<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?> <rss version="2.0" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/" xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/" xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/" ><channel><title>Caótico &#187; literatura russa</title> <atom:link href="http://www.caotico.com.br/tags/literatura-russa/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" /><link>http://www.caotico.com.br</link> <description>Espaço de leituras,  histórias &#38; especulações &#124; Por Inácio França</description> <lastBuildDate>Wed, 08 Feb 2012 13:36:43 +0000</lastBuildDate> <language>en</language> <sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod> <sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency> <xhtml:meta xmlns:xhtml="http://www.w3.org/1999/xhtml" name="robots" content="noindex" /> <item><title>Minha vida</title><link>http://www.caotico.com.br/minha-vida/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/minha-vida/#comments</comments> <pubDate>Tue, 29 Nov 2011 14:36:27 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[czarismo]]></category> <category><![CDATA[literatura russa]]></category> <category><![CDATA[novela]]></category> <category><![CDATA[romance curto]]></category> <category><![CDATA[século XIX]]></category> <category><![CDATA[stalinismo]]></category> <category><![CDATA[Tchekhov]]></category> <category><![CDATA[tradução]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1654</guid> <description><![CDATA[“Aqueles concidadãos sobre os quais antes eu não tinha nenhuma opinião ou que pela aparência pareciam bem honrados, agora se mostravam pessoas baixas, grosseiras, capazes de todo tipo de vileza. A nós, pessoas simples, enganavam, roubavam nas contas, obrigavam a esperar várias horas em antessalas frias ou na cozinha, ofendiam-nos e dirigiam-se a nós com [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/minha-vida/' addthis:title='Minha vida '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/11/MinhaVida.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-1655" title="MinhaVida" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/11/MinhaVida.jpg" alt="" width="160" height="240" /></a>“Aqueles concidadãos sobre os quais antes eu não tinha nenhuma opinião ou que pela aparência pareciam bem honrados, agora se mostravam pessoas baixas, grosseiras, capazes de todo tipo de vileza. A nós, pessoas simples, enganavam, roubavam nas contas, obrigavam a esperar várias horas em antessalas frias ou na cozinha, ofendiam-nos e dirigiam-se a nós com extrema grosseria”.</p><p>Anton Tchekhov escreveu esse parágrafo na Rússia, em 1896. Faço as contas para que o leitor não fique quebrando a cabeça por besteira: esse trecho foi escrito há 115 anos, numa cidade gelada, em alfabeto cilírico, faz parte da novela <em>Minha vida</em>, que acaba de ser lançada no Brasil pela Editora 34<em> </em>e é um perfeito exemplo para se entender a célebre frase de outro russo, Tolstoi, sobre a possibilidade de ser universal quando se pinta a própria aldeia.</p><p>Ao ler esse fragmento de parágrafo de Tchekhov enxerguei alguns moradores dos melhores bairros recifenses, que passeiam pelos corredores de shoppings de mãos livres, enquanto a babá vem logo atrás carregando sacolas de compras, bolsa de bebê e o próprio bebê, pesado demais para os braços dos pais. Enxerguei também as empregadas domésticas, obrigadas a chegar mais cedo no trabalho para dar tempo de conduzir cachorrinhos mimados a espalhar merda pelas calçadas.</p><p>A literatura de Tchekhov é universal e longe de ser simplista, porém sua linguagem é acessível, incapaz de assustar leitores inexperientes que, à primeira vista, poderiam se intimidar diante de um “escritor-russo-clássico-do-século XIX”.</p><p>Na novela <em>Minha vida</em>, publicada originalmente com o subtítulo <em>Conto de um provinciano</em>, também está presente a opção de escrever sobre o cotidiano, a vida e as emoções das pessoas simples, como em seus contos geniais, já comentados pro mim aqui no Caótico (<a href="http://www.caotico.com.br/contos-de-tchekhov/">Contos de Tchekhov</a> e <a href="http://www.caotico.com.br/novamente-tchekhov/">Novamente Tchekhov</a>).</p><p>Permanecem tanto o universo temático quanto o ritmo veloz dos seus escritos curtos. O contista Tchekhov não deixa o leitor respirar nesse romance curto e coloca as cartas na mesa desde o primeiro capítulo. Para ser mais exato, desde a primeira página. A todo momento, tive a impressão que ele não teria assunto para prosseguir no próximo capítulo.</p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/11/tchekhov2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1656" title="tchekhov2" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/11/tchekhov2.jpg" alt="" width="146" height="203" /></a>A dificuldade de Tchekhov em migrar do formato curto para as narrativas mais longas é relatada pela tradutora, Denise Sales, em um posfácio repleto de boas informações sobre a rotina do escritor, que considerava “cacete” escrever histórias longas. Recomendo não desprezar esse posfácio, escrito com leveza e capaz de ajudar o leitor a compreender um pouco da rotina e do contexto intelectual da Rússia nas últimas décadas da monarquia.</p><p>É o próprio Tchekhov e não sua tradutora brasileira quem lança luzes sobre a sociedade russa e antecipa o que virá com a revolução bolchevique, que só aconteceu 13 anos após sua morte e 21 depois da publicação de <em>Minha vida. </em>Sua capacidade de compreender o dia-a-dia nas ruas, fazendas e aldeias da Rússia e retratá-lo com as ricas ferramentas da literatura é o que torna possível enxergar adiante. Ou ao menos entender os fenômenos sociais que possibilitaram, por exemplo, a violência do stalinismo.</p><p>Missail Poloznev, o protagonista da novela é filho de uma linhagem nobre empobrecida, porém com direitos ao privilégio de ocupar os cargos públicos do Estado czarista. Ele poderia fingir que trabalha para garantir o sustento e a pose pelo resto da vida, como fazem seus contemporâneos e conterrâneos. Mas ele quer algo mais da vida, sente-se eternamente deslocado entre tanta gente medíocre, preguiçosa e preconceituosa.</p><p>Ele se identifica com os pobres que pegam pesado no trabalho braçal. Para estupor geral – principalmente do seu pai, arquiteto corrupto e sem talento -, é nisso que vai trabalhar. Só então ele encontra um sentido para sua existência.</p><p>Sempre em primeira pessoa, Missail revela pelos operários e camponeses admiração proporcional ao desprezo por quem não “trabalha”, apesar de expressar respeito pelos intelectuais que são capazes de pensar e refletir com criticismo. Isso me levou direto a pensar sobre a glorificação do trabalho expressa pelo realismo socialista e sua estética avessa à criatividade e ao subjetivismo.</p><p>Durante a leitura, ora meu pensamento ia da Rússia do século XIX ao Brasil do século XXI quase sem escalas.</p><p>A crueza do narrador Missail ao retratar a corrupção em todas as instâncias da sociedade russa – do pintor que rouba tinta de quem o contrata aos engenheiros que cobram pesadas propinas para a ferrovia passar perto da cidade – poderia servir de base para interessantes reflexões sobre a pobreza e a superficialidade dos argumentos de quem marcha contra a corrupção segregando esse problema “aos políticos” ou “ao congresso”.</p><p>Espanta-me constatar que Anton Tchekhov, um homem dos anos 1900, sem internet ou televisão, percebia que os falsos moralistas de hoje não percebem: políticos corruptos são gerados por uma sociedade corrupta.</p><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/minha-vida/' addthis:title='Minha vida '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/minha-vida/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>6</slash:comments> </item> <item><title>Novamente Tchekhov</title><link>http://www.caotico.com.br/novamente-tchekhov/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/novamente-tchekhov/#comments</comments> <pubDate>Wed, 13 Jul 2011 12:28:14 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[clássicos russos]]></category> <category><![CDATA[contistas]]></category> <category><![CDATA[Contos]]></category> <category><![CDATA[histórias curtas]]></category> <category><![CDATA[literatura russa]]></category> <category><![CDATA[narrativas curtas]]></category> <category><![CDATA[russos]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1496</guid> <description><![CDATA[Não há retiro uma só palavra do que escrevi em dezembro de 2009, quando tive o imenso prazer de ser apresentado à prosa de Anton Tchekhov. Foram apenas 12 contos, o bastante para terminar a leitura fascinado, emocionado mesmo. Um ano e meio depois, reencontro Tchekhov em mais uma coletânea de suas memoráveis histórias curtas, [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/novamente-tchekhov/' addthis:title='Novamente Tchekhov '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/07/homemextraodin%C3%A1rio.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-1497" title="homemextraodinário" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/07/homemextraodin%C3%A1rio.jpg" alt="" width="101" height="167" /></a>Não há retiro uma só palavra do que escrevi <a href="http://www.caotico.com.br/contos-de-tchekhov/">em dezembro de 2009</a>, quando tive o imenso prazer de ser apresentado à prosa de Anton Tchekhov. Foram apenas 12 contos, o bastante para terminar a leitura fascinado, emocionado mesmo.</p><p>Um ano e meio depois, reencontro Tchekhov em mais uma coletânea de suas memoráveis histórias curtas, 18 delas para ser mais exato. Ao todo, foram 30 contos, mas tem vaga para mais, para muito mais. Quem imagina ser necessário escrever um romance com centenas de páginas para ser considerado um gênio da literatura nunca leu Tchekhov.</p><p>Esse sujeito viveu apenas 44 anos, de 1860 a 1904, tempo o suficiente para deixar uma infinidade de contos com uma surpreendente coerência e harmonia entre eles, como se, juntos, formassem um imenso romance.</p><p>No texto que publiquei no final de 2009, destaquei que a maior parte da sua obra foi escrita na Rússia há mais de um século, mas poderia ter escrita em qualquer parte do mundo e em qualquer época. A leitura que concluí de uma tirada só, voando de Belém para o Recife via Brasília, renovou a sensação de sua atualidade. Tenho certeza que no a ano 2438, se ainda ainda houve gente na Terra, ler Tchekhov ainda será uma experiência tão deliciosa quanto valiosa.</p><p>Logo no primeiro conto é possível reconhecer no amoral bacharel Kovaliov  os mesmos oportunistas que ampliaram seus patrimônios comprando a preço de banana as milhares de casas vazias, abandonadas por famílias norte-americanas despejadas pelos bancos durante a crise financeira de 2008. O título é explícito e faz parte da história, realçando ainda mais a sordidez do bacharel: ‘Desgraça alheia’.</p><p>Conheci o pobre camponês Terenti e seu profundo conhecimento da natureza do lugar onde nasceu na pele de muitos sertanejos que entrevistei ao longo dos meus anos como repórter ou durante a pesquisa para os livros sobre os povos do Capibaribe e do Pajeú.</p><p>E me reconheci como o pai do menino Serioja, que precisa por limites e dar um freio de arrumação no comportamento do menino, mas não sabe exatamente como fazer nem o que dizer para a criança, apesar de toda sua experiência profissional e na vida fora de casa. Encontrar a medida certa da punição do ser amado e escolher as palavras que irão tocar coração e mente de uma criança são desafios tão complexos hoje quanto no século XIX, afinal o ser humano continua a mesma, apesar de tanto ter mudado ao nosso redor. Tchekhov sabia disso.</p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/07/tchekhov.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-1498" title="tchekhov" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/07/tchekhov-114x150.jpg" alt="" width="114" height="150" /></a>Ele também era um sujeito versátil: em ‘A filha de Albion’ ele esbanja humor non-sense ao retratar o encontro entre duas culturas. Já na história ‘Trapaceiros à força’, fica claro o quanto sabia utilizar e manejar recursos técnicos sofisticados ao construir uma narrativa ditada pelo ritmo do relógio e pela ansiedade de quem espera os ponteiros avançarem.</p><p>Sim, todos esses contos me emocionaram, mas jamais tinha lido algo como o despretensioso ‘Relato do jardineiro-chefe’. Como não tenho a habilidade dos russos, me faltam adjetivos e substantivos adequados, recorro então ao Dicionário do Palavrão de Mário Souto Maior para definir o que essa história me fez sentir: puta-que-o-pariu!</p><p>Com delicadeza e firmeza, Tchekhov expressa sua esperança no ser humano, seu amor à vida. Para tratar de temas complexo como justiça, pena de morte e punição, o contista abre uma leitura que os enche de luzes e cores. Mais do que uma história, é uma declaração de princípios lúcida e ousada.</p><p>Entretanto faço um alerta: se você é desses que considera a impunidade a razão de todos os males, sonha com a pena de morte e quer ver adolescentes na cadeia aos 16 anos, tente perceber o mundo pelos olhos desse sujeito e não apenas pela ótica medíocre das revistas semanais e do rancor de Alexandre Garcia.</p><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/novamente-tchekhov/' addthis:title='Novamente Tchekhov '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/novamente-tchekhov/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>3</slash:comments> </item> <item><title>A felicidade conjugal / O diabo</title><link>http://www.caotico.com.br/a-felicidade-conjugal-o-diabo/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/a-felicidade-conjugal-o-diabo/#comments</comments> <pubDate>Fri, 06 May 2011 15:07:29 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[casamento]]></category> <category><![CDATA[czar]]></category> <category><![CDATA[Dostoievski]]></category> <category><![CDATA[Gandhi]]></category> <category><![CDATA[literatura russa]]></category> <category><![CDATA[pacifismo]]></category> <category><![CDATA[Rússia]]></category> <category><![CDATA[Tolstoi]]></category> <category><![CDATA[traição]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1363</guid> <description><![CDATA[Ao iniciar a leitura de A felicidade conjugal esperava entrar vagarosa e cuidadosamente no universo de Lev Tolstoi. 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As histórias contadas pelo russo de [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/a-felicidade-conjugal-o-diabo/' addthis:title='A felicidade conjugal / O diabo '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/05/a_felicidade_conjugal.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1364" title="a_felicidade_conjugal" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/05/a_felicidade_conjugal-206x350.jpg" alt="" width="126" height="215" /></a>Ao iniciar a leitura de <em>A felicidade conjugal </em>esperava entrar vagarosa e cuidadosamente no universo de Lev Tolstoi. Ainda nas primeiras páginas, relaxei. Percebi bem rápido que não havia motivos para tamanha cautela.</p><p>Tolstoi desarmou minhas defesas precárias com sua prosa leve, cheia de ritmo e luz. Sim, luz. As histórias contadas pelo russo de barbas e sonhos de profeta são luminosas. Até o inverno que cobre as janelas com montes de neve são claros. As sombras, quando surgem, não duram muito, dão logo lugar a raios de sol, jardins floridos e aldeias cheias de gente nas ruas.</p><p><em>O diabo</em>, a novela que completa o volume de bolso editado pela editora gaúcha L&amp;PM, confirmou essa primeira impressão. Seu final trágico não mudou minha opinião, afinal o que tem de acontecer, acontece às claras.</p><p>Tolstoi retratou o homem do seu tempo, usando com perfeição os modos e as técnicas de narrar já consolidadas e que existiam ao seu dispor. Ao contrário de Dostoievski, ele não inventou nada, não fez ultrapassagens perigosas, mas manejava como ninguém da sua época  as ferramentas que tinha ao alcance.</p><p>Nunca li – ou melhor, ainda não li – os grandes romances de Tolstoi, mas <em>Anna Karenina </em>já está na mira. As duas histórias curtas desse volume, porém, bastam para revelar sua genialidade como contador de histórias e observador das relações cotidianas da sua época.</p><p>As duas histórias foram escritas em fases completamente diferentes da vida do escritor. Quando escreveu <em>A felicidade conjugal</em>, Tolstoi tinha 31 anos e dava os primeiros passos na carreira, enquanto que <em>O diabo </em>foi publicado na época do 70º aniversário de Tolstoi, ou seja, quando ele já era uma espécie de lenda viva não só para os russos, mas para os europeus que tinham lido ao menos um livro na vida.</p><p>Separadas pelo tempo, mas com muita coisa em comum, as novelas tratam do casamento e da felicidade possível. Na primeira, uma mulher inquieta e insatisfeita, não sabe o que fazer quando a paixão e o deslumbramento acabam. Na segunda, um homem com tudo para estar muito satisfeito da vida não sabe o que fazer com tanto tesão.</p><p>Em <em>A felicidade&#8230; </em>fica claro que, em alguns momentos, ele não consegue manter o ritmo e a prosa fica um tantinho enjoada, mas só um pouco, nada que comprometa o interesse do leitor. A outra novela, não. Àquela altura do campeonato, Tolstoi era mais do que um gênio. Era um gênio experiente. São frases curtas e acontecimentos bem encaixados, realimentando o apetite do leitor continuamente.</p><p>O diálogo entre o marido Evgueni e seu tio, em <em>O diabo, </em>é de um bom humor impagável.</p><p>É clara a intenção de construir um fundo moral em ambas novelas, mas Tolstoi era tão bom que não conseguia fazer apenas isso.</p><p>Vale a pena anotar que a edição inclui uma apresentação da tradutora Maria Aparecida Botelho Soares, que explica tintim por tintim as regras que norteiam os nomes russos.</p><p>&nbsp;</p><p><strong>Sobre o escritor</strong></p><p><strong><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/05/tolstoi3.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-1365" title="tolstoi3" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/05/tolstoi3-350x262.jpg" alt="" width="242" height="181" /></a><br /> </strong></p><p>Lev Tolstoi  dedicou boa parte da sua vida à <a href="http://www.caotico.com.br/contos-da-nova-cartilha/">educação dos camponeses</a>, que idealizava como pessoas de alma elevada, além de ser tarado nas camponesas. Já escritor consagrado, abandonou o cristianismo oficial e passou a pregar sua própria fé religiosa, baseada no princípio da não-agressão. A Igreja Ortodoxa o excomungou, o que vem a ser algo invejável. Era um pacifista e influenciou Mahatma Gandhi, com quem se correspondia, e Martin Luther King, mas o czar o temia por inspirar os trabalhadores rurais, gente que vivia num regime de semi-escravidão.</p><ul><li><a href="http://miltonribeiro.opsblog.org/2010/03/05/dostoievski-ou-tolstoi/"><strong>Se você clicar aqui vai ler um ótimo texto de Milton Ribeiro a partir da pergunta Tolstoi ou Dostoievski?</strong></a></li><li><a href="http://blog.meiapalavra.com.br/2011/04/01/os-ultimos-dias-de-liev-tolstoi/"><strong>Aqui tem outro texto muito interessante do blog Meia Palavra sobre a generosidade do escritor russo</strong></a></li></ul><p>&nbsp;</p><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/a-felicidade-conjugal-o-diabo/' addthis:title='A felicidade conjugal / O diabo '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/a-felicidade-conjugal-o-diabo/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>7</slash:comments> </item> <item><title>Contos da Nova Cartilha</title><link>http://www.caotico.com.br/contos-da-nova-cartilha/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/contos-da-nova-cartilha/#comments</comments> <pubDate>Sun, 06 Feb 2011 12:18:32 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[contos curtos]]></category> <category><![CDATA[educação infantil]]></category> <category><![CDATA[enchentes]]></category> <category><![CDATA[histórias]]></category> <category><![CDATA[literatura russa]]></category> <category><![CDATA[narrativas curtas]]></category> <category><![CDATA[pedagogia]]></category> <category><![CDATA[São Luís do Paraitinga]]></category> <category><![CDATA[Tolstoi]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1201</guid> <description><![CDATA[Tem um negócio besta que sempre me encanta, me enche de felicidade: receber qualquer embrulho pelo correio. É assim desde que era menino. Por frações de segundos, mesmo que seja uma compra banal feita pela internet, fico imaginando que é um presente mandado de algum lugar extraordinário por algum ser desconhecido. Se for livro, melhor [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/contos-da-nova-cartilha/' addthis:title='Contos da Nova Cartilha '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/02/contos-da-nova-cartilha.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1202" title="contos da nova cartilha" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/02/contos-da-nova-cartilha-243x350.jpg" alt="" width="147" height="212" /></a>Tem um negócio besta que sempre me encanta, me enche de felicidade: receber qualquer embrulho pelo correio. É assim desde que era menino. Por frações de segundos, mesmo que seja uma compra banal feita pela internet, fico imaginando que é um presente mandado de algum lugar extraordinário por algum ser desconhecido. Se for livro, melhor ainda.</p><p>No final de dezembro passado, mais uma vez experimentei essa breve emoção quando chegou meu exemplar do <em>Contos da Nova Cartilha </em>comprado no sebo virtual. Abri o pacote de papel madeira com o cuidado de sempre, bem devagar para não correr o risco de rasgar nada. Uma coisa linda a capa, com uma foto preta-e-branca de crianças russas do final do século XIX, início do XX, por aí.</p><p>Mal comecei a folhear e estranhei a dedicatória: “Ao habitantes da querida cidade de São Luís de Paraitinga, a minha gratidão pela mais linda Festa do Divino, e os meus mais sinceros votos de uma rápida reconstrução”. Quem assina é Belkiss Rabello. A data é “janeiro/2010”.</p><p>Isso me deixou meio triste, meio arretado.</p><p>A ficha técnica no final do livro informa que Belkiss Jasinevicius Rabello foi quem cuidou da edição do livro. Consulto o Google e descubro que Belkiss é uma mulher. Não sei a idade, mas é tradutora, editora, professora. É fácil deduzir que a senhora ou senhorita, por conhecer a pequena São Luís do Paraitinga e a riqueza da sua cultura popular, comoveu-se com a enchente que, há um ano, destruiu boa parte do casario histórico da cidade do interior de São Paulo.</p><p>Ciente do valor da literatura e também da qualidade do trabalho que havia realizado, resolveu contribuir enviando o belo livro para alguma biblioteca de lá ou mesmo para a prefeitura local. Ela ofereceu o que tinha de melhor para ajudar a cidade. Mesmo assim, quem recebeu a doação era estúpido demais e teve a cara-de-pau de passar o livro adiante. Asssim, graças à burrice alheia, 11 meses depois da tragédia provocada pelas chuvas, encontrei o exemplar doado num sebo a um precinho bem em conta.</p><p>Perderam, e perderam muito, os moradores de São Luís do Paraitinga, principalmente suas crianças.</p><p><em>Contos da Nova Cartilha </em>é uma seleção de pequenas histórias e adivinhações publicadas nas cartilhas organizadas por Liev Tolstoi entre os anos de 1972 e 1875, a partir das histórias contadas e produzidas pelas crianças da escola criada pelo escritor na propriedade rural herdada de sua família, a Iasnaia Poliana.</p><p>Em sua escola, Tolstoi desafiava a lógica autoritária da sociedade russa, oferecendo para as crianças uma formação humanista, sempre em contato com a natureza e com as tradições culturais. Numa época em que os educadores castigavam o mau comportamento e desprezavam crianças com ritmos de aprendizados diferentes, o autor de <em>Guerra e Paz </em>as levava para aulas de campo e sustentava na liberdade seu método de ensino.</p><p>Tolstoi registrava as histórias contadas pelas crianças, que, por sua vez, refletiam o jeito de contar de seus pais e avós, todos camponeses. O material coletado nas aulas, somado a outras historinhas e contos escritos por ele mesmo, serviu de base para as cartilhas, que ajudaram a alfabetizar gerações de meninos e meninas da Rússia. Quando ele morreu, em 1910, 30 milhões de exemplares de cada cartilha já circulavam pelo país.</p><p>A partir da leitura dos contos, dá para perceber que o escritor e os professores que ele contratava e treinava, usavam as histórias para trabalhar com os alunos temas como técnicas agrícolas e de construção, física, matemática, realidade social, justiça e questões morais. Cada história era uma chave para abrir diferentes portas.</p><p>Muitos desses contos estão espalhados em muitas publicações diferentes, principalmente coletâneas para crianças. Jamais, encontrei uma delas publicadas com os devidos créditos para Liev Tolstoi ou sequer uma menção às suas lendárias cartilhas.</p><p>A edição coordenada por Belkiss Rabello contêm 161 desses contos curtos, além de um bocado de adivinhas. Ler esse livro é, ao mesmo tempo, viajar pelo sonho de um escritor que viveu para fazer do mundo um lugar melhor e pelo imaginário coletivo de gerações de russos.</p><p>Não vai dar para os moradores de São Luís Paraitinga realizarem essa viagem, pelo menos não com o exemplar que está sobre minha mesa da sala neste momento. Como tive a sorte de resgatá-lo num sebo, pretendo doá-lo para a biblioteca comunitária do Poço da Panela, que está sendo organizada por Samarone e por outras moradores do bairro que, às margens do Capibaribe, compartilham o sonho de Liev Tolstoi.</p><p><strong> </strong></p><p><strong> </strong></p><p><strong>Sobre o escritor</strong></p><p><strong><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/02/tolstoi.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-1203" title="Ïèñàòåëü Òîëñòîé" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/02/tolstoi-350x203.jpg" alt="" width="266" height="154" /></a><br /> </strong></p><p>Liev Nikolaievitch Tolstoi largou a Universidade de Kazan por não suportar os métodos e conteúdos do sistema educacional russo de meados do século XIX. Tentou ser um autodidata, mas as noitadas de Moscou e São Petersburgo atrapalharam um pouco esse plano. De volta à terras da família, criou a escola para filhos de camponeses e desenvolveu um método pedagógico que se tornou base para diversas outras experiências educacionais no ocidente.</p><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/contos-da-nova-cartilha/' addthis:title='Contos da Nova Cartilha '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/contos-da-nova-cartilha/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>9</slash:comments> </item> <item><title>Eugênio Oneguin</title><link>http://www.caotico.com.br/eugenio-oneguin/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/eugenio-oneguin/#comments</comments> <pubDate>Sat, 25 Sep 2010 01:14:52 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Loucos por livros]]></category> <category><![CDATA[literatura russa]]></category> <category><![CDATA[poesia russa]]></category> <category><![CDATA[poeta]]></category> <category><![CDATA[Pushkin]]></category> <category><![CDATA[tradução]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=958</guid> <description><![CDATA[por Samarone Lima, direto de Granada (Espanha) O mundo da literatura é repleto de belezas, descobertas, mas também de chavoes. Um deles se refere aos clássicos. Regra geral, é muito feio renegar a leitura de um grande. Pior: se ele for um autor russo. Após a terceira tentativa, acabo de deixar Eugênio Oneguin, do Alexander [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/eugenio-oneguin/' addthis:title='Eugênio Oneguin '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><strong>por Samarone Lima, direto de Granada (Espanha)</strong></p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/09/pushkin.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-959" title="pushkin" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/09/pushkin.jpg" alt="" width="118" height="180" /></a>O mundo da literatura é repleto de belezas, descobertas, mas também de chavoes. Um deles se refere aos clássicos. Regra geral, é muito feio renegar a leitura de um grande. Pior: se ele for um autor russo.</p><p>Após a terceira tentativa, acabo de deixar <em>Eugênio Oneguin</em>, do Alexander Pushkin (tradução de Dário Moreira Sales de Castro), no meio do caminho.</p><p>Trata-se de um &#8220;romance em verso&#8221;, como diz o tradutor. São mais de 390 estrofes, 5,523 versículos, espalhados por oito capítulos.  O tradutor não deixou por menos.</p><p>&#8220;É amplamente reconhecido que Pushkin, nascido em Moscou, em 1799, e falecido em duelo, em São  Petesburgo, en 1837, é o maior poeta da Rússia de todos os tempos&#8221;.</p><p>Dário Moreira esqueceu de dois nomes gigantescos, só para começar: Maiakovski e Annah Akhmatova.</p><p>O livro não me encantou, nao me despertou, não me levou a lugar algum. À página 85, escrevi: &#8220;Desisto!&#8221;. Todos os poemas que jà li do Pushkin, na Internet, eram muito bons. Mas uma coisa é escrever poemas, outra é um &#8220;romance em verso&#8221;. Há gigantes que erram na mão, e tradutores que também caem do cavalo.</p><p>Há tempos não vejo uma tradução com tantas &#8220;notas do tradutor&#8221;, atravancando a leitura todo o tempo. Somente no verso XVIII (página 34), temos um exagero. Em 14 versículos, são 7 notas. Algumas, por sinal, bem patéticas. O poema fala de &#8220;Limburgo&#8221;, o leitor sabe do que se trata (ou imagina, que é melhor), mas o tradutor precisa traduzir isso também. Vamos à pérola:</p><p>&#8220;O queijo chamado Limburgo, feito de leite de vaca, massa mole e costa lavada, que varia de amarelo-avermelhado a vermelho-tijolo e tem a forma de um paralelepípedo retangular&#8221;.</p><p>Queijo amarelo-avermelhado não seria o suficiente?</p><p>Mas a nota prossegue, e vira um cardápio.</p><p>&#8220;Forte no sabor e no odor, encorpado. É comum associar o nome Limburgo a queijo para se comer com cerveja. Limburgo era também uma antiga província dos países baixos, um ducado dividido entre a Holanda e a Bélgica&#8221;.</p><p>Há notas para tudo. O poeta fala em ananás, o reles abacaxi, temos que ver a nota. São nove linhas explicando o que é ananás. É difícil se concentrar num poema em que o tradutor dedica uma longa explicação sobre o que é o abacaxi.</p><p>O leitor (eu, no caso) vai tentando viajar com o Pushkin, mas falta algo. A cada página eu fracassava com o autor.</p><p>Aos poucos, o que vai ocupando o maior espaço é mesmo o tradutor. Sai da cozinha e vai para a sala. Quer sentar ao lado do autor, para dizer &#8220;trabalhei muito nesta tradução&#8221;.</p><p>A &#8220;introdução ao autor&#8221;, feita por Dário, tem 10 páginas. Ao citar a morte do poeta, após um duelo, diz que ele, ainda hoje, &#8220;ocupas lugar cimeiro na história literária e sentimental da vida russa&#8221;. Em seguida, mais duas páginas de &#8220;agradecimentos e reconhecimentos&#8221;. Novamente, diz que o poeta está no &#8220;lugar cimeiro em que deve estar&#8221;.</p><p>Às favas o politicamente correto na literatura.<em> Eugênio Oneguin</em>, de Pushkin, deixei no meio do caminho. Um dia, quem sabe, eu volte. Por enquanto, não.</p><p><strong>(O exemplar do livro <em>Eugênio Oneguin</em> foi enviado pela Editora Record para ser lido e comentado)</strong></p><p><strong><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Logo-Record-258x290.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-960" title="Logo-Record-258x290" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Logo-Record-258x290-133x150.jpg" alt="" width="47" height="52" /></a></strong></p><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/eugenio-oneguin/' addthis:title='Eugênio Oneguin '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/eugenio-oneguin/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>2</slash:comments> </item> <item><title>Trecho de Os demônios</title><link>http://www.caotico.com.br/trecho-de-os-demonios/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/trecho-de-os-demonios/#comments</comments> <pubDate>Wed, 22 Sep 2010 11:43:23 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Trechos arretados]]></category> <category><![CDATA[Dostoievski]]></category> <category><![CDATA[literatura russa]]></category> <category><![CDATA[Paulo Bezerra]]></category> <category><![CDATA[reunião]]></category> <category><![CDATA[tradução]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=953</guid> <description><![CDATA[- Senhores – súbito Virguinski levantou a voz -, se alguém deseja levantar algumas questão mais diretamente relacionada ao assunto ou tem algo a declarar, proponho que comece sem perda de tempo. - Eu me atrevo a fazer uma pergunta – pronunciou em tom brando o professor coxo, que até então permanecera calado e estava [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/trecho-de-os-demonios/' addthis:title='Trecho de Os demônios '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/09/dostoievski1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-955" title="dostoievski1" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/09/dostoievski1.jpg" alt="" width="130" height="250" /></a>- Senhores – súbito Virguinski levantou a voz -, se alguém deseja levantar algumas questão mais diretamente relacionada ao assunto ou tem algo a declarar, proponho que comece sem perda de tempo.</p><p>- Eu me atrevo a fazer uma pergunta – pronunciou em tom brando o professor coxo, que até então permanecera calado e estava sentado numa atitude particularmente cerimoniosa -, eu gostaria de saber se nós aqui, neste momento, estamos em alguma reunião ou somos apenas um aglomerado de simples mortais em visita? Pergunto mais por uma questão de ordem e para não ficar na ignorância.</p><p>A “astuta” pergunta produziu impressão; todos se entreolharam, cada um como que esperando a resposta do outro, e de repente todos voltaram os olhares para Vierkhoviénski e Stavróguin como se obedecessem a um comando.</p><p>- Proponho simplesmente que votemos a resposta à pergunta: “Somos uma reunião ou não?” – pronunciou <em>madame</em> Virguínskaia.</p><p>- Eu me incorporo inteiramente à proposta – respondeu Liputín – embora ela seja meio vaga.</p><p>- Eu também me incorporo, e eu – ouviram-se vozes.</p><p>- Eu também acho que realmente haverá mais ordem – reforçou Virguinski.</p><p>- Então vamos aos votos! – anunciou a anfitriã. – Liámchin, peço que se sente ao piano: de lá você pode anunciar seu voto quando começar a votação.</p><p>- De novo! – gritou Liámchin. – Eu já tamborilei bastante.</p><p>-Insisto no pedido, sente-se para tocar; não quer ser útil à causa?</p><p>- Eu lhe asseguro, Arina Prókhorovna, que ninguém está à escuta das nossas conversas. Isso é só fantasia sua. Além do mais, as janelas são altas, e quem iria compreender alguma coisa mesmo que estivesse à escuta?</p><p>- Mas nós também não estamos compreendendo do que se trata – resmungou uma voz.</p><p>-E eu lhes digo que a precaução é sempre indispensável. É para a eventualidade de haver espiões – explicava a Vierkhoviénski. Deixem que escutem da rua que estamos comemorando o dia do santo e com música.</p><p>- Ah, diabos! Xingou Liámchin, sentou-se ao piano e começou a martelar uma valsa, batendo gratuitamnte quase com os punhos no teclado.</p><p>- Uma proposta: quem desejar que haja reunião que levante o braço direito – propôs <em>madame </em>Virguínskaia.</p><p>Uns levantaram o braço, outros não. Houve alguns que levantaram e baixaram. Baixaram e tornaram a levantar.</p><p>- Arre, diabos! Não estou entendendo nada – gritou um oficial.</p><p>- Nem eu – gritou outro.</p><p>- Não, eu estou entendendo – gritou um terceiro -, se é <em>sim</em>, então levante o braço.</p><p>- E o que significa <em>sim</em>?</p><p>- Significa reunião.</p><p>- Não, não é reunião.</p><p>- Eu votei pela reunião, gritou o ginasiano, dirigindo-se a <em>madame </em>Virguínskaia.</p><p>- Então por que não levantou o braço?</p><p>- Fiquei esperando pela senhora, e como a senhora não levantou eu também não levantei.</p><p>- Que tolice, fiz assim porque fui eu quem propus, por isso não levantei o braço. Senhores, torno a propor, agora o contrário: quem quiser reunião permaneça como está, sem levantar o braço, e quem não quiser que levante o braço direito.</p><p>- Quem não quiser? – tornou a perguntar o ginasiano.</p><p>- O que é isso, está fazendo de propósito? – gritou irada <em>madame </em>Virguínskaia.</p><p>Não, com licença, quem quiser ou quem não quiser, porque isso precisa ser mais bem definido – ouviram-se umas duas ou três vozes.</p><p>- Quem não quer, <em>não</em> quer.</p><p>- Sim, mas o que é para fazer, levantar ou não levantar se <em>não </em>quiser? – gritou o oficial.</p><p>- Puxa, ainda não estamos acostumados à constituição!  &#8211; observou o major.</p><p>- Senhor Liámchin, por favor, do jeito que o senhor está batendo ninguém consegue distinguir nada – observou o professor coxo.</p><p>- Vamos, Arina Prókhorovna, palavra que ninguém está nos escutando – levantou-se Liámchin de um salto. – E, ademais, não quero tocar! Vim aqui em visita e não para ficar martelando ao piano!</p><p>- Senhores, propôs Virguinski, respondam todos numa só voz: somos ou não somos uma reunião?</p><p>- Reunião, reunião! – ouviu-se de todos os lados.</p><p>- Sendo assim, não há por que votar; chega. Estão satisfeitos, senhores, ainda é preciso votar?</p><p>- Não, não, todo mundo entendeu!</p><p>- Será que alguém não quer a reunião?</p><p>- Não, não, todos queremos.</p><p>- Sim, mas o que é reunião? – gritou uma voz. Ninguém lhe respondeu.</p><p><strong>Parece a transcrição de uma sessão do Conselho Deliberativo do Santa Cruz, mas é um trecho do capítulo &#8220;Com os nossos&#8221;, integrante da segunda parte do romance (págs. 387 a 389, da edição da Editora 34)</strong></p><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/trecho-de-os-demonios/' addthis:title='Trecho de Os demônios '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/trecho-de-os-demonios/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>3</slash:comments> </item> <item><title>Os demônios</title><link>http://www.caotico.com.br/os-demonios/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/os-demonios/#comments</comments> <pubDate>Tue, 21 Sep 2010 22:16:43 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[czar]]></category> <category><![CDATA[czarismo]]></category> <category><![CDATA[Dostoievski]]></category> <category><![CDATA[fundamentalistas]]></category> <category><![CDATA[literatura russa]]></category> <category><![CDATA[nazismo]]></category> <category><![CDATA[niilismo]]></category> <category><![CDATA[Paulo Bezerra]]></category> <category><![CDATA[Rússia]]></category> <category><![CDATA[século XIX]]></category> <category><![CDATA[stalinismo]]></category> <category><![CDATA[totalitarismo]]></category> <category><![CDATA[tradução]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=946</guid> <description><![CDATA[Estou ficando íntimo de Dostoievski. Viciado também. O problema é que tamanha intimidade implica em mais responsabilidade: sinto o peso de conseguir expressar o quanto eu gosto do que o russo deixou escrito e, o mais importante, o porquê eu gosto tanto dos seus romances. No caso de Os demônios, há mais ou menos quatro [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/os-demonios/' addthis:title='Os demônios '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/09/os-demonios-capa.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-947" title="os-demonios-capa" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/09/os-demonios-capa-262x350.jpg" alt="" width="134" height="178" /></a>Estou ficando íntimo de <a href="http://www.caotico.com.br/recordacoes-da-casa-dos-mortos/">Dostoievski</a>. Viciado também. O problema é que tamanha intimidade implica em mais responsabilidade: sinto o peso de conseguir expressar o quanto eu gosto do que o russo deixou escrito e, o mais importante, o porquê eu gosto tanto dos seus romances.</p><p>No caso de <em>Os demônios, </em>há mais ou menos quatro anos planejava lê-lo, mas “os acontecimentos se precipitaram” (perdão, mas estava querendo muito usar esse clichê)<em> </em>quando resolvi embarcar junto com Samarone num projeto que mistura jornalismo e literatura. Esta decisão tornou imprescindível o mergulho na leitura do livro que, durante décadas, ficou conhecido no Brasil como <em>Os possessos, </em>por causa das traduções que eram feitas a partir de edições francesas e não diretamente do original em russo.</p><p>Como sempre, a experiência de ler mais um Dostoievski foi arretada, apesar do início meio travado, pois a primeira das três partes ele apresenta o perfil de alguns personagens, dá algumas pistas sobre o contexto social da Rússia na segunda metade do século XIX e retrata o ambiente rural de um lugarzinho chamado Skvoriéchniki.</p><p>A sensação de tédio que toma conta da leitura parece ser proposital, pois não creio que exista algo casual em Dostoievski. Com o cuidado de um pintor de pinceladas lentas e cautelosas, ele vai retratando o lugar pequeno, os intelectuais da província, vidinha sem novidades, gente que vem do exterior, blá-blá-blá sem fim de saraus que não levam a lugar nenhum. Rotina.</p><p>É preciso ter paciência. Acredite: é uma beleza a arquitetura desse romance e o leitor paciente será recompensado lgo depois.</p><p>A primeira parte, aliás, me fez lembrar um texto menor que li do russo, uma novela chamada <em>A aldeia de Stiepanchikov e seus habitantes, </em>escrita 12 anos antes de <em>Os demônios </em>e cujos elementos parecem ter sido usados como matriz para compor o cenário do romance, tanto que um dos personagens principais se chama Stiepan e é um sujeito meio pateta, que posa de grande intelectual, mas que nunca produziu nada de interessante. Um tantinho assim parecido com o personagem principal da aldeia de Stiepanchikov.</p><p>Dostoievski não oferece nada de graça para o leitor. Dois parágrafos acima usei a expressão “dá algumas pistas”, um jeito bom para definir o que ele faz o tempo todo ao longo do romance. Os confusos e incompletos diálogos da primeira parte contêm indícios do papel que cada personagem irá representar no desenrolar da trama.</p><p>A prosa muda de rumo e velocidade a partir do início da segunda parte. Aos poucos, a confusão de falas, ataques histéricos e a multidão de personagens começam a fazer sentido e o leitor vai montando o quebra-cabeça. Quem já leu Nélson Rodrigues vai identificar fácil fácil o que impactou e influenciou o nosso melhor reacionário.</p><p>A história contada pelo barbudo Fiodor com seu arsenal de recursos técnicos, seu estoque de imaginação e sua genialidade expõe os grupelhos radicais e de escassa ideologia que se espalharam pela Rússia nas décadas finais da monarquia czarista. Em alguns momentos, como no diálogo que transcrevi nos <a href="http://www.caotico.com.br/trechos-arretados/">Trechos Arretados</a> ele também recorre ao humor, elemento raro em sua obra.</p><p>Mesmo sem perder o foco na história e da sociologia do seu tempo, Dostoievski desce à esfera dos indivíduos, vai direto no coração, na alma das pessoas que se mobilizavam para mudar a Rússia, o mundo, alguns por convicção, outros por idealismo, outros mais por revolta. E muitos por ambição, mesquinharia ou sede de poder.</p><p>Seus personagens revelam as extremidades do idealismo. E como um sujeito pode manipular os idealistas, os convictos, os ambiciosos e os revoltados para que se cometa um crime em nome de uma etérea “causa comum” que nada tem de causa e pouco tem de comum.</p><p>Não falta sangue em <em>Os demônios</em>. Dostoievski não economiza realismo quando o assunto é assassinato, ele não poupa personagens nem leitores do sofrimento.</p><p>Sobre <em>Os</em> <em>demônios </em>as resenhas e textos críticos – como o ótimo texto do ótimo tradutor Paulo Bezerra, no final do volume &#8211; costumam dizer que o livro antecipou as ideologias totalitárias que justificaram os crimes de Stálin, de Hitler, dos generais latino-americanos, de Bush, de Israel e dos fundamentalistas islâmicos. É verdade, mas o barbudo faz isso com enorme talento, identificando na aldeia, aquilo que é universal. Ou melhor, o que ainda viria ser universal.</p><p><strong>Sobre o tradutor</strong></p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/09/PauloBezerra2.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-948" title="PauloBezerra2" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/09/PauloBezerra2-233x350.jpg" alt="" width="165" height="248" /></a></p><p>Paulo Bezerra é paraibano, mas especializou-se em tradução na Universidade Lomonossov, em Moscou. Hoje é professor de literatura da Universidade Federal Fluminense, no Rio. A tradução de <em>Os demônios</em> lhe rendeu um Prêmio Jabuti, em 2005. Antes, já havia sido responsável pela primeira tradução direta do russo para o português “brasileiro” de <a href="http://www.caotico.com.br/crime-e-castigo-do-blog-de-milton-ribeiro/"><em>Crime e Castigo</em></a>. Spaciba, Paulo.</p><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/os-demonios/' addthis:title='Os demônios '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/os-demonios/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>6</slash:comments> </item> <item><title>Trechos de contos de Anton Tchekhov</title><link>http://www.caotico.com.br/trechos-de-contos-de-anton-tchekhov/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/trechos-de-contos-de-anton-tchekhov/#comments</comments> <pubDate>Sun, 20 Dec 2009 12:59:17 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Trechos arretados]]></category> <category><![CDATA[Contos]]></category> <category><![CDATA[literatura russa]]></category> <category><![CDATA[Tchekhov]]></category> <category><![CDATA[trechos de Tchekhov]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=559</guid> <description><![CDATA[&#8220;- Não é grande vantagem ser amado: as moças foram criadas exatamente para amar pessoas como nós. Mas algum dos senhores já foi odiado, odiado com ardor, furiosamente? Algum dos senhores já observou os deleites do ódio? Hein? Não houve resposta. - Nenhum dos senhores? &#8211; perguntou a voz grave do oficial superior. &#8211; Pois [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/trechos-de-contos-de-anton-tchekhov/' addthis:title='Trechos de contos de Anton Tchekhov '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright size-full wp-image-560" title="damatchekhov" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2009/12/damatchekhov.jpg" alt="damatchekhov" width="72" height="119" /></p><p>&#8220;- Não é grande vantagem ser amado: as moças foram criadas exatamente para amar pessoas como nós. Mas algum dos senhores já foi odiado, odiado com ardor, furiosamente? Algum dos senhores já observou os deleites do ódio? Hein?</p><p>Não houve resposta.</p><p>- Nenhum dos senhores? &#8211; perguntou a voz grave do oficial superior. &#8211; Pois eu fui odiado, fui odiado por uma moça bem bonitinha, e em mim mesmo pude estudar os sintomas do primeiro ódio. O primeiro, senhores, porque aquilo foi uma coisa exatamente oposta ao primeiro amor&#8221;.</p><p><strong>Trecho do conto <em>Zinotchka</em>, publicado em agosto de 1887</strong></p><p style="text-align: center;">*****</p><p style="text-align: center;"><p style="text-align: left;">&#8220;Por que ela o amava daquela maneira? Ele sempre parecera às mulheres ser outra pessoa, diferente do que era na realidade, e elas amavam não a ele, mas alguém que sua imaginação havia criado, alguém que elas procuravam ansiosamente em suas vidas. E, mais tarde, quando percebiam seu engano, ainda continuavam a amá-lo. E nenhuma fora feliz com ele. O tempo passava, ele conhecia outra mulher, começava uma nova relação, depois se afastava, mas não amou nem uma vez; chame aquilo como se quiser, apenas não era amor. E somente agora, quando sua cabeça já estava ficando grisalha, ele começou a amar de verdade, como deveria &#8211; e pela primeira vez em sua vida.</p><p style="text-align: left;">Anna Sergueievna e Gurov amavam-se como duas pessoas muito íntimas, como marido e mulher, como ternos amigos; parecia-lhes que o próprio destino escolhera um para o outro, e não entendiam por que ele tinha uma esposa e ela um marido; era como se eles fossem duas aves migratórias, mcaho e fêmea, que foram capturadas e obrigadas a viver em gaiolas separadas&#8221;.</p><p style="text-align: left;"><strong>Trecho do conto <em>A dama do cahorrinho</em>, publicado em dezembro de 1899</strong></p><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/trechos-de-contos-de-anton-tchekhov/' addthis:title='Trechos de contos de Anton Tchekhov '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/trechos-de-contos-de-anton-tchekhov/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>1</slash:comments> </item> <item><title>Contos de Tchekhov</title><link>http://www.caotico.com.br/contos-de-tchekhov/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/contos-de-tchekhov/#comments</comments> <pubDate>Thu, 10 Dec 2009 20:10:01 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[A dama do cachorrinho]]></category> <category><![CDATA[Contos]]></category> <category><![CDATA[czarismo]]></category> <category><![CDATA[literatura russa]]></category> <category><![CDATA[Rússia pré-revolucionária]]></category> <category><![CDATA[Tchekhov]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=535</guid> <description><![CDATA[Nos últimos dias, o tempo da leitura foi arrancado na marra. Duas páginas no banheiro, mais duas enquanto aguardava a milésima reunião do ano, dois parágrafos na cama antes de arriar no sono, outra página no carro da prefeitura, correndo o risco de descolar a retina. E assim foi, aos trancos e barrancos, da pior [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/contos-de-tchekhov/' addthis:title='Contos de Tchekhov '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright size-full wp-image-536" title="dama_do_cachorrinho" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2009/12/dama_do_cachorrinho.jpg" alt="dama_do_cachorrinho" width="101" height="167" />Nos últimos dias, o tempo da leitura foi arrancado na marra. Duas páginas no banheiro, mais duas enquanto aguardava a milésima reunião do ano, dois parágrafos na cama antes de arriar no sono, outra página no carro da prefeitura, correndo o risco de descolar a retina. E assim foi, aos trancos e barrancos, da pior maneira possível li 12 contos de um dos melhores escritores da história.</p><p>Há tempos que eu estava me devendo ler alguma coisa de Anton Tchekhov (se ainda lembro das aulas de russo com a professora Ewa, a pronúncia é mais ou menos assim: txerróf). Antes de chegar ao último conto, estava com uma inveja danada de quem leu 22 livros dele, como o blogueiro gaúcho <a href="http://miltonribeiro.opsblog.org/2008/08/21/anotacoes-pessoais-sobre-anton-tchekhov-e-e-mail-recebido/">Milton Ribeiro</a>.</p><p>Os contos do russo foram escritos no final do século XIX, poucos no início do século XX, mas poderiam ter sido publicados na semana passada aqui no Brasil, no Sri Lanka ou qualquer outra parte do mundo. A prosa de Tchekhov é atualíssima. Esses contos jamais vão caducar, pelo menos não enquanto os humanos se apaixonarem, sofrerem por do amor, sonharem, alimentarem esperanças de mudar a vida.</p><p>O pessoal que estuda história e crítica literária diz que ele mudou os rumos da literatura porque tratou com técnica e poesia o cotidiano do homem comum, gente como o médico de província, o órfão explorado, a mocinha do interior que não aceita o casamento arranjado.</p><p>É verdade isso que dizem os especialistas. Enquanto avançava na leitura, senti que já havia encontrado Tchekhov em algum lugar, já o conhecia de vista. Há muito de Tchekhov nas crônicas de Rubem Braga. Também há Tchekhov no romance de <a href="http://www.caotico.com.br/a-tregua/">Mário Benedetti</a>. Encontrei Tchekhov em <a href="http://www.caotico.com.br/dublinenses/">Joyce</a>, que começou a escrever suas coisinhas quando o russo já era popular que só a gota-serena.</p><p>Há várias coletâneas de histórias espalhadas por aí, de diferentes editoras. O que li foi <em>A dama do cachorrinho e outras histórias</em>, da L&amp;PM, presente de aniversário da minha filha Júlia. Nos contos desse livros, a rígida hierarquia do czarismo, a aristocracia decadente, a miséria no campo, a neve, tudo isso é apenas pano de fundo para uma narrativa delicada, sutil, espelho do respeito e do amor do autor por quem sofre, pelos fracos, pelos explorados. O que importa são os personagens, o ser humano.</p><p>Mas há sarcasmo também. No conto “A irrequieta”, a mocinha recém-casada com o jovem e tímido médico é totalmente deslumbrada com o mundo das artes, vive em torno de pintores, atores, escultores, escritores. Não pinta um borrão de caneta, não escreve uma vírgula, mas é uma artista. Ao seu modo, com sutileza e sem julgamentos morais, o autor é implacável com a moça.</p><p>Esse conto é um bom exemplo da atualidade do olhar de Tchekhov sobre a sociedade de sua época. Se trocarmos o Volga pelo Capibaribe, a neve pelo calor, os casacos de lã pela saias indianas compradas no shopping, identificamos a “irrequieta” em dúzias de babaquinhas que vivem em torno de bandas de música, de cineastas, de produtores. Gente que gosta de arte e de cultura, desde que essa cultura seja produzida por gente branca e que o povo fique bem longe, só aplaudindo. Ah, se eu tivesse o talento de Tchekhov&#8230;</p><p>O conto que dá título ao livro faz juz à fama. É a perfeição em forma de narrativa curta, uma beleza. Os personagens Gurov e Anna se tornam mais palpáveis, mais reais a cada parágrafo. Senti a ansiedade dos amantes, a necessidade de ver o outro, a dor da paixão clandestina, a incerteza. O final sem fechamento, sem conclusão, é de lascar de tão bom.</p><p>Alguém nos comentários sobre o livro <em><a href="http://www.caotico.com.br/dois-irmaos/">Dois Irmãos</a>, </em>acho que foi Renatinha Reynaldo, disse que acabou a leitura e se sentiu feliz. Talvez se eu tivesse lido esse livro de uma tacada só, sem tantas interrupções e aperreios, meu sentimento também fosse igual. Mesmo assim, a sensação no final de vários contos (principalmente “A corista”, “A irrequieta”, “A dama do cachorrinho” e a “A noiva”) é de que alguém tinha acabado de me falar algo importante, algo capaz de explicar ou mudar muita coisa na vida.</p><p><img class="alignnone size-medium wp-image-537" title="chekhov" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2009/12/chekhov-282x350.jpg" alt="chekhov" width="185" height="230" /> <img class="alignnone size-medium wp-image-538" title="6259 russia taganrog the house of chekhov thumbnails" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2009/12/6259-russia-taganrog-the-house-of-chekhov-thumbnails-350x262.jpg" alt="6259 russia taganrog the house of chekhov thumbnails" width="307" height="230" /></p><p><strong>Sobre o escritor</strong></p><p>Anton Tchekhov viveu apenas 44 anos, mas até hoje faz barulho na alma de quem lê seus escritos. Seus contos revelam sensibilidade e que ele tinha um lado bem definido na vida: o lado dos mais fracos. Gostei tanto do que li, que procurei imagens da sua cidade. Encontrei a foto da casa dele, na cidade que nasceu,  Taganrog, no sul da Rússia, à beira do mar de Azov.</p><ul><li><a href="http://panorama-direitoliteratura.blogspot.com/2007/12/anton-tchekhov-dama-do-cachorrinho.html"><strong>Clique aqui para ler uma ótima resenha sobre a <em>A dama do cachorrinho </em>no site Panorama</strong></a></li><li><strong><a href="http://miltonribeiro.opsblog.org/2008/08/21/anotacoes-pessoais-sobre-anton-tchekhov-e-e-mail-recebido/">Clique aqui para ler uma declaração de amor arretada à obra de Tchekhov, por Milton Ribeiro</a><br /> </strong></li></ul><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/contos-de-tchekhov/' addthis:title='Contos de Tchekhov '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/contos-de-tchekhov/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>7</slash:comments> </item> <item><title>Recordações da Casa dos Mortos</title><link>http://www.caotico.com.br/recordacoes-da-casa-dos-mortos/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/recordacoes-da-casa-dos-mortos/#comments</comments> <pubDate>Mon, 10 Aug 2009 03:06:10 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[czar]]></category> <category><![CDATA[Dostoievski]]></category> <category><![CDATA[literatura russa]]></category> <category><![CDATA[presídio]]></category> <category><![CDATA[Rússia]]></category> <category><![CDATA[Sibéria]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=264</guid> <description><![CDATA[Depois de ler Crime e Castigo, tomei coragem para mergulhar em outro Dostoievski e escolhi Recordações da Casa dos Mortos, que li no final de 2007. Sei disso porque tenho a mania besta de, terminado um livro, anotar nas páginas iniciais o mês e o ano em que cheguei ao ponto final. Sei que tanto o título [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/recordacoes-da-casa-dos-mortos/' addthis:title='Recordações da Casa dos Mortos '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright size-medium wp-image-265" title="rec1" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2009/08/rec1-241x350.jpg" alt="rec1" width="124" height="181" />Depois de ler <em>Crime e Castigo</em>, tomei coragem para mergulhar em outro Dostoievski e escolhi <em>Recordações da Casa dos Mortos</em>, que li no final de 2007. Sei disso porque tenho a mania besta de, terminado um livro, anotar nas páginas iniciais o mês e o ano em que cheguei ao ponto final.</p><p>Sei que tanto o título quanto o tema podem assustar, mas foi um dos livros mais saborosos que li nos últimos anos. Resumindo em duas linhas, diria que <em>Recordações&#8230;</em><em> </em>é uma ficção construída a partir da experiência real que o barbudo Dostoievski viveu durante os anos em que cumpriu pena num presídio na Sibéria.</p><p>Nesse livro, que originalmente foi publicado em capítulos pelo jornal de Mikhail, irmão do escritor, a reflexão profunda que marca <em>Crime e Castigo</em> já está presente, porém a narrativa é bem mais solta, seus capítulos são quase crônicas do cotidiano da prisão e nem sequer estão alinhavados em ordem cronológica. É uma boa pedida para quem ainda não leu os outros livros mais complicados do russo.</p><p>O mais interessante de <em>Recordações da Casa dos Mortos</em><em> </em>é que o relato do dia-a-dia de centenas de homens num presídio gelado e distante de tudo não se resume à narração dos fatos e descrições dos ambientes como num diário, por exemplo. Dostoievski não era escritor para fazer um relatozinho qualquer e ficar por isso mesmo. Ninguém exagera quando diz que o cara era um gênio.</p><p>Na cadeia, no frio, no meio de um monte de gente barra-pesada, na precariedade e sob trabalhos pesados, o sujeito tem uma fé enorme no ser humano, na diversidade e na capacidade da homem. Dostoievski gostava de gente, ele acreditava piamente que as pessoas podem melhorar, se superar, aprender. Essa sua crença está presente na narração de cada situação e de cada presidiário com que seu personagem e alter-ego Alexander Petrovich Goriantchikov conviveu no desterro siberiano.</p><p>Por isso é que não dá para simplificar em duas linhas. Esse livro se passa num presídio, mas na verdade é um livro sobre fraternidade, solidariedade e esperança.</p><p>Não pretendo me especializar em Dostoievski, mas a literatura desse sujeito me emociona tanto que já incluí <em>Os Demônios</em> e <em>Irmãos Karamazov</em> na minha lista de prioridades a serem compradas no sebo.</p><p><strong>Sobre o escritor</strong></p><div id="attachment_268" class="wp-caption alignnone" style="width: 169px"><img class="size-full wp-image-268" title="dostoievski" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2009/08/dostoievski.jpg" alt="dostoievski" width="159" height="200" /><p class="wp-caption-text">Dostoievski: pensador e gênio da prosa</p></div><p>Fiódor Mikhailovitch Dostoievski nasceu em 1821, em Moscou, e sofreu muito durante a vida toda. Sua mãe morreu quando ele ainda era criança, seu pai era tão cruel que ele rezava pedindo para ficar órfão, era epiléptico, fracassou redondamente no primeiro casamento, foi preso, viveu na miséria, gastava o pouco que ganhava em jogo. Quando começou a fazer sucesso, morreu. Se fosse pernambucano, com certeza seria torcedor do meu Santa Cruz.</p><ul><li><a href="http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2241">Resenha publicada no site Digestivo Cultural</a></li><li><a href="http://recantodasletras.uol.com.br/ensaios/971369">Artigo publicado no site Recanto das Letras</a></li><li><a href="http://www.sociedadedigital.com.br/artigo.php?artigo=225&amp;item=3">Pequena Biografia de Dostoievski publicada no site Sociedade Digital</a></li></ul><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/recordacoes-da-casa-dos-mortos/' addthis:title='Recordações da Casa dos Mortos '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/recordacoes-da-casa-dos-mortos/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>5</slash:comments> </item> </channel> </rss>
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