<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?> <rss version="2.0" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/" xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/" xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/" ><channel><title>Caótico &#187; literatura francesa</title> <atom:link href="http://www.caotico.com.br/tags/literatura-francesa/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" /><link>http://www.caotico.com.br</link> <description>Espaço de leituras,  histórias &#38; especulações &#124; Por Inácio França</description> <lastBuildDate>Wed, 08 Feb 2012 13:36:43 +0000</lastBuildDate> <language>en</language> <sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod> <sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency> <xhtml:meta xmlns:xhtml="http://www.w3.org/1999/xhtml" name="robots" content="noindex" /> <item><title>Ilusões perdidas</title><link>http://www.caotico.com.br/ilusoes-perdidas/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/ilusoes-perdidas/#comments</comments> <pubDate>Thu, 12 Jan 2012 15:47:31 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Loucos por livros]]></category> <category><![CDATA[Balzac]]></category> <category><![CDATA[clássicos]]></category> <category><![CDATA[literatura francesa]]></category> <category><![CDATA[realismo]]></category> <category><![CDATA[realismo crítico]]></category> <category><![CDATA[século XIX]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1732</guid> <description><![CDATA[por Dimas Lins Tenho me tornado um desses leitores assíduos dos clássicos da literatura mundial. Comecei tarde, é bem verdade, mas consegui, por fim, reunir uma lista de livros de grandes escritores e me propus a lê-los com a atenção que a esta altura de minha vida me permito fazê-lo. 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Comecei tarde, é bem verdade, mas consegui, por fim, reunir uma lista de livros de grandes escritores e me propus a lê-los com a atenção que a esta altura de minha vida me permito fazê-lo. Já não sou um jovem e debutante leitor, por isso, não tenho pressa. Percebi que é preciso saborear as páginas de um bom livro, como se saboreia um bom vinho, e observar, para satisfazer curiosidades pessoais, os aspectos que envolvem a criação, o contexto da época em que se passa a narrativa, além de capturar detalhes da vida e obra de seu autor.</p><p>Os clássicos abriram para mim novas perspectivas e contribuíram na criação de alguns escritos pessoais, pois endossaram o meu foco na alma humana. Tenho cá pra mim que os grandes romancistas tinham como matéria-prima o infortúnio e, ainda que eu tenha o hábito de também me utilizar da mesma substância em alguns de meus contos – mantidas, evidentemente, as devidas proporções – sinto uma comoção e um inexplicável desejo de um final feliz para as personagens centrais desses autores, embora compreenda que tal querer, se de algum modo fosse satisfeito, provavelmente não daria aos seus livros a condição que os elevou a categoria dos clássicos.</p><p><em>Ilusões Perdidas</em>, do romancista francês Honoré de Balzac, é um desses livros que expõe a ambição desmedida, a miséria, a corrupção social, o interesse pessoal acima dos interesses coletivos e a prevalência do dinheiro sobre os valores morais. É um perfeito retrato social de sua época e um estudo de costumes da França do século XIX, cuja construção só foi possível, porque duas das principais personagens, Lucien Chardon de Rubempré e David Séchard, dividem entre si experiências vividas pelo próprio Balzac que, como o primeiro foi poeta e escritor e, como o segundo, investiu na carreira de editor e impressor de livros.</p><p><em>Ilusões Perdidas</em> foi publicado em três partes, no período de 1837 a 1843: <em>Os dois poetas</em>, <em>Um grande homem da província em Paris</em> e <em>Os sofrimentos do inventor</em>. Na obra, apresentam-se Lucien de Rubempré e David Séchard, cunhados e amigos sonhadores, duas almas ingênuas, embora um seja o contraponto do outro, porquanto ocorre a corrupção do caráter do primeiro em oposição a imutabilidade do feitio moral do segundo, apesar das provações.</p><p>David torna-se sucessor nos negócios do pai a um custo demasiadamente elevado, já que o velho, um homem extremamente devotado ao dinheiro, miserável e avarento, vende ao próprio filho os maquinários ultrapassados de sua tipografia a preços exorbitantes, deixando-o em difícil situação financeira. David é o oposto do pai, homem singular, portanto, de natureza generosa, assim como sua bela esposa Ève, irmã de Lucien, mulher altiva que compartilha com o marido o desejo de uma vida calma e distante do cinismo da aristocracia de Angoulême. David Séchard não é mais que um pequeno impressor sem tino comercial para enfrentar a concorrência e, por isso, torna-se presa fácil nas mãos de seus inimigos, tão logo eles tomam conhecimento de suas pesquisas na produção de um novo tipo de papel, bem mais barato que o comercializado em toda a Europa e fonte provável de uma grande fortuna.</p><p>Contudo, é através da trajetória de Lucien Chardon de Rubempré que Balzac empareda a sociedade parisiense revelando os jogos de interesse da aristocracia, do mundo literário, teatral e jornalístico. A partir da frase do personagem Vernou, editor de um jornal parisiense, dita ao jovem Lucien, compreende-se a deturpação do meio jornalístico do século XIX. Quaisquer semelhanças com os dias atuais seriam meras coincidências?</p><p>“Somos comerciantes de frases, e vivemos de nosso comércio. Quando o senhor desejar fazer uma grande e bela obra, um livro enfim, ali sim poderá colocar suas ideias, sua alma, e ela se apegar, defende-la; mas os artigos lidos hoje, esquecidos amanhã, valem apenas, a meus olhos, o que se paga por eles. Se o senhor dá importância a tais tolices, fará então o sinal da cruz e invocará o Espírito Santo para escrever um prospecto.”</p><p>Lucien, ao mesmo tempo ingênuo e ambicioso, apaixona-se pela senhora de Bargeton, mulher mais velha, casada com uma marionete e dama mais festejada da sociedade local, e parte com ela para Paris em busca de conquistas e glórias, mas não demora, logo é abandonado por sua protetora por força de convenções sociais e senso de autopreservação. Na mais profunda miséria, o poeta é acolhido pelo cenáculo, reunião de homens magnânimos, através de Daniel D’Arthez, um pequeno gênio literário, mas prefere o caminho rápido da ascensão social, apesar das advertências dos verdadeiros amigos. Lucien torna-se jornalista e corrompe-se, manipulando verdades e mentiras, através de seus brilhantes e espirituosos artigos sobre o teatro, as obras literárias e a aristocracia parisiense. É nessa fase do livro que Balzac faz a sua maior crítica social: a hipócrita tirania dos jornais, a “camaradagem” dos jornalistas, seus hábitos financeiros, a cobrança de artigos na forma de chantagens ou extorsões, no ataque sistemático de seus opositores com toda a sorte de zombarias e charlatanismos. A crítica de Honoré de Balzac se estende às gentes do teatro e aos livreiros, a quem pessoalmente entrou com uma ação por conta de um de seus livros (<em>O lírio do vale</em>, romance de1835 a 1836).</p><p>A queda de Lucien é tão meteórica quanto o seu sucesso e o próprio reconhecimento de sua falha de caráter se abre como o desabrochar de uma rosa numa carta de despedida que escreve à sua família, depois de tantos males causados.</p><p>“Certa noite, jantávamos entre amigos, no Rocher de Cancale. Entre mil gracejos que então trocávamos, aquele diplomata nos disse que certa jovem pessoa que víamos, com espanto, permanecer solteira estava doente de seu pai. Desenvolveu-nos então sua teoria sobre as doenças de família. Explicou-nos como, sem tal mãe, tal casa teria prosperado, como tal filho havia arruinado seu pai, como tal pai havia destruído o futuro e a consideração de seus filhos. Embora sustentada com risos, essa tese social foi apoiada, em dez minutos, com tantos exemplos, que fiquei impressionado. Essa verdade compensava todos os paradoxos insensatos, mas espirituosamente demonstrados, com que os jornalistas se divertem entre eles, quando não têm uma pessoa a quem mistificar. Pois bem! Sou a criatura  fatal de nossa família. Com o coração pleno de ternura, agi como um inimigo. A todos os seus devotamentos, respondi com males. Enquanto eu levava em Paris uma vida sem dignidade, repleta de prazeres e de misérias, tomando a camaradagem por amizade, deixando os verdadeiros amigos por pessoas que queriam e deviam explorar, esquecendo-me e não me lembrando de vocês senão para lhes causar mal, vocês seguiam o humilde caminho do trabalho, indo ao encontro, penosa mas seguramente, da fortuna que procurava tão loucamente surpreender. Enquanto vocês se tornavam melhores, eu introduzo em minha um elemento funesto”</p><p><em><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/01/ilusões-balzac04.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-1734" title="ilusões balzac04" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2012/01/ilusões-balzac04-138x150.jpg" alt="" width="138" height="150" /></a>Ilusões perdidas </em>é um livro magnífico e verdadeiramente surpreendente pela complexidade da história e pela interligação dos personagens com o restante da obra de Honoré de Balzac. Dono de um universo de mais de duas mil personagens, cem livros, dos quais contam o conjunto de <em>A Comédia Humana</em>, com oitenta e oito títulos, dentre os quais <em>Ilusões Perdidas</em>, Balzac deixou, provavelmente, o maior legado literário dentre todos os escritores. E pensar que seus pais estipularam um prazo de dois anos para que ele fornecesse provas de sua vocação literária.</p><p>Atolado em dívidas, tal qual seus personagens, Balzac só foi capaz de saldá-las após a sua morte. Foram-se os anéis, mas ficou, ao invés dos dedos, uma obra grandiosa para a humanidade.</p><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/ilusoes-perdidas/' addthis:title='Ilusões perdidas '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/ilusoes-perdidas/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>1</slash:comments> </item> <item><title>Memórias de Maigret</title><link>http://www.caotico.com.br/memorias-de-maigret/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/memorias-de-maigret/#comments</comments> <pubDate>Sun, 10 Apr 2011 15:13:43 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[criação literária]]></category> <category><![CDATA[ficção]]></category> <category><![CDATA[Georges Simenon]]></category> <category><![CDATA[literatura francesa]]></category> <category><![CDATA[literatura policial]]></category> <category><![CDATA[viver & escrever]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1297</guid> <description><![CDATA[Nos últimos tempos, quando não sei exatamente o que ler ou estou com a vida aperriada demais, busco refúgio nas historinhas curtas com as investigações do comissário Maigret. Acho até que já escrevi isso aqui no blog. Semana passada, aconteceu de novo. Da pilha de livros da coleção de bolso com as novelas de Georges [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/memorias-de-maigret/' addthis:title='Memórias de Maigret '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/04/memórias-de-maigret.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1298" title="memórias de maigret" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/04/memórias-de-maigret-205x350.jpg" alt="" width="121" height="187" /></a>Nos últimos tempos, quando não sei exatamente o que ler ou estou com a vida aperriada demais, busco refúgio nas historinhas curtas com as investigações do comissário Maigret. <a href="http://www.caotico.com.br/maigret-e-o-corpo-sem-cabeca/">Acho até que já escrevi isso aqui no blog</a>. Semana passada, aconteceu de novo.</p><p>Da pilha de livros da coleção de bolso com as novelas de Georges Simenon, o único que sobrou incólume era <em>Memórias de Maigret</em>. Mergulhei nele e caí de cabeça na surpresa. Não há crimes nem trama policial nesse volume da série e sim revelações a respeito dos métodos do próprio escritor, que dá vida ao famoso personagem para revelar um pouco – ou muito &#8211; do seu processo criativo, principalmente daquilo que ele chama de “verdade inventada”, mais fácil de ser percebida como verdadeira do que a própria verdade &#8220;real&#8221;.</p><p>Simenon é de uma transparência cristalina. Sem teorização nem pra-quê-isso, ele abre as cortinas do seu ofício, escancara seus segredos. Para isso, usa um recurso curioso e bem-humorado: ele troca de lugar com seu personagem. Ou melhor, vira personagem e Maigret, autor.</p><p>Nesse tira-teima entre criador e criatura, o escritor confessa como, na virada da década de 40 para a de 50, enxergava sua própria arrogância juvenil. Maigret descreve Simenon como um jovem cheio de certezas e de autoconfiança no tempo em que começou publicou seus primeiros romances, entre as duas guerras mundiais.</p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/04/Simenon.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1299" title="Simenon" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/04/Simenon-350x247.jpg" alt="" width="239" height="168" /></a>Em seguida, é implacável consigo mesmo: admite que o tempo e a vida o transformaram num homem lento, pesado, que demora a dar uma opinião, que fala com hesitação. Muito parecido com o próprio personagem. Em primeira pessoa, Maigret delicia-se com isso, sente-se vingado do jovem presunçoso de outros tempos.</p><p>Em várias ocasiões em que Maigret questiona se, como ele, outras pessoas também imaginam que poderiam dar um novo rumo às suas vidas, se poderiam ter outra vida, ou seja, fazer outras coisas completamente diferentes daquelas que fazem todos os dias. É bem verdade que o personagem jamais pensou em repetir a carreira do pai e largou um curso de medicina para entrar na polícia, mas esse dúvida parecia sair da boca do escritor.</p><p>Por razões que contarei na próxima atualização do blog, esse questionamento de Maigret balançou minhas já precárias estruturas.</p><p>Para quem como eu tem a pretensão de, um dia, viver de escrever, as <em>Memórias de Maigret</em>, serviu como um livro didático, uma apostila sobre o processo criativo de um grande contador de histórias que confessa que, aos 20 e poucos anos, tinha a pretensão de escrever “semiliteratura”, mas que não tina coragem de assinar seus livros com o próprio nome enquanto não fosse capaz de fazer ao menos isso.</p><p>Como Simenon na juventude, se um dia eu conseguir escrever algo que pudesse ser classificado como semiliteratura, tava bom demais.</p><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/memorias-de-maigret/' addthis:title='Memórias de Maigret '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/memorias-de-maigret/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>2</slash:comments> </item> <item><title>O corno de si próprio e outros contos</title><link>http://www.caotico.com.br/o-corno-de-si-proprio-e-outros-contos/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/o-corno-de-si-proprio-e-outros-contos/#comments</comments> <pubDate>Sat, 13 Nov 2010 12:18:55 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[chifre]]></category> <category><![CDATA[corno]]></category> <category><![CDATA[diversidade sexual]]></category> <category><![CDATA[erotismo]]></category> <category><![CDATA[gaia]]></category> <category><![CDATA[homossexualismo]]></category> <category><![CDATA[lésbica]]></category> <category><![CDATA[literatura erótica]]></category> <category><![CDATA[literatura francesa]]></category> <category><![CDATA[Marquês de Sade]]></category> <category><![CDATA[pornografia]]></category> <category><![CDATA[sádico]]></category> <category><![CDATA[sadismo]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1079</guid> <description><![CDATA[Ler alguma coisa do Marquês de Sade era algo que jamais tinha passado pela minha cabeça. 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Aliás, se é pra ser sincero confesso: não conhecia sequer um título dos seus escritos. Quando ouvia falar do seu nome, ou melhor, do seu título imaginava apenas um aristocrata tarado, preenchendo o tédio com orgias sanguinárias nos tempos da monarquia francesa.</p><p>Foi por isso que fiquei tão curioso ao descobrir, numa livraria de shopping, uma bem cuidada edição de bolso intitulada <em>O corno de si próprio e outros contos</em>. O preço baixo e o título sacana me seduziram. Ainda bem.</p><p>As 10 histórias são deliciosas, reveladoras da qualidade literária do Marquês, da sua lucidez diante da sexualidade do seu tempo e da sua coragem em defender a autonomia da mulher, na cama e fora dela.</p><p>É bem verdade que, ao começar a leitura, jurava que iria encontrar alicates beliscando os bicos dos peitos de mocinhas indefesas ou rapazes imberbes levando chicotadas de gordos encapuzados e excitadíssimos. Nada disso. Sade ia além.</p><p>Os contos desse volume podem ser lidos como um taxativo manifesto ao respeito pelas diferenças entre os seres humanos e à diversidade sexual, escritos dois séculos antes da primeira parada GLBT ou das primeiras caminhadas lésbicas.</p><p>Numa época em que o prazer da mulher era considerado como um perigo, o Marquês estava ao lado das mulheres. E para não deixar dúvidas, ele demonstra toda sua simpatia pelas adúlteras que enchem de gaia seus maridos insossos, machões ou incapazes de lhes fazer um cafunézinho antes de dormir.</p><p>Antes de escrever sobre o livro, consultei algumas coisas com a ajuda inestimável do prestativo Mr. Google e li que seu respeito pela sexualidade alheia estava na forma como ele rejeitava deus, as religiões, as virtudes religiosas e os bons costumes.</p><p>O melhor de tudo é o bom humor do sujeito. Não há a menor sombra de ranzinzice ou amargura nesses seus escritos, apesar de ter permanecido a maior parte de sua vida mofando na cadeia. Suas intermináveis passagens por cadeias e manicômios eram conseqüência, principalmente, de sua má-vontade com padres e com os senhores aparentemente respeitáveis, fossem eles nobres ou integrantes da ascendente burguesia.</p><p>Para se ter ideia do seu humor, um dos contos mais curtos, com o sugestivo título de “O esposo complacente”, deu origem a uma piada que ainda corre por aí sobre uma mocinha pura e virgem que, na véspera do casamento, recebe da mãe o conselho para “não se virar de jeito nenhum”, por mais que o marido insista. O problema é que ela entendeu tudo errado. Na noite de lua-de-mel, o marido até que tentou comê-la pela frente, mas diante da resistência da mocinha tão bem catequizada pela mãe, teve que se contentar com a porta de trás. Sorte dele, que era chegado num cuzinho.</p><p>A julgar pelo implacável humor do grande cronista da vida sexual do final do século XVIII e início dos XIX, as taras dos padres, bispos e cardeais não mudaram muito ao longo desses duzentos e tantos anos. O que hoje se chama de “escândalo de pedofilia”, devia ser um comportamento corriqueiros nos tempos de Sade. O cardeal italiano do conto “Enganai-me sempre assim”, por exemplo, ficou todo satisfeito quando sua cafetina de confiança lhe trouxe um menininho travestido de menina.</p><p>Mas é na história “Augustine de Villeblanche” que fica bem claro que o Marquês era muito mais do que um sacana avacalhando os donos do poder. Augustine é uma homossexual bonita e gostosa e, logo ao apresentá-la Sade deixa bem claro de que lado está na perseguição que era travada contra as lésbicas, acusadas de atentar contra deus e a natureza. Os argumentos e a ênfase do Marquês são de arrepiar de tão atuais, de tão contemporâneos.</p><p>Bem que ele merecia uma justa homenagem na próxima Parada da Diversidade.</p><p><strong>Sobre o escritor</strong></p><p><strong><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/11/Marquês-de-Sade..jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1081" title="Marquês de Sade." src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/11/Marquês-de-Sade..jpg" alt="" width="215" height="250" /></a><br /> </strong></p><p>Donatien Alphonse François de Sade passou a maior parte dos seus 74 anos na cadeia. Virou escritor na prisão, onde escreveu boa parte dos seus romances, contos e poemas. Era considerado tão perigoso pela monarquia que, poucos dias antes da queda da Bastilha, foi transferido para a prisão de Charenton só para que não fosse solto pela Revolução. Depois, foram os vitoriosos revolucionários, já no governo, que o prenderam e jogaram as chaves fora.</p><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/o-corno-de-si-proprio-e-outros-contos/' addthis:title='O corno de si próprio e outros contos '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/o-corno-de-si-proprio-e-outros-contos/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>4</slash:comments> </item> <item><title>Maigret é coisa de cinema</title><link>http://www.caotico.com.br/maigret-e-coisa-de-cinema/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/maigret-e-coisa-de-cinema/#comments</comments> <pubDate>Fri, 27 Nov 2009 00:52:51 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[Georges Simenon]]></category> <category><![CDATA[Jules Maigret]]></category> <category><![CDATA[literatura francesa]]></category> <category><![CDATA[literatura policial]]></category> <category><![CDATA[Maigret]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=518</guid> <description><![CDATA[Um potiguar chamado Tião costuma visitar o blog Estuário, de Samarone, onde ficou sabendo da existência desse Caótico aqui. 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Dia desses, ele deixou um comentário numa postagem que nem lembro mais qual foi. Aí, descobri e passei a visitar de vez em quando o <a href="http://www.sopaodotiao.blogspot.com/">Sopão do Tião</a>, que vem a ser o blog dele. Numa dessas visitas, cheguei ao blog do crítico de cinema do jornal Estado de S. Paulo, o senhor Luiz Carlos Merten.</p><p>Pois bem, no blog mantido sob a responsa de <a href="http://blog.estadao.com.br/blog/merten/?title=a_louca_de_maigret&amp;more=1&amp;c=1&amp;tb=1&amp;pb=1">Merten no portal do Estadão</a>, encontrei o assunto dessa postagem: George Simenon e seu comissário <a href="http://www.caotico.com.br/maigret/">Maigret</a>, tema de um dos primeiros textos que publiquei, há uns quatro meses mais ou menos.</p><p>Mesmo correndo o risco de me repetir, agarrei a deixa do Merten e volto à Maigret, o mais humano e imperfeito dos detetives da ficção policial. Imperfeito como detetive, perfeito como personagem. O problema é que estou viciado em Maigret, só de sexta para segunda-feira, li dois livretos da série que está sendo publicada pela L&amp;PM: <em>A Fúria de Maigret</em> e <em>Maigret e seu Morto</em>.</p><p>Viciado como estou, fiquei satisfeitíssimo ao encontrar o elogio de Merten à obra de Simenon, que ele define como um autor capaz de criar grandes diálogos. O crítico paulista revela que, após ler um dos livrinhos, resolveu fazer uma breve pesquisa para tentar saber se as histórias do personagem já tinham ido parar no cinema, pois não acreditava que “um material tão bom nunca tivesse sido filmado”.</p><p>Numa página na internet, descobriu que o personagem foi parar na TV incontáveis vezes. No Japão, inclusive. Mas, para sua – e minha – surpresa, nunca no cinema. Quem já leu alguma história do comissário da Polícia Judiciária de Paris entenderá o quanto isso é surpreendente.</p><p>Além dos excelentes diálogos, há muitos outros elementos na ficção de Simenon capazes de fazer salivar qualquer bom diretor. A última novela que li, por exemplo, <em>Maigret e seu morto</em>, é um roteiro quase pronto, pedindo para ser filmado, com ação, violência &#8211; sem exagero nem apelação no uso desses ingredientes &#8211; e um pouco de disputa pelo poder nos bastidores da investigação. Uma beleza para Hollywood.</p><p>Até agora, esse <em>Maigret e seu morto </em>foi o melhor.</p><p>Em outras histórias, como <em>As Férias de Maigret</em>, que li há uns dois meses, o autor carregou na tensão, com direito a uma corrida contra o tempo num cenário cheio de luz, sol, cores.</p><p>Nesse livro, aliás, é fácil perceber o domínio que Simenon das técnicas literárias e da arte de contar histórias. Inicialmente, quando o detetive ainda tateia, duvidando até mesmo se realmente houve um crime, a trama parece não andar. Depois, a velocidade com que as coisas passam a acontecer, é ditada pela pressa do detetive, pela angústia de saber que precisa resolver logo a questão. Quem lê, é arrastado por Maigret.</p><p>Ação, violência, tensão, intriga, ritmo e cenários diferentes. Falta mais algum elemento cinematográfico? Faltam mulheres nuas. Não há problema, tem de sobra na <em>Fúria de Maigret. </em>Ia esquecendo, em<em> Maigret e seu morto </em>tem sexo e um tantinho assim de putaria.</p><p>Ah, o Maigret da foto lá em cima, é o ator francês Jean Gabin.</p><ul><li><a href="http://www.trussel.com/maig/gauteure.htm"><strong>Clique para saber mais sobre Maigret na TV (em inglês)</strong></a></li><li><strong><a href="http://www.lpm-editores.com.br/v3/site/default.asp">Clique aqui para conhecer a coleção completa de Maigret</a></strong></li></ul><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/maigret-e-coisa-de-cinema/' addthis:title='Maigret é coisa de cinema '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/maigret-e-coisa-de-cinema/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>3</slash:comments> </item> </channel> </rss>
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