<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?> <rss version="2.0" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/" xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/" xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/" ><channel><title>Caótico &#187; memória</title> <atom:link href="http://www.caotico.com.br/tags/memoria/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" /><link>http://www.caotico.com.br</link> <description>Espaço de leituras,  histórias &#38; especulações &#124; Por Inácio França</description> <lastBuildDate>Tue, 07 Feb 2012 19:41:39 +0000</lastBuildDate> <language>en</language> <sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod> <sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency> <xhtml:meta xmlns:xhtml="http://www.w3.org/1999/xhtml" name="robots" content="noindex" /> <item><title>Como se fosse ontem (três)</title><link>http://www.caotico.com.br/como-se-fosse-ontem-iii/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/como-se-fosse-ontem-iii/#comments</comments> <pubDate>Mon, 25 Apr 2011 00:50:01 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[Diário Popular]]></category> <category><![CDATA[imprensa]]></category> <category><![CDATA[jornalismo]]></category> <category><![CDATA[memória]]></category> <category><![CDATA[Miranda Jordão]]></category> <category><![CDATA[publicidade]]></category> <category><![CDATA[reportagem policial]]></category> <category><![CDATA[São Paulo]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1327</guid> <description><![CDATA[Os repórteres de polícia do Dipo, o Diário Popular, reviravam São Paulo para encontrar uma boa história que valesse matéria de página inteira. 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Depois de alguns meses, já tinha me acostumado a ler as minúcias dos insípidos boletins de ocorrência, das pesadas pastas de inquérito ou a bater longos papos com tiras e pê-emes procurando um aspecto diferente em qualquer fato besta.</p><p>Muitas vezes voltava de mãos abanando depois de atravessar São Paulo de olho numa história que, de longe, parecia interessante.</p><p>Antes de merecer acompanhar diariamente o filé-mignon da cobertura policial, a Divisão de Homicídios, saía para tirar leite de pedra em delegacias, batalhões da PM ou postos do IML. Muitas vezes, jorravam litros de boas matérias nessa peregrinação. Não foi o que aconteceu naquela tarde ensolarada no Itaim-Bibi.</p><p>O crime havia acontecido de madrugada: uma quadrilha encostou um carro na garagem de um prédio da avenida Cidade Jardim, lugar onde o metro quadrado vale mais do que ouro. Os vigias foram rendidos e os ladrões depenaram uma das maiores e mais importantes agências de publicidade do País.</p><p>Um crime estranho, diferente e, por isso mesmo, notícia na certa. Apesar disso, nenhum jornal ou TV se interessou pelo assunto. Formalmente, a explicação era que o delegado do caso não abriu a boca e o boletim de ocorrência era suscinto, não informava quase nada, mencionando apenas o roubo de computadores, aparelhos de TV, videocassetes e só. Nada de mais.</p><p>Na verdade, nenhum jornalista precisa ser chefe-de-reportagem para saber que agências de publicidade convencem os anunciantes a comprarem por pequenas fortunas uma página inteira de anúncio e não apenas um rodapé que vale merreca. Por isso, ninguém se mexeu.</p><p>O público nunca ficaria sabendo da invasão à badaladíssima não fosse o Diário Popular.</p><p>Sobrou para mim a tarefa de fuçar a história, já no início da tarde, o que não me animou muito, a bem da verdade. Apurar matérias policiais em bairros de classe média ou de gente rica é uma das coisas mais chatas que existem. Se essa turma já é arrogante e presunçosa para fazer compras ou estacionar um carro, imagine quando está acuada.</p><p>E lá fui eu, acompanhado do brioso José Monteiro, fotógrafo baixinho, bigodudo e disposto. Na delegacia, a confirmação: o registro da ocorrência era franciscano, enxuto de dar dó. Dali não dava para fazer matéria nenhuma, no máximo uma notinha para o colunão, onde empilhávamos o que não valia muito aperreio.</p><p>A próxima parada era inevitável: a porra da agência, tão suntuosa que ocupava o prédio inteiro, com as três letras prateadas do seu nome fantasia pregadas na fachada, cada letra da altura de um jogador de basquete. Já cheguei na recepção intimidado. Me apresentei, disse porque estava ali, pedi para falar com alguém que pudesse falar.</p><p>Sou capaz de apostar que se, Monteiro não estivesse ao lado com a câmara a postos, o segurança tinha me degolado e escondido o corpo na sala do diretor de criação.</p><p>Não apareceu ninguém que pudesse falar. Aliás, não apareceu ninguém. Por uns 40 minutos, ficamos plantados na recepção, vigiados. Apenas esperavam que fôssemos embora para ficar fazendo piada quando déssemos as costas. Então, resolvi ficar, sentado no sofá, conversando baixinho com o fotógrafo, olhando para os elevadores, para o teto, para o tapete, para a porta de vidro, menos para a cara dos vigias. De pirraça, de vez em quando levantava e perguntava se alguém iria descer para falar conosco ou se iríamos subir para entrevistar esse alguém. As respostas eram monossílabos.</p><p>Creio que ficamos uma hora por ali como duas estátuas inquietas. Eu era um repórter muito chato.</p><p>Até que desceu um sujeito, de gravata colorida sem paletó, todo cheio de bossa. Bem bossal, abri um sorriso e fiz as perguntas mais inconvenientes que poderiam ser feitas. Roubaram quanto? Levaram os segredos de alguma campanha publicitária milionária? Era verdade que havia manchas de sangue no terceiro andar? Coisas assim.</p><p>O estagiário de gravata – duvido que um gerente ou diretor iria descer para dirigir a palavra ra um repórter mal vestido – disse para eu não me preocupar com nada daquilo. Lembro de quase tudo que o escrotinho falou: “O jornal em que você trabalha não vai publicar uma linha sobre esse assunto. Já conversamos com o diretor-comercial do seu jornal, o senhor fulano de tal, e já está certo. Não perca seu tempo”. E ainda me entregou um cartão de visitas com a logomarca do Diário Popular e o nome do tal diretor, para deixar bem claro que resolveram as coisas por cima, vários andares acima de um repórter e um fotógrafo.</p><p>Humilhados e ofendidos, entramos no carro de reportagem. Na redação, com o rabo entre as pernas, contei tudo ao editor. Paulo escutou, escutou e arriscou um palpite: “Vai dar merda”.</p><p>E deu.</p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/04/diariopopular.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1329" title="diariopopular" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/04/diariopopular-237x350.jpg" alt="" width="163" height="241" /></a>No aquário, a sala de paredes de vidro onde faziam o fechamento do jornal, Miranda Jordão escutou o editor repetir minha história e leu o cartão de visitas em suas mãos. Vi quando Paulo levantou o fone do gancho e discou. O telefone interno da editoria tocou na mesma hora. Atendi sabendo que era para mim: “Venha cá. Miranda quer falar com você”.</p><p>Por pouco não caguei.</p><p>Fui lá e repeti tudo, ainda invoquei Monteiro como testemunha ocular e auricular dos fatos. Miranda ficou puto. Muito puto. Com os outros, ainda bem.</p><p>Pegou o telefone e pediu que o tal diretor-comercial desse um pulinho na redação. O sujeito não demorou. Chegou com a cara mais satisfeita do mundo e foi logo explicando porque a matéria do roubo da agência não poderia ser publicada, nunca, jamais. Não conseguiu completar uma frase sequer.</p><p>Ouviu alguns “filho-da-puta”, “seu merda”, e a sentença: “Quem vende jornal é a redação. Quem vende 200 mil jornais sou eu, é a redação. Não é a porra de uma agência, não. Quem paga os salários de todo mundo aqui é a redação, não é anunciante porra nenhuma”.</p><p>E eu ali, escutando tudo. Não sei qual a foi a atitude do tal diretor depois de tudo aquilo, mas, na hora, ele ficou calado calado.</p><p>A essa altura, pensava que Miranda tinha esquecido da minha modesta pessoa. Nada disso.</p><p>- Inácio!</p><p>- Diga&#8230;</p><p>- Vá lá e escreva tudo o que você quiser, o que vier na cabeça. Escreva que foram roubadas campanhas milionárias dos clientes X, Y e Z. Escreva tudo o que não está no boletim de ocorrência, tudo o que não lhe disseram. E escreva muito: vai ter chamada na primeira página.</p><p>Foi a primeira vez na vida que escrevi um texto de ficção.</p><ul><li><a href="http://www.caotico.com.br/como-se-fosse-ontem/"><strong>Clique aqui para ler Como se fosse ontem&#8230;</strong></a></li><li><a href="http://www.caotico.com.br/como-se-fosse-ontem-ii/"><strong>Clique aqui para ler Como se fosse ontem&#8230; (II)</strong></a></li></ul><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/como-se-fosse-ontem-iii/' addthis:title='Como se fosse ontem (três) '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/como-se-fosse-ontem-iii/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>7</slash:comments> </item> <item><title>O caso eu conto como o caso foi</title><link>http://www.caotico.com.br/o-caso-eu-conto-como-o-caso-foi/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/o-caso-eu-conto-como-o-caso-foi/#comments</comments> <pubDate>Sat, 28 Aug 2010 13:07:48 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Loucos por livros]]></category> <category><![CDATA[comunista]]></category> <category><![CDATA[Direito]]></category> <category><![CDATA[ditadura militar]]></category> <category><![CDATA[golpe de 1964]]></category> <category><![CDATA[Luís Carlos Prestes]]></category> <category><![CDATA[memória]]></category> <category><![CDATA[Paulo Cavalcanti]]></category> <category><![CDATA[PCB]]></category> <category><![CDATA[política]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=887</guid> <description><![CDATA[por Arsênio Meira Júnior Passando os olhos nas minhas queridas estantes, deparei-me com dois exemplares antigos: O caso eu conto como o caso foi – memórias políticas, 1o. volume de memórias, e O caso eu conto como o caso foi, 2o. volume de memórias, do escritor, advogado e jornalista Paulo Cavalcanti, que falecei em maio [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/o-caso-eu-conto-como-o-caso-foi/' addthis:title='O caso eu conto como o caso foi '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><strong>por Arsênio Meira Júnior</strong></p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/08/ocasoeuconto1.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-892" title="ocasoeuconto" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/08/ocasoeuconto1.jpg" alt="" width="84" height="118" /></a>Passando os olhos nas minhas queridas estantes, deparei-me com dois exemplares antigos: <em>O caso eu conto como o caso foi – memórias políticas</em>, 1<sup>o</sup>. volume de memórias, e <em>O caso eu conto como o caso foi</em>,<em> </em>2<sup>o</sup>. volume de memórias, do escritor, advogado e jornalista Paulo Cavalcanti, que falecei em maio de 1995, pouco depois de completar 80 anos.</p><p>Paulo também foi firme intelectual. Justo e generoso. É de sua lavra E<em>ça de Queiroz: agitador no Brasil</em>. O livro, publicado em 1959, ganhou fama nacional ao ser premiado pela Academia Pernambucana de Letras.</p><p>Imagino Paulo, comunista até o último fio de cabelo, incapaz de se calar diante de uma injustiça, no meio dos fraques e das cartolas da Academia. Não combinava com ele. Ele, ao contrário de muitos, acreditava na militância, no ideário do socialismo. Em Marx e na repartição igualitária da riqueza.</p><p><em> </em></p><p><em>Mas o livro que imortalizou Paulo foi</em><em> O caso eu conto como o caso foi</em>, que fez a cabeça de muita gente, de todas as gerações. Li de uma tacada só,  lembro-me bem.</p><p>E lembro que por um momento cheguei a acreditar no ser humano, não obstante as atrocidades que Paulo denuncia em suas memórias.</p><p>O livro é uma saga pessoal, é um painel do Brasil e, obviamente de Pernambuco. Quem quiser conhecer nossa história recente, torturadores, lutadores, camponeses, o panorama político, os personagens cruciais e as conseqüências e as raízes do golpe militar em Pernambuco, é só adquirir a obra.</p><p>Com uma riqueza de detalhes que impressiona e um dinamismo que imprime à narrativa o sabor de um romance dramático, é um Clássico da literatura memorialística.</p><p>No livro conhecemos o Paulo austero em suas convicções como membro do Partido Comunista Brasileiro, o Paulo irônico, mordaz e ferino; o Paulo incapaz de fugir ao embate, a testemunha honesta, o relato de um Homem capaz de lutar contra o mito em prol da sua própria opinião.</p><p>Refiro-me ao capítulo final, onde Paulo quase salta da página, em seu drama de consciência a respeito da sua discordância com o mítico Luis Carlos Prestes a respeito das divergências havidas entre o Cavaleiro da Esperança e a cúpula Comunista.</p><p>Mas ainda é pouco. Mesmo vigiado pelo ignominioso Departamento de Ordem Pública e Social (DOPS), Paulo não titubeava e atuava como advogado da chamada &#8220;cúpula comunista&#8221; &#8211; a direção estadual do PCB, os líderes da liga camponesa e a direção dos sindicatos de trabalhadores.</p><p>Desse amontoado de personagens, o leitor pode incluir os presos políticos Gregório Bezerra, Miguel Arraes, e Pelópidas da Silveira, todos acusados de subversão e especificamente Gregório, que foi seviciado por covardes que hoje devem arder no inferno.</p><p>Convém lembrar que naqueles idos, não havia garantia para nada e para ninguém. Nesse período, nada adiantaria a Paulo consultar códigos e leis, pois a violência era chancelada exatamente pela “lei”, que promulgada às pressas, “nasceu” para justificar todos os atos de arbítrio da autoridade.</p><p>Convém não esquecer: várias pessoas, que foram postas em condições desumanas, submetidos na prisão a torturas até ficarem loucos; convém lembrar a defesa produzida por Paulo com destemor em favor deles, um defensor capaz de enfrentar um pelotão, lutando sozinho, para livrá-los das sevícias  impostas pela odiosa figura dos Ditadores e do AI-5.</p><p>A narrativa histórica do livro de memórias de Paulo Cavalcanti, aliada aos fragmentos de sua memória cotidiana, encaminha o leitor para uma forte carga emotiva, da qual Pedro Nava foi mestre, sem com isso torná-la tendenciosa ou inverossímil.</p><p>O autor memorialista, um ser humano que nasceu para defender os Perseguidos. Parece-me que era essa foi uma das suas maiores vocações.</p><p>Muitos podem tomar para si o epíteto de &#8220;forte&#8221; (que constituía  uma das qualidades do seu caráter); poucos, porém, fazem jus ao epíteto de &#8220;fiel&#8221;, que representava a justeza, ou o senso de justiça que ele imprimia diariamente em cada ato seu, e tecia, assim, uma lição para continuarmos firmes na crença de que o ser humano não serve apenas para teses de mestrado ou qualificações pouco ortodoxas em tratados sobre a criminologia.</p><p>Havia nele esse conjunto: coragem cega, atitude, olhar sincero, a mão pronta para o fraterno cumprimento, a palavra posta a serviço de uma mensagem cujo conteúdo dignifica raça humana.</p><p>Paulo expõe em suas memórias o conturbado cenário nacional do período pós Estado Novo e pós Guerra,  mas é na parte em que narra sua luta para impetrar habeas corpus e outros instrumentos jurídicos vedados pelos milicos e pelo AI-5, que sua figura se agiganta e, ao menos para mim, penso nele como um heroi.</p><p>A narrativa autobiográfica nasce e renasce desde a sua infância, na década de 20, mas é na vida adulta que encontramos o dinamismo dos grandes fatos.</p><p>A partir dessa fase, percebemos sua resistência a qualquer ruptura da legalidade, e daí em diante se elucida todo um painel histórico de forma simples e até coloquial, sem maiores malabarismo, porém com feições de pesquisa acadêmica.</p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/08/paulo-cavalcanti.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-889" title="paulo-cavalcanti" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/08/paulo-cavalcanti-301x350.jpg" alt="" width="190" height="221" /></a>Lida e relida, a obra de Cavalcanti será imediatamente inteligível; nela não se permeia nenhum ranço intelectual que sirva de obstáculo ao fácil entendimento. A simples, sincera e pura arte de contar-se e contar a história conforme suas convicções e interpretações.</p><p>O cotidiano dele, que mais se assemelhava a um enfrentamento eterno de querelas judiciais com os latifundiários locais lembra-me os poemas aguerridos de Maiakoviski, ou da vida Severina, denunciada em poesia pelo seu conterrâneo João Cabral de Melo Neto. Ele narra com pormenores as primeiras eleições federais, estaduais e municipais do período pós Estado Novo.</p><p>Relata sua convivência com Gregório Bezerra. Conta como se deu a famosa campanha do &#8220;Petróleo é nosso”<em>,</em> a instalação da Sudene e o surgimento de Pelópidas da Silveira, como líder popular, e sua caminhada ao poder.</p><p>Paulo traça com a precisão dos cirurgiões a caminhada política de Arraes: do poder a sua deposição. Denuncia com rigor os caminhos do golpe de 64, as prisões e as torturas. Compõe um arcabouço historiográfico sem meias palavras. Passagens e momentos de sua experiência de vida ganham cores vivas e dramáticas.</p><p>Paulo escreveu:</p><p>&#8220;No curso desses 50 anos, da passagem da Coluna Prestes pelos sertões nordestinos, em 1926, eu, menino, extasiado diante de tantos exemplos de bravura, até o ano de 1976, data da minha undécima prisão por motivos políticos – derradeira? -, intercalo as agitações de cada época, as “revoluções tenentistas”, dos anos 20 e 30, a campanha da Aliança Liberal, a morte de João Pessoa, os movimentos grevistas e operários, a chamada “intentona” de 1935, o “Estado Novo”, a queda da ditadura Vargas, o assassinato de Demócrito de Souza Filho, a ascensão da esquerda em Pernambuco, a “Frente do Recife” e suas origens, a vida de Gregório Bezerra, as jornadas do “Petróleo é nosso”, os tempos de Pelópidas Silveira e Miguel Arraes, o Movimento de Cultura popular, as Ligas Camponesas de Francisco Julião, o golpe militar de 64, a tortura e morte de presos políticos, em Pernambuco (&#8230;)&#8221;.</p><p>Todos sabem as incumbências do Acusador. Deve servir à sociedade, e embora seja raro, se o Promotor estiver convencido da improcedência da ação penal, pode até pedir a absolvição do réu.</p><p>Paulo Cavalcanti foi, a um só tempo, tudo isso: promotor e defensor, literato, político e chefe de família. Parece que ele veio à Terra talhado para redimir um monte de pobres-diabos.</p><p>Pois era de uma rara organização mental, de inteligência altiva, insubmissa e ao mesmo tempo, generosa e sábia. Era capaz de despir-se da mais tola das vaidades e de pedir desculpas. Não se arvorava como Rei do Sertão. Observava, opinava, mas não conseguia calar-se diante do que lhe parece ser injusto.</p><p>E ah, sim, falei que Paulo era justo e generoso.</p><p>Certo dia, meu pai contou-me que um mendigo vivia perambulando pelo Centro do Recife. De tanto perambular e chatear os passantes, acabou ficando popular. Irritado, esse mendigo ensaiava em cada esquina uma briga com o mundo, dava adeus aos transeuntes sem motivo aparente.</p><p>Esse personagem existiu. Vivia no centro do Recife.</p><p>Um, mais um, dentre os milhares de miseráveis que nos soterram a consciência.</p><p>No entanto, mesmo diante das suas diatribes, meu pai viu certo dia Paulo Cavalcanti aproximar-se dele. Temeroso e curioso, meu pai deixou-se ficar a observar a cena.</p><p>Afinal, Paulo já tinha idade e sabe-se lá o que poderia ocorrer nesse mundo virulento e sem prumo.</p><p>Mas eis que o mendigo acalmou-se.  Parece que, subitamente, deixara de enxergar em cada transeunte um inimigo, em casa passante um soldado nazista, após as rápidas palavras que Paulo lhe disse.</p><p>Meu pai voltou ao local e viu esse personagem menos macambúzio, com cabelos um pouco mais brancos, cigarro aceso, ele que sempre vivia naquelas cercanias. Estava mais sorridente.</p><p>Imagino que o autor de  <em>O caso eu conto&#8230;</em> deve ter-lhe dito palavras fraternas, mas também que tratasse de compreender, tomasse prumo, desse o devido trato à bola. Que deixasse de lado aquela cantilena de despedida, e que tomasse logo tento de abrir os olhos. Enfim, que resistisse.</p><p>O mendigo, cego que ficara, empurrou seu carrinho de frustrações ribanceira abaixo. Ali, ao que parece, começava um novo capítulo da sua vida.</p><p>Ainda um pouco cego e tonto, o velho sem posses circulou por algum tempo com desenvoltura entre as ruas do Recife, munido das necessárias ferramentas para entender toda aquela História. Deve ter compreendido. Tenho certeza que sim.</p><p>Apesar disso, o mendigo aposentou-se das ruas e depois sumiu.</p><p>Dizem que foi ser vendedor de algodão doce.</p><p>Outros garantem que ele transformou-se no espectro de um menestrel, e hoje passa a vida num longínquo deserto, vestindo a túnica branca dos que vivem em paz.</p><p>Apesar da sua intransigência e do carinho de todos os transeuntes, a verdade é que naquele certo dia só Paulo Figueiredo Cavalcanti enxergou nele um irmão.</p><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/o-caso-eu-conto-como-o-caso-foi/' addthis:title='O caso eu conto como o caso foi '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/o-caso-eu-conto-como-o-caso-foi/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>25</slash:comments> </item> <item><title>Treino aberto ao público</title><link>http://www.caotico.com.br/treinamento-aberto-ao-publico/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/treinamento-aberto-ao-publico/#comments</comments> <pubDate>Sun, 14 Mar 2010 00:57:51 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Elocubrações]]></category> <category><![CDATA[aprendizagem]]></category> <category><![CDATA[Dante Alighieri]]></category> <category><![CDATA[Divina Comédia]]></category> <category><![CDATA[ficção]]></category> <category><![CDATA[Literatura]]></category> <category><![CDATA[memória]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=623</guid> <description><![CDATA[Dei o pontapé inicial na leitura de uma edição em versos da Editora 34, traduzida direto do original, da “Divina Comédia”. Coisa fina, mas que deverá me exigir certa concentração para que possa imergir no universo de Dante. Ainda estou no segundo canto, faltam 98. Então, aproveitarei para iniciar uma nova fase do Caótico. Por [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/treinamento-aberto-ao-publico/' addthis:title='Treino aberto ao público '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/03/escriba.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-624" title="escriba" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/03/escriba-350x262.jpg" alt="" width="207" height="155" /></a>Dei o pontapé inicial na leitura de uma edição em versos da Editora 34, traduzida direto do original, da “Divina Comédia”. Coisa fina, mas que deverá me exigir certa concentração para que possa imergir no universo de Dante. Ainda estou no segundo canto, faltam 98. Então, aproveitarei para iniciar uma nova fase do Caótico.</p><p>Por isso, nas próximas semanas vou reduzir o ritmo dos comentários sobre os livros que li, porém pretendo compartilhar lembranças com maior generosidade. Também vou contar minhas mentiras, coisas que escutei ou vivi, mas que costumo alterar ou “melhorar a verdade”, exagerando um pouquinho ali, um pouquinho acolá. De tanto enxertar imaginação nas histórias que conto e reconto com entusiasmo nas conversas entre amigos, já nem sei o que é mentira e o que é verdade.</p><p>Escrever essas coisinhas, transpor a fronteira entre a oralidade e o texto, será um exercício que, entre aspas, ousaria chamar de “literário”, um treinamento aberto ao público, um teste escancarado de alguém que se dispõe a ser criticado para saber se deve alimentar a pretensão de, em futuro remoto, escrever contos ou crônicas. Afinal, tenho a convicção de que contar mentiras pode ser atividade mais <span style="text-decoration: line-through;">interessante</span> sincera do que o jornalismo.</p><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/treinamento-aberto-ao-publico/' addthis:title='Treino aberto ao público '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/treinamento-aberto-ao-publico/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>2</slash:comments> </item> <item><title>Um livro em gestação</title><link>http://www.caotico.com.br/um-livro-em-gestacao/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/um-livro-em-gestacao/#comments</comments> <pubDate>Sun, 30 Aug 2009 01:56:59 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Elocubrações]]></category> <category><![CDATA[Capibaribe]]></category> <category><![CDATA[Funcultura]]></category> <category><![CDATA[História Oral]]></category> <category><![CDATA[memória]]></category> <category><![CDATA[Passira]]></category> <category><![CDATA[Salgadinho]]></category> <category><![CDATA[Surubim]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=314</guid> <description><![CDATA[Nesse momento estou no pequeno e confortável Cristal Hotel, em João Alfredo, dividindo apartamento com o cabeludo Alexandre Sávio Ramos, arquiteto especializado em recursos hídricos e produtor cultural nas horas vagas. 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São nove e meia da noite de sábado, 29 de agosto. Lá embaixo, as caixas de som instaladas no porta-malas de um carro troveja a voz de uma mulher que se esgoela rimando “não te amo agora” com “dê o fora”. Espero que a Convenção de Genebra seja ampliada e que esse tipo de coisa passe a ser considerada crime contra  humanidade.</p><p>Nesse instante, o parágrafo acima já surtiu o efeito desejado e o leitor está se perguntando que diabos estou fazendo longe de casa e da diversão, acompanhado de um sujeito com currículo tão exótico, no meio do fim-de-semana. Pois bem, estou parindo um livro.</p><p>Desde o início de abril, estamos percorrendo os municípios cortados pelo rio Capibaribe para entrevistar dezenas de velhos moradores de Poção, Jataúba, Brejo da Madre de Deus, Santa Cruz do Capibaribe, Toritama, Vertentes, Surubim, Frei Miguelinho, Salgadinho, Passira, Limoeiro, Lagoa do Carro, Paudalho, Camaragibe e, óbvio, Recife.</p><p>O verbo correto a ser usado seria, na verdade, escutar e não entrevistar. Tentamos respeitar o jeito de narrar, de contar histórias de cada uma das pessoas que se dispõem a conversar conosco e compartilhar suas lembranças, muitas vezes dolorosas ou difíceis de ser arrancadas da memória, de tão bem guardadas que estavam.</p><p>Encerramos o dia, já de noite, comendo um sanduíche de ovo com mortadela na casa de Antônio Ângelo Albuquerque, um ex-boxeador que aparenta ter 50 anos, mas já chegou aos 73. Ele nos contou que, durante mais de duas décadas, lutou em ringues do Brasil inteiro, foi campeão carioca, norte-nordeste, empatou em pontos duas vezes com um sujeito que era quarto no ranking mundial. Aposentado, possui uma empresa de formação de vigilantes no Recife, mas preferiu viver no lugar onde nasceu, no sossego da beira do rio em Surubim para tentar lembrar da mãe, morta quando ele tinha pouco mais de um ano.</p><p>Encontramos duas Alaídes, uma em Salgadinho, outra no vilarejo de Poço do Pau. Além do nome, as duas senhoras têm em comum a excelente memória e o fato de enxergarem ta beleza do Capibaribe cheio, indomável, arrastando árvores, bichos e pedaços de vilas.</p><p><img class="size-medium wp-image-318 alignright" title="capibaribe" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2009/08/capibaribe-350x262.jpg" alt="capibaribe" width="170" height="127" /></p><p>De manhã, numa casa humilde em Passira, foi difícil conversar com Tiago Ramos, forrozeiro e poeta popular que largou a sanfona por causa da surdez. A dificuldade em nos fazer entender foi proporcional à emoção do velho cordelista em lembrar dos tempos em que cruzava o País com seus “Cangaceiros do Baião” e arrumava namoradas em tudo quanto é lugar. Ele não deve ter exagerado seu talento de sedutor, pois quando perguntamos às Alaídes se elas lembravam de ter visto Tiago tocar na região, as respostas positivas vieram antecedidas de suspiros ou elogios rasgados à sua beleza.</p><p>Encontramos muitas outras pessoas admiráveis, ávidas para contar do seu jeito as histórias do lugar onde vivem e de suas próprias vidas.</p><p>Por enquanto, o título do livro – cujo projeto de pesquisa está sendo apoiado pelo Funcultura – deverá ser <em>Um Rio de Gente</em>, mas ainda pode mudar, e terá muitas fotos de Tuca Siqueira. Nossa intenção é que os alunos das dezenas de escolas públicas que receberão o livro sintam que o Capibaribe traz mais do que água, sedimentos e sujeira, mas carrega para o mar o sentimento de dona Margarida, que até hoje guarda com carinho o último brinquedo que ganhou do pai em 1927; ou a história de amor do sujeito que esperou 59 anos até conseguir casar com a mulher que amava; ou a percepção do homem que tem tanta intimidade com a natureza que conta os arco-íris que surgem no céu de sua cidade desde o ano de 1943.</p><p>Espero que o produto do nosso esforço fique à altura da generosidade dos homens e mulheres que nos acolheram e nos entregaram tantos tesouros do passado ou da imaginação.</p><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/um-livro-em-gestacao/' addthis:title='Um livro em gestação '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/um-livro-em-gestacao/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>13</slash:comments> </item> </channel> </rss>
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