</p><p>O livro tem o mérito de ajudar a entender como a mediocridade e a violência transformaram em fracasso a revolução, que poderia ter sido uma das mais belas experiências humanas. A tragédia pessoal de um dos mais criativos poetas russos resume esse fracasso e, ao menos para mim, é a prova de que Stálin foi mais nocivo à luta dos excluídos e dos injustiçados no mundo do que milhares de Bush, Médici, Hitler, Reagan e Margareth Thatcher.</p><p><strong>Sobre o escritor</strong></p><p><strong><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/03/Robert_Littell.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1274" title="Robert_Littell" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/03/Robert_Littell.jpg" alt="" width="147" height="203" /></a><br /> </strong></p><p>Robert Littel tem 76 anos foi repórter da revista Newsweek e virou especialista em escrever romaces de espionagem, tão propícios para virar roteiros de filmes de segunda categoria. Ele mora na França e é pai de um escritor chamada Jonathan Littel, do qual nunca tinha ouvido falar até pesquisar para essa postagem.</p><ul><li><a href="http://www.germinaliteratura.com.br/literaturagf_julho2006.htm"><strong>Clique aqui para ler mais sobre Ossip Mandelstam no site Germina Literatura</strong></a></li></ul><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/de-mandelstam-para-stalin/' addthis:title='De Mandelstam para Stálin '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/de-mandelstam-para-stalin/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>4</slash:comments> </item> <item><title>Operação Massacre (agora, a opinião do editor)</title><link>http://www.caotico.com.br/operacao-massacre-agora-a-opiniao-do-editor/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/operacao-massacre-agora-a-opiniao-do-editor/#comments</comments> <pubDate>Sun, 30 Jan 2011 18:06:38 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[América Latina]]></category> <category><![CDATA[Argentina]]></category> <category><![CDATA[ditadura]]></category> <category><![CDATA[ditaduras militares]]></category> <category><![CDATA[jornalismo]]></category> <category><![CDATA[jornalismo literário]]></category> <category><![CDATA[literatura latino-americana]]></category> <category><![CDATA[reportagem]]></category> <category><![CDATA[repressão]]></category> <category><![CDATA[Rodolfo Walsh]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1187</guid> <description><![CDATA[A partir de hoje, voltamos à nossa programação normal. Foi o Caótico que me levou a Rodolfo Walsh e a Operação Massacre. Até o dia em que editei o texto enviado por Samarone Lima para registrar e comemorar o lançamento da primeiríssima edição brasileira do livro de Rodolfo Walsh, nunca tinha ouvido falar desse argentino [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/operacao-massacre-agora-a-opiniao-do-editor/' addthis:title='Operação Massacre (agora, a opinião do editor) '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><strong>A partir de hoje, voltamos à nossa programação normal.</strong></p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/01/operaçãomassacre.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1188" title="operaçãomassacre" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/01/operaçãomassacre-233x350.jpg" alt="" width="116" height="174" /></a>Foi o Caótico que me levou a Rodolfo Walsh e a <em>Operação Massacre</em>. Até o dia em que editei <a href="http://www.caotico.com.br/operacao-massacre/">o texto enviado por Samarone Lima</a> para registrar e comemorar o lançamento da primeiríssima edição brasileira do livro de Rodolfo Walsh, nunca tinha ouvido falar desse argentino ou da sua obra.</p><p>Abro parênteses para registrar que, ao descobrir Walsh por causa do blog, percebi com mais clareza qual a razão de ser do Caótico. E, sem modéstia, o quanto foi boa minha idéia. Fecho parênteses e volto ao que interessa.</p><p>Outra coisa que constatei claramente foi o tamanho da minha ignorância, bem como da minha ilusão de ser um bom leitor. Como um sujeito pode passar 42 anos desconhecendo completamente um livro desse porte e acreditar que conhece alguma coisa de jornalismo ou de América Latina?</p><p>Resta o consolo: minha ignorância não é solitária, estou acompanhado de outros milhares de leitores que, graças às opções e estratégias das editoras brasileiras, jamais tiveram a oportunidade de conhecer a intensa reportagem de Rodolfo Walsh.</p><p>Se alguém souber explicar por qual razão <em>Operação Massacre </em>nunca foi lançado no Brasil, favor explicar nos comentários. O livro, afinal, foi lançado na Argentina em 1957, época em que respirávamos ares relativamente democráticos. O mais esquisito é que, nem mesmo após o relaxamento da ditadura, no período que se seguiu à lei da anistia, editores como Ênio Silveira e sua Civilização Brasileira tomaram a iniciativa de publicá-lo.</p><p>A história é complexa, repleta de lacunas e incertezas, mas um resumo curto dá idéia da força que tem para agarrar o leitor pelo pé. Os peronistas, destituídos por um golpe militar, tentam dar o troco na mesma moeda em 1956. Se dão mal. Em poucas horas de tiroteio, estão derrotados sem dó nem piedade. Democraticamente, os líderes são fuzilados sem julgamento, na nora que nem caldo de cana.</p><p>Um grupo de operários – a maioria sem militância ou engajamento político -, se reúnem na casa de um vizinho que tinha rádio para escutar uma luta de boxe, disputa de título sul-americano, coisa importante numa época em que o boxe era um esporte respeitável. O chefe de polícia Fernando Suárez, sanguinário, irresponsável e incompetente, acredita ter descoberto um foco de resistência peronista e prende todo mundo. Depois, com a rebelião já controlada, manda fuzilar os presos. Por quê? Ora, porque o senhor Suárez assim desejava e pronto.</p><p>Alguns escapam da morte. Mesmo assim, seis meses depois, só a comunidade e as famílias de mortos e sobreviventes conhecem a história, que chega aos ouvidos de Walsh, jornalista, bom escritor de romances policiais e apartidário por definição. É evidente que ele tinha um filé nas mãos. E tratou de seguir a linha que cruzou seu caminho.</p><p>Walsh mudou de identidade e, como nas histórias de que lia e escrevia, se transformou num detetive independente para investigar o crime cometido pela polícia de Buenos Aires. Com o novelo desenrolado, ele tinha nas mãos uma imensa reportagem. Coisa boa, material de primeira. Então, ofereceu aos jornalões e revistas de circulação nacional. A turma que hoje se julga dona da “liberdade de expressão” não topou a parada. Walsh ainda acreditava no jornalismo e ficou de queixo caído.</p><p>A história acabou saindo em publicações com tiragens minúsculas. Um ano depois foi publicada em forma de livro e entrou para a história como um dos mais importantes textos jornalísticos da América Latina. Os americanos ainda não tinham inventado o termo “jornalismo literário” ou “new journalism”, pois Walsh seguiu por essa trilha uma década antes da turma de Capote, Talese e Wolfe.</p><p>O leitor sente o impacto do talento literário de Rodolfo Walsh logo nos primeiros parágrafos do prólogo, com a narração em primeira pessoa do que o autor viu e viveu na noite da tentativa de golpe peronista. As ferramentas do jornalismo não bastam para alguém definir a máquina repressiva de uma ditadura como “a grande divindade dos choques elétricos e das metralhadoras começa a trovejar&#8230;”. Para tanto, é preciso cérebro para ir além da objetividade.</p><p>Os curtos capítulos nos quais o autor apresenta os personagens do drama não deixam dúvidas de que o leitor está com literatura das boas em suas mãos. O argentino coloca as vítimas e sobreviventes do massacre bem perto de quem lê. O talento de escritor reduziu a nada os 55 anos que me separam do noite do fuzilamento. Senti as dores e as angústias de Livraga, Giunta, Mario, Garibotti e Nicolás Carranza. Walsh os trouxe para perto de mim.</p><p>Para quem tem algum interesse no jornalismo, seja como profissional da área ou como cidadão, a edição brasileira de <em>Operação Massacre</em> vem acompanhada de uma verdadeira aula sobre o assunto. Os diversos penduricalhos que o autor incorporou às várias edições argentinas publicadas enquanto ele ainda vivia, apesar de cansarem por conta das repetições de alguns trechos, revelam as técnicas do autor durante a investigação e contêm sérias reflexões sobre as relações entre poder e mídia na Argentina.</p><p><strong>Sobre o escritor</strong></p><p><strong><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/01/rodolfo_walsh.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-1189" title="rodolfo_walsh" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/01/rodolfo_walsh-350x216.jpg" alt="" width="263" height="162" /></a></strong></p><p>Rodolfo Walsh nasceu na Patagônia e pretendia seguir carreira literária como autor de ficção policial. Era especialista na história desse gênero, mas <em>Operação Massacre </em>mudou sua vida. A impunidade dos assassinos e a postura da imprensa argentina radicalizou suas posições políticas. De apartidária confesso, passou a militar no peronismo e, na década de 70, atuou na retaguarda na guerrilha urbana dos montoneros. Em 1977, distribuiu uma carta aberta endereçada à junta militar, nome oficial do chefes da quadrilha que derrubou a presidenta democraticamente eleita Isabelita Martínez. No dia seguinte, desapareceu. A “carta aberta” foi sabiamente incluída pela Companhia das Letras na edição brasileira.</p><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/operacao-massacre-agora-a-opiniao-do-editor/' addthis:title='Operação Massacre (agora, a opinião do editor) '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/operacao-massacre-agora-a-opiniao-do-editor/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>5</slash:comments> </item> <item><title>Operação Massacre</title><link>http://www.caotico.com.br/operacao-massacre/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/operacao-massacre/#comments</comments> <pubDate>Wed, 15 Sep 2010 01:22:44 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Loucos por livros]]></category> <category><![CDATA[América Latina]]></category> <category><![CDATA[Argentina]]></category> <category><![CDATA[ditadura]]></category> <category><![CDATA[ditadura militar]]></category> <category><![CDATA[jornalismo]]></category> <category><![CDATA[literatura latino-americana]]></category> <category><![CDATA[livro-reportagem]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=933</guid> <description><![CDATA[Perseverei, perseverei e perseverei até que, finalmente, Sama mandou um textinho sobre suas leituras. Eis sua estreia no Caótico em grande estilo. Sua próxima colaboração será sobre Eugênio Oneguin, de Pushkin. Quem viver, verá. ***** por Samarone Lima Li Operacion Masacre, de Rodolfo Walsh duas vezes, em dois contextos diferentes, e me preparo para ler [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/operacao-massacre/' addthis:title='Operação Massacre '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><strong>Perseverei, perseverei e perseverei até que, finalmente, Sama mandou um textinho sobre suas leituras. Eis sua estreia no Caótico em grande estilo. Sua próxima colaboração será sobre Eugênio Oneguin, de Pushkin. Quem viver, verá.</strong></p><p style="text-align: center;"><strong>*****</strong></p><p><strong>por Samarone Lima</strong></p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/09/rodolfo-walsh1.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-934" title="rodolfo walsh1" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/09/rodolfo-walsh1-234x350.jpg" alt="" width="126" height="189" /></a>Li <em>Operacion Masacre</em>, de Rodolfo Walsh duas vezes, em dois contextos diferentes, e me preparo para ler a terceira.</p><p>A primeira foi  numa primavera portenha, em 1999. Uma edição simples, quase tosca, mas com o toque poético da “Ediciones de la Flor”.</p><p>Eu estava num albergue, em San Telmo, abençoado pela bolsa do mestrado, pesquisando sobre direitos humanos na América Latina durante as ditaduras, que depois resultaria no livro Clamor. Percorria todos os sebos de Buenos Aires como um febrento, e quando esbarrei nas primeiras linhas de <em>Operacion&#8230;</em>, fiquei perplexo, quase trêmulo, mudo, encantado, com algo se mexendo por dentro. Isso me ocorre sempre que a literatura de verdade me arrebata. É algo mental, físico e espiritual.</p><p>“Nicolás Carranza no era um hombre feliz, esa noche del 9 de junio de 1956. Al amparo de las sombras acababa de entrar em sua casa, y es posible que algo lo mordiera por dentro. Nunca lo saberemos del todo. Muchos pensamientos duros el hombre se lleva a la tumba, y en la tumba de Nicolás Carranza ya está reseca”.</p><p>O livro resgata uma operação policial, ocorrida em junho de 1956, durante o governo do general Pedro Eugenio Aramburu (que derrubara Juan Domingos Perón no ano anterior). Doze homens foram levados de uma casa, onde acompanhavam um jogo de boxe, e fuzilados.</p><p>Como em toda ditadura, violência e paranóia se abraçam. Os homens foram tomados como militantes peronistas que estariam preparando um levante contra Aramburu.</p><p>Na correria, no desespero, poderia alguém ter escapado?</p><p>Seis meses mais tarde, em uma noite asfixiante de verão, diante de um vaso de cerveja, um homem se aproxima de Walsh e diz:</p><p>- “Hay um fusilado que vive”.</p><p>Ou:</p><p>- Um fuzilado está vivo.</p><p>Naquele instante, nascia um clássico da literatura Argentina.</p><p>Durante quase um ano, Walsh não pensará em outra coisa. Abandonará sua casa, seu trabalho, se chamará Francisco Freyre, usará um RG falso, um amigo o emprestará uma casa em El Tigre, durante dois meses viverá em um gelado sítio de Merlo, levará consigo um revólver, e a cada momento “as figuras do drama voltarão obsessivamente”.</p><p>Ente maio e julho de 1957, uma pequena revista, Mayoría, publicou a investigação. Walsh conseguiu encontrar sete sobreviventes.</p><p>Somente em 1973, quando já era um famoso jornalista argentino, a <em>Operacion</em> virou livro.</p><p>**</p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/09/rodolfo-walsh2.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-935" title="rodolfo walsh2" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/09/rodolfo-walsh2-226x350.jpg" alt="" width="119" height="184" /></a>Minha segunda leitura ocorreu em Havana, em dezembro de 2007.</p><p>“Basta a simples leitura da lista de executados em San Martin para compreender que o governo não tinha a menor idéia de quem eram as vítimas”.</p><p>Li matando saudades de uma narrativa preciosa, onde um jornalista introduz na objetividade jornalística (a busca incessante de sobreviventes, relatos, testemunhas), o cálice sagrado e vertical da subjetividade. Conhecemos quem é Carranza, o que pensa, como vive. Sabemos que Garibotti é “alto, musculoso, cara quadrada e enérgica, de olhos um pouco hostis”. Don Horacio “é um homem de pequena estatura, moreno, de bigodes e óculos&#8221;.</p><p>De Giunta, deixo no espanhol, para saborearmos a língua.</p><p>“No há cumplido treinta años Giunta. Es um hombre alto, atilado, rubio, de mirada clara. Expansivo, gráfico em los gestos y el lenguaje, mentalmente pertenence mucho más a la ciudad que al subúrbio”.</p><p>Um sujeito que “mentalmente” pertence mais à cidade que ao subúrbio. Assim vai o senhor Robert Walsh, nos levando pela vida dos homens, da cidade, o crime, e seus desdobramentos, nos mostrando os desdobramentos de uma máquina que costuma ser poderosa, a da repressão..</p><p>Numa das minhas dezenas de anotações, no livro que comprei em Buenos Aires, consta o seguinte:</p><p>“Jamais traduzido no Brasil”.</p><p>Na página 80, da versão cubana, escrevi, com letra preta:</p><p>“La Habana, 30.12.2007”</p><p>**</p><p>Vou ler <em>Operación&#8230;</em><em> </em>pela terceira vez. Desta vez na minha língua materna. A Companhia das Letras acaba de publicar <em>Operação Massacre</em>, com tradução de Hugo Mader. De quebra, <em>Essa mulher e outros contos</em> está saindo pela Editora 34, com tradução de Sergio Molina e Rubia Prates Goldoni.</p><p>São quase 11 anos, desde o primeiro encontro. O mais contraditório é isso. Lerei em português um livro que amei em língua espanhola, justo no dia em que viajo para a Espanha.</p><p>Coisas da vida, encantos antigos da literatura.</p><p>Se o dinheiro estiver curto, agarre logo esse livro.</p><p><strong>Sobre o escritor</strong></p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/09/rodolfo-walsh-foto.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-936" title="rodolfo walsh foto" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/09/rodolfo-walsh-foto.jpg" alt="" width="195" height="243" /></a></p><p>A ditadura argentina tinha derrubado Isabelita Perón em 24/3/1976, e iniciando uma feroz repressão. Em poucos meses, já eram milhares de desaparecidos, mortos, e cerca de 10 mil presos.</p><p>No último dia do ano, Rodolfo Walsh passou o dia escrevendo. Só parou quando os fogos celebravam o Ano Novo.</p><p>Disse à sua companheira, Lilia Ferreyra, que queria começar o ano “escrevendo contra esses filhos da puta”.</p><p>Exatamente no dia em que a ditadura comemorava um ano, Walsh enviou para a imprensa da Argentina e do exterior, a <em>Carta Aberta de um Escritor à Junta Militar</em>. Denunciava a existência, naquele momento, de 15 mil desaparecidos, milhares de presos e quatro mil mortos.</p><p>Era sua sentença de morte. No dia seguinte, foi seqüestrado e levado para a temida Escola de Mecânica da Armada (Esma). Tornou-se um dos 15 mil desaparecidos que denunciara.</p><p>O escritor escritor Alan Pauls lembra que Walsh era um homem que “acreditava nas palavras”.</p><p>“.. acreditava em seu poder de articular uma verdade e intervir no mundo, mas sobretudo, na capacidade das palavras de sobreviver a quem as disse, de continuar dizendo mesmo quando a voz de quem as proferiu se tivesse extinguido”.</p><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/operacao-massacre/' addthis:title='Operação Massacre '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/operacao-massacre/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>6</slash:comments> </item> <item><title>Primavera num Espelho Partido</title><link>http://www.caotico.com.br/primavera-num-espelho-partido/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/primavera-num-espelho-partido/#comments</comments> <pubDate>Tue, 02 Mar 2010 03:22:45 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[América do Sul]]></category> <category><![CDATA[América Latina]]></category> <category><![CDATA[ditadura]]></category> <category><![CDATA[literatura latino-americana]]></category> <category><![CDATA[literatura uruguaia]]></category> <category><![CDATA[Mario Benedetti]]></category> <category><![CDATA[Pepe Mujica]]></category> <category><![CDATA[Uruguai]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=604</guid> <description><![CDATA[Acabo de assistir pela TV as imagens da festa da posse do ex-tupamaro Pepe Mujica no meio das ruas de Montevidéu. Simpático e bonachão, o novo presidente uruguaio me levou de volta às páginas de Primavera num Espelho Partido, de Mario Benedetti, cuja leitura acabei às vésperas do carnaval. Benedetti me toca profundamente. Sua prosa [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/primavera-num-espelho-partido/' addthis:title='Primavera num Espelho Partido '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/03/primavera1.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-606" title="primavera" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/03/primavera1-224x350.jpg" alt="" width="120" height="188" /></a>Acabo de assistir pela TV as imagens da festa da posse do ex-tupamaro Pepe Mujica no meio das ruas de Montevidéu. Simpático e bonachão, o novo presidente uruguaio me levou de volta às páginas de <em>Primavera num Espelho Partido, </em>de Mario Benedetti, cuja leitura acabei às vésperas do carnaval.</p><p>Benedetti me toca profundamente. Sua prosa é terna e delicada. Foi com delicadeza que tratou de um tema tão duro e complexo como as vidas separadas pelas ditaduras militares na América Latina dos anos 60 aos 80.</p><p>O livro tinha tudo para ser pesadão e angustiante, afinal o personagem principal, Santiago, está preso numa penitenciária uruguaia. Sua família, em algum outro país latino-americano – acho que é o México -, tentando levar uma vida normal no exílio. O tempo passa em ritmos diferentes dos dois lados dos muros da cadeia. Mas Benedetti surpreende com leveza e esperança nos homens.</p><p>Volto a Mujica, o presidente que já foi guerrilheiro e poderia ter sido personagem do livro. É que Benedetti intercala relatos verídicos ou autobiográficos – ele próprio exilado &#8211; com a ficção das cartas de Santiago, as confidências da sua esposa Graciela, os comentários do amigo Rolando, as redações escolares da pequena Beatricita ou os desabafos do velho Rafael, seu pai.</p><p>Não interessa as condições da cadeia, divergências políticas ou a violência da repressão. Benedetti é um poeta e um humanista. A ele, interessam os sentimentos. Santiago está na cadeia, sofre imaginando a filha crescer. A menina sonha com o pai. Graciela trabalha, se vira para criar a menina e sente que a vida a levou para longe da cela onde Santiago tenta não mofar. O velho e sensível Rafael sabe que seu filho vai sofrer, mas não julga a nora, a qual, a bem da verdade, é um mulherão.</p><p>Durante a leitura de <em>Primavera&#8230;</em> li em algum lugar que as ditaduras na América Latina não foram nocivas apenas pelo aspecto político ou econômico, mas por terem interrompido vidas, sonhos e instaurado o medo em toda uma geração. Eu, que me tornei adulto em pleno exercício democrático, tento imaginar o quanto se pode perder por estar impedido de participar do jogo político. Por isso, é fundamental jamais esquecer.</p><p>A história da segunda metade do século XX no Brasil e no restante da América do Sul precisa ser contada por quem sofreu e não pelos carcereiros, que tentaram apagá-la. Permitir que um general ou uma emissora de TV construam essa história é o mesmo que delegar a um assassino a tarefa de contar a história da vida de sua vítima, ou seja, de como ela mereceu morrer.</p><p>Nesse livro, Benedetti dá uma enorme contribuição para que essa história seja contada de outra forma, pois escreve sobre os estragos da ditadura nos corações dos amantes e na dinâmica de uma família.</p><p>O fato de Mujica ser, desde ontem, o presidente do Uruguai justifica as esperanças e a fé de Benedetti no ser humano.</p><ul><li><a href="http://www.caotico.com.br/a-tregua/"><strong>Clique aqui para ler texto do Caótico sobre <em>A Trégua</em>, aobra-prima de Benedetti</strong></a></li><li><strong><a href="http://www.caotico.com.br/trecho-de-primavera-num-espelho-partido/">Clique aqui para ler trecho de <em>Primavera num Espelho Partido</em></a></strong></li><li><strong><a href="http://blogs.utopia.org.br/poesialatina/category/mario-benedetti/">Clique aqui para conhecer a poesia de Benedetti no Utopia.org.br</a></strong></li><li><strong><a href="http://silveiralidiane.blogspot.com/2009/07/primavera-num-espelho-partido-primavera.html">Clique aqui para conhecer a opinião de outro blogueiro sobre Primavera num Espelho Partido</a></strong></li><li><strong><a href="http://www.estuario.com.br/2009/05/18/por-favor-nao-se-esquecam-de-minha-caneta/">Clique aqui para ler a homenagem de Samarone Lima a Benedetti</a><br /> </strong></li></ul><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/primavera-num-espelho-partido/' addthis:title='Primavera num Espelho Partido '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/primavera-num-espelho-partido/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>3</slash:comments> </item> </channel> </rss>
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