<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?> <rss version="2.0" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/" xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/" xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/" ><channel><title>Caótico &#187; reportagem</title> <atom:link href="http://www.caotico.com.br/tags/reportagem/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" /><link>http://www.caotico.com.br</link> <description>Espaço de leituras,  histórias &#38; especulações &#124; Por Inácio França</description> <lastBuildDate>Wed, 08 Feb 2012 13:36:43 +0000</lastBuildDate> <language>en</language> <sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod> <sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency> <xhtml:meta xmlns:xhtml="http://www.w3.org/1999/xhtml" name="robots" content="noindex" /> <item><title>O olho da rua</title><link>http://www.caotico.com.br/o-olho-da-rua/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/o-olho-da-rua/#comments</comments> <pubDate>Tue, 15 Nov 2011 14:29:32 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[Eliane Brum]]></category> <category><![CDATA[jornalismo]]></category> <category><![CDATA[jornalismo literário]]></category> <category><![CDATA[reportagem]]></category> <category><![CDATA[repórter]]></category> <category><![CDATA[revista Época]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1633</guid> <description><![CDATA[Eliane Brum era repórter do Zero Hora quando nos conhecemos, há não sei quantos anos. Ela começou como repórter da editoria de Polícia do diário gaúcho, eu como na mesma função no Diário Popular, de São Paulo. 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Ela começou como repórter da editoria de Polícia do diário gaúcho, eu como na mesma função no Diário Popular, de São Paulo.</p><p>Minhas lembranças não são lá muito nítidas, mas acredito que isso nos aproximou a ponto de descobrir mais pontos em comum do que as origens profissionais às voltas com cadáveres.</p><p>Primeiro ficamos amigos, depois irmãos. Como sempre foram grandes a distância e o tempo, voltamos a ser amigos, depois colegas. Com algum otimismo, agora podemos nos classificar mutuamente na categoria “velhos conhecidos”. Isso me proporciona isenção o suficiente para escrever sobre <em>O olho da rua</em>, livro que lançou há três anos.</p><p>As escolhas profissionais levaram Eliane a escrever mais e melhor. Pausa rápida para transformar o blog em confessionário: do ponto-de-vista das escolhas profissionais que me levaram a escrever menos e cada vez com mais dificuldades, revelo inveja e admiração por trajetórias como a da minha amiga.</p><p><em>O olho da rua </em>me fez lembrar, em vários momentos, algo que lhe disse há mais ou menos uma década. Não sei exatamente o motivo, mas num rompante ecologista ou botânico comparei nossos respectivos textos dois grandes biomas: o dela seria exuberante, úmido e verde como a floresta amazônica; o meu texto, ao menos naquela época, seria econômico, áspero e de humor cortante como os espinhos da caatinga.</p><p>Não tenho a mínima ideia do valor de tal analogia, que me parece meio besta no momento em que escrevo, contudo parte das minhas palavras se revelaram proféticas. Como repórter da Época e colunista do site da revista, ela escreveu como ninguém sobre os povos da floresta e as contradições da Amazônia.</p><p>Entre as 10 reportagens selecionadas para o livro, quatro foram realizadas na região.</p><p>Todos os textos, publicados em ordem cronológica, são um bom exemplo do que há de melhor e mais original no Jornalismo brasileiro deste início de século. É bem verdade que há um ou outro excesso de palavras nos textos escritos em seus primeiros anos na revista, mas todos – sem exceção – provam que a narrativa do mundo contemporâneo pode e deve ser mais rica, mais complexa e densa do que é oferecido ao público diariamente.</p><p>Eliane Brum comove, mas em nenhum momento a delicadeza do estilo prejudica a densidade dos seus escritos. Ela não abre mão de, como repete sempre, “complicar”, ou seja, de tentar revelar as contradições sociais, econômicas e mesmo emocionais dos protagonistas da realidade. Ela nunca faz a opção pelo caminho mais fácil, simplificador e enganoso.</p><p>O faro e o olhar de repórter que, de muito longe, sente cheiro de notícia são acurados. Para quem duvida que a beleza do texto e a informação podem andar juntos, sugiro a leitura de &#8216;A guerra do começo do mundo&#8217;. Sete anos antes de eclodir as batalhas entre os arrozeiros e os índios na reserva Raposa Serra do Sol, ela já havia percebido o conflito social que estava sendo germinado em Roraima. Os pitaqueiros que se apressaram em dar opiniões racistas certamente não leram seus textos de 2001.</p><p>A seu favor ela conta com a vasta leitura – ela lê avidamente desde os sete anos de idade – e o respeito que tem por aqueles que abrem as portas das suas casas para contar um pouco (ou muito) de suas vidas. As palavras do garimpeiro, do desempregado, da senhora que vive seus últimos dias são a matéria-prima das reportagens de Eliane, mesmo que elas contrariem a visão de mundo e as expectativas do editor.</p><p>Quando o livro foi lançado, as resenhas publicadas pelos veículos de comunicação sugeriam que seria uma leitura obrigatória para estudantes de Jornalismo ou mesmo jornalistas exercendo a profissão. Pode ser. Talvez algum repórter compreenda que, em vez de perguntar por telefone a alguém como é andar 10 quilômetros por dia, seria melhor andar esses mesmos 10 quilômetros ao lado do personagem da matéria.</p><p>Para jovens ou velhos jornalistas não há lição melhor do que os comentários da autora sobre seus erros ao escrever a reportagem &#8216;A Casa dos Velhos&#8217;, sobre um abrigo para idosos no Rio de Janeiro. Entre &#8220;os pontos em comum&#8221; entre os modos como percebemos o mundo e o ofício, que mencionei lá no início desse texto, está a convicção que a ética e a responsabilidade são muito mais importante que o furo ou as técnicas de apuração. E, pelo que li nesse livro, ela nunca deixou de levar isso muito a sério.</p><p>Estou convicto, contudo, que a leitura das reportagens e dos textos em primeira pessoa sobre como elas foram feitas, pode ser ainda mais útil para os leitores e telespectadores que assinam jornais e revistas. Ao comparar aquilo que lêem todos os dias com o que Eliane Brum escreve, pode ser que se tornem mais exigentes.</p><ul><li><a href="http://www.asabrasil.org.br/Portal/Informacoes.asp?COD_NOTICIA=7003&amp;WORDKEY=brum"><strong>Para conhecer mais sobre a autora leia entrevista publicada no site da Articulação do Semi-árido (ASA) pela jornalista Verônica Pragana</strong></a></li></ul><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/o-olho-da-rua/' addthis:title='O olho da rua '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/o-olho-da-rua/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>A arte da reportagem</title><link>http://www.caotico.com.br/a-arte-da-reportagem/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/a-arte-da-reportagem/#comments</comments> <pubDate>Tue, 25 Oct 2011 18:57:47 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[8 de março]]></category> <category><![CDATA[campo minado]]></category> <category><![CDATA[coletânea]]></category> <category><![CDATA[crônica]]></category> <category><![CDATA[Guerra do Vietnã]]></category> <category><![CDATA[Igor Fuser]]></category> <category><![CDATA[jornalismo]]></category> <category><![CDATA[José Hamilton Ribeiro]]></category> <category><![CDATA[minas terrestres]]></category> <category><![CDATA[reportagem]]></category> <category><![CDATA[Rubem Braga]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1617</guid> <description><![CDATA[Rubem Braga e José Hamilton Ribeiro são os mais conhecidos jornalistas brasileiros a atuar como correspondentes de guerra. O primeiro foi construindo aos poucos sua imagem de grande cronista. O trabalho que realizou nos final de 1944 e início de 45 acompanhando os pracinhas brasileiros na Itália durante a II Guerra se tornou, com o [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/a-arte-da-reportagem/' addthis:title='A arte da reportagem '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/10/A-arte.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1618" title="A arte" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/10/A-arte-251x350.jpg" alt="" width="130" height="182" /></a>Rubem Braga e José Hamilton Ribeiro são os mais conhecidos jornalistas brasileiros a atuar como correspondentes de guerra. O primeiro foi construindo aos poucos sua imagem de grande cronista. O trabalho que realizou nos final de 1944 e início de 45 acompanhando os pracinhas brasileiros na Itália durante a II Guerra se tornou, com o tempo, algo quase exótico em sua biografia.</p><p>Com José Hamilton foi diferente. Ele entrou para a história ao perder a perna esquerda na explosão de uma mina quando cobria a guerra do Vietnã para a Realidade. Por essas e outras, o jornalista e a revista se tornaram entidades míticas do jornalismo verde-amarelo-azul-anil.</p><p>Realidade pereceu sob a censura durante os anos de ditadura aos 10 anos de existência. O repórter continua repórter, fazendo o melhor telejornalismo disponível na Rede Globo, sempre com grandes e lúcidas reportagens no Globo Rural, ou seja, confinado ao horário do domingo de manhã <a href="http://www.youtube.com/watch?v=pwcYMrCK9gU">(não deixe de clicar aqui para assistir a um documentário sobre ele, produzido por estudantes do 5º período de Jornalismo)</a>.</p><p>Apesar de muito ter ouvido a falar, jamais tinha procurado ler as crônicas de Braga nem as reportagens de José Hamilton sobre as guerras que ambos viram e viveram. Também sabia que tanto umas quanto outras fazem parte da coletânea <em>A arte da reportagem</em>, que praticamente morava em minha estante desde seu lançamento, há 15 anos.</p><p>Além dos textos dos correspondentes de guerra, há outras 52 reportagens, incluindo alguns que não chega a tanto, mas acabaram na coletânea graças à generosidade – ou exagero – do organizador, o jornalista Igor Fuser.</p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/10/270px-Rubem_Braga_e_a_FEB.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1619" title="270px-Rubem_Braga_e_a_FEB" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/10/270px-Rubem_Braga_e_a_FEB.jpg" alt="" width="151" height="188" /></a>As crônicas de Braga foram publicadas pelo Diário Carioca à medida que ele consegui enviá-las do front europeu. Tanto fazia chegar duas ou três em sequência ou passar dias e mais dias sem um despacho sequer. Muitas vezes, chegavam cortadas pela censura. Depois o autor as reuniu em livro. Na foto ao lado, o cronista é o bigodudo em pé, à esquerda.</p><p>Seus textos são completamente diferentes de tudo que já li antes de correspondentes de guerras de quaisquer nacionalidades. A visão do cronista das coisas mínimas do cotidiano carioca permanece delicada na guerra. A morte, os canhões e o medo parecem ter tornado ainda mais sensível o sujeito que escrevia sobre o cotidiano sem correr o risco de ver seus escritos perderem o prazo de validade.</p><p>Para compreender o quanto o jornalismo tem de efêmero e a literatura de permanente basta, por exemplo, a leitura dos parágrafos sobre as minas terrestres plantadas em campos onde deveria haver flores, trigo, milho.</p><p>Vinte e poucos anos, José Hamilton atravessa o mundo para ver de perto o horror do Vietnã. No último dia – sim, no último dia – de sua missão para a Realidade, pisa numa mina. Quando poderia ter escrito um texto sobre seu sofrimento, o repórter continua atento para as dores de crianças e homens que já não têm motivos para sorrir, mas continuam rindo ao passar pelos companheiros de enfermaria a caminho do corredor.</p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/10/revista-relidade-2-jos%C3%A9-hamilton-ribeiro-ferido-no-vietn%C3%A3.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1620" title="revista relidade 2 josé hamilton ribeiro ferido no vietnã" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/10/revista-relidade-2-jos%C3%A9-hamilton-ribeiro-ferido-no-vietn%C3%A3-350x276.jpg" alt="" width="205" height="161" /></a>Sua própria dor está ali, afinal de contas é impossível negar o fato de que o repórter está ferido, mas aparece quase como cenário, como parte da notícia. A reportagem publicada pela Realidade sob o título ‘Eu estive na guerra’ foi escrito em primeira pessoa, mas o autor não faz drama com seu ferimento.</p><p>Seu olhar é de esperança, de quem vai continuar a vivendo depois de passar pelo inferno, com ou sem perna esquerda, há uma vida a ser vivida. José Hamilton é daqueles que encaram o jornalismo como uma oportunidade para tentar construir um mundo melhor.</p><p>Essa relação com a profissão complementa uma frase do organizador ainda na apresentação do livro: “só não recomendo esta coletânea para aqueles que pretendem ficar ricos e/ou famosos com o jornalismo”.</p><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/a-arte-da-reportagem/' addthis:title='A arte da reportagem '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/a-arte-da-reportagem/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>8</slash:comments> </item> <item><title>Z, a cidade perdida</title><link>http://www.caotico.com.br/z-a-cidade-perdida/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/z-a-cidade-perdida/#comments</comments> <pubDate>Fri, 16 Sep 2011 16:51:56 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[Amazônia]]></category> <category><![CDATA[antropologia]]></category> <category><![CDATA[arqueologia]]></category> <category><![CDATA[coronel Fawcett]]></category> <category><![CDATA[expedições]]></category> <category><![CDATA[floresta amazônica]]></category> <category><![CDATA[história]]></category> <category><![CDATA[índios]]></category> <category><![CDATA[jornalismo]]></category> <category><![CDATA[livro-reportagem]]></category> <category><![CDATA[Percy Fawcett]]></category> <category><![CDATA[reportagem]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1578</guid> <description><![CDATA[Essa será a primeira de uma série de textos sobre livros escritos com recursos jornalísticos. Corro risco de ferir o próprio caráter caótico das minhas leituras que deu nome a esse blog, mas isso será fundamental para a preparação de uma oficina sobre Jornalismo &#38; Literatura que irei ministrar em novembro. 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Corro risco de ferir o próprio caráter caótico das minhas leituras que deu nome a esse blog, mas isso será fundamental para a preparação de uma oficina sobre Jornalismo &amp; Literatura que irei ministrar em novembro. Irei adiar a leitura de <em>Dom Quixote, Balada da praia dos cães</em> e <em>Nuvens vermelhas, </em>que Roberto Numeriano me enviou há meses.</p><p>O primeiro dessa sequência será <em>Z , a cidade perdida, </em>a história das expedições do inglês Percy Fawcett contada pelo jornalista David Grann, da revista New Yorker.</p><p>Normalmente, eu jamais iria dar atenção a esse livro se o encontrasse na prateleira de uma livraria. Até então, de Fawcett só conhecia seu nome de ouvir falar. Lembrava que era um explorador inglês, que havia desaparecido em algum lugar e mais nada. Foi meu amigo Cláudio Machado, vulgo Cacau, quem evitou que eu passasse batido e, lá de Brasília, me mandou seu exemplar.</p><p>Um resumo simplório do livro diria que se trata de um relato sobre o desaparecimento de um explorador britânico obcecado pela possibilidade de encontrar uma imensa e rica cidade desaparecida no meio da floresta amazônica. Como eu disse, isso seria simples demais.</p><p>O relato é o resultado de um exaustivo e minucioso trabalho jornalístico com uma peculiaridade: foram poucas as entrevistas realizadas por Grann, que conversou com alguns antropólogos e a neta do protagonista da história, uma simpática senhora residente no País de Gales.</p><p>Com a ajuda de uma pequena equipe e de bibliotecários, inclusive da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, o autor debruçou-se sobre atas de reunião, relatórios de expedição, pastas repletas de documentos arquivados há anos, livros, jornais e revistas antigos. A narrativa jornalística que seduz o leitor foi construída, portanto, com ferramentas da História e da Antropologia.</p><p>O estilo econômico e elegante do autor revela algo mais do que o mistério da expedição desaparecida. Essa também é a história de um homem que se deixa transformar pela floresta.</p><p>É difícil haver empatia ou simpatia com o Fawcett fleumático e tirânico dos capítulos iniciais. Ele encarnava a arrogância e o espírito colonialista dos europeus dispostos a ignorar a cultura dos “selvagens”. Como seus contemporâneos, era um homem que interpretava a realidade de outras terras usando a lógica e os olhos da rainha Vitória.</p><p>A floresta revelou quem era Fawcett. Os primeiros contatos com os índios foram o bastante para que ele compreendesse que, longe da civilização, havia “decência”. E aqueles que ele julgava incapazes de construir uma sociedade complexa e uma cultura rica se revelaram detentores de profundos conhecimentos sobre as plantas, os animais, ventos e águas. Em seus arquivos, pesquisados cuidadosamente pela equipe da New Yorker, ele admite estar espantados com os conhecimentos práticos de farmacologia e botânica dos índios bolivianos.</p><p>A violência da I Grande Guerra confirmou que os europeus não eram mais civilizados do que os habitantes da floresta.</p><p>Fawcett só conseguia dormir em rede quando voltava para casa.</p><p>Por sorte, o personagem encontrou um repórter com igual sensibilidade. Grann está atento não só a natureza, ao desmatamento, aos homens da floresta, mas também ao drama da família Fawcett. Em um dos melhores momentos da narrativa, lá pelo final do capítulo 18 (Uma obsessão científica),  é emocionante tomar conhecimento de quantos planos, projetos e sonhos foram interrompidos depois que ele embrenhou-se na mata junto com seu filho mais velho, Jack, de apenas 22 anos.</p><p>Com habilidade, a narrativa conduz o leitor à constatação de que Fawcett não era maluco ou ingênuo, mas um homem que, apesar de limitado como antropólogo, compreendeu antes de todos a competência, o engenho e a capacidade de realização dos povos da floresta.</p><p>Descobrir <em>Z </em>é, ao mesmo tempo, um caminho doloroso e agradável para conhecer um pouco mais da construção do Brasil e do tamanho do erro que é desprezar a ciência de povos como os xavantes, caiapós, saterês, ticuna, tembé ou ianomâni.</p><p>&nbsp;</p><p><strong>Sobre o escritor</strong></p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/09/david-grann-ny-2011.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-1580" title="david-grann-ny-2011" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/09/david-grann-ny-2011-350x197.jpg" alt="" width="290" height="163" /></a></p><p>David Grann é jornalista da New Yorker desde 2003, além de <em>Z, a cidade perdida </em>– que está perto de chegar às telas dos cinemas – também escreveu o livro <em>O diabo e Sherlock Holmes</em>, sobre o misterioso assassinato de um especialista no lendário detetive criado por Arthur Conan Doyle. Ele também escreve para as revistas New York Times Magazine, Washington Post e faz parte do conselho editorial da The New Republic.</p><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/z-a-cidade-perdida/' addthis:title='Z, a cidade perdida '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/z-a-cidade-perdida/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>3</slash:comments> </item> <item><title>Aos olhos da multidão (Fama &amp; Anonimato)</title><link>http://www.caotico.com.br/aos-olhos-da-multidao-fama-anonimato/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/aos-olhos-da-multidao-fama-anonimato/#comments</comments> <pubDate>Sun, 12 Jun 2011 02:32:35 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[Gay Talese]]></category> <category><![CDATA[New Journalism]]></category> <category><![CDATA[New York]]></category> <category><![CDATA[Nova Iorque]]></category> <category><![CDATA[Nova York]]></category> <category><![CDATA[O Reino e o Poder]]></category> <category><![CDATA[reportagem]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1438</guid> <description><![CDATA[Alguns textos de Gay Talese escritos nos anos em que o New Journalism se consolidou se tornaram lendários nos Estados Unidos e têm certa fama entre um público restrito, porém interessado em histórias reais contadas com as técnicas e riqueza de estilo da literatura. Fama &#38; Anonimato abriga boa parte desses textos, principalmente os perfis [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/aos-olhos-da-multidao-fama-anonimato/' addthis:title='Aos olhos da multidão (Fama &#38; Anonimato) '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/06/Aos-olhos.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1439" title="Aos olhos" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/06/Aos-olhos-226x350.jpg" alt="" width="113" height="175" /></a>Alguns textos de Gay Talese escritos nos anos em que o <em>New Journalism </em>se consolidou se tornaram lendários nos Estados Unidos e têm certa fama entre um público restrito, porém interessado em histórias reais contadas com as técnicas e riqueza de estilo da literatura. <em>Fama &amp; Anonimato </em>abriga boa parte desses textos, principalmente os perfis de Frank Sinatra e do Pelé do Beisebol, Joe DiMaggio.</p><p>Outra sequência de textos notória que faz parte do livro é a série de reportagens sobre a Nova York desconhecida, dos anônimos e esquecidos. Os alicerces destes textos são os números da cidade, já impressionantes na década de 60, que Talese usa com maestria para revelar situações e seres humanos distantes do glamour da cidade mais próspera do que era a nação mais próspera do planeta.</p><p>Talvez só pela vontade de parecer diferente, gostei mais de outras histórias menos conhecidas, cujos personagens me pareceram mais ricos, mais surpreendentes, ou por conta do modo como o jornalista-escritor as contou. É provável que minha opinião tenha se formado por conta da expectativa que criei a respeito de, principalmente, do perfil de Sinatra, escrito sem que o cantor tivesse sequer concordado em conceder uma mísera entrevista ao repórter.</p><p>Há sete anos, o livro foi lançado no Brasil com seu título correto traduzido fielmente do inglês. Por conta do preço bem mais baixo no sebo, optei pela leitura de uma edição mais antiga, de 1973, publicada por uma editora chamada Expressão e Cultura, que já deve ter fechado as portas, sob o título <em>Aos olhos da multidão.</em></p><p><em> </em>O livro é composto por três partes distintas, publicadas em momentos diferentes pela revista Esquire: a primeira com os vários perfis, a segunda com uma série de “reportagens” sobre a construção da ponte Verrazzano-Narrows, entre o Brooklyn e State Island, e a última com as histórias nova-iorquinas.</p><p><em> </em>A introdução é curta, porém muito interessante. Talese faz algumas reflexões sobre sua própria forma de escrever, admitindo suas hesitações indo do jornalismo à literatura. Ele explica que, em determinado momento, utiliza suas mais suas próprias informações do que estilo literário para descrever as luzes e sombras de Nova York.<em> </em></p><p><em> </em>Entre os perfis, não há dúvida que os de Sinatra e DiMaggio são bons, contudo ótimo mesmo é o de Floyd Patterson, um boxeador da era pré-Mohammed Ali que perdeu o título mundial duas vezes para o mesmo adversário. Isso foi motivo o suficiente para que Talese se interesse pelo perdedor e não pelo campeão mundial. É esse tipo de escolha já seria o bastante para aquilatar a personalidade e a sensibilidade do repórter. Nesse capítulo é antológico o trecho em que Patterson admite ter perdido a luta porque não é um cara agressivo, não é capaz de sentir raiva dos seus adversários. Emocionante, para dizer o mínimo.</p><p>O perfil de Patterson é ótimo, mas o de Alden Whitman é excelente. Quem é Whitman? A resposta para essa pergunta ajuda a explicar porque me arrisquei a usar um adjetivo tão categórico. Trata-se do redator de obituários do <a href="http://www.caotico.com.br/o-reino-e-o-poder/">New York Times</a>. Isso mesmo, um jornalista apagado na hierarquia, que não brilha com grandes reportagens premiadas, cuja rotina é preparar com antecipação textos sobre mortos ilustres que ainda não morreram.</p><p>Esse texto difere da maioria dos demais perfis, pois há nele um humor mórbido que não desequilibra a elegância e delicadeza do autor. Como não achar graça de um redator que, ao perceber que um obituário ficou bem escrito, passa a torcer para que a morte do personagem aconteça logo para que ele possa ver seu belo texto impresso no jornal?</p><p>Os 10 textos sobre a obra da ponte também têm como principais protagonistas aqueles que qualquer jornalista de qualquer veículo brasileiro iria ignorar solenemente: os operários.</p><p>Nessa série, Talese não desprezou as informações em detrimento dos aspectos humanos dos seus personagens. Estão todos lá os números sobre custos da ponte, descrição dos materiais utilizados, técnicas construtivas, inovações do projeto arquitetônico, biografia do autor do projeto, a polêmica gerada pela desapropriação de 800 prédios e casas para dar lugar à via de acesso, não falta nada.</p><p>Mas ele vai além das informações. Foi por isso que escrevi reportagens entre aspas lá em cima, no quinto parágrafo.</p><p>O registro do dia-a-dia da construção da ponte se transforma num épico em que os operários são os heróis. O sujeito que se pendura a não sei quantos metros de altura para pregar um rebite não é um dado estatístico. Ele ganha nome, vida, humanidade, dignidade, seus feitos em outras obras são lembrados e louvados. E isso não é pouco. Basta comparar com aquilo que se lê nos portais da internet, jornais e revistas do ano 2011.</p><p>Mais do que seu estilo elegante e seu talento literário, a opção pelos pequenos e pelos anônimos é o que faz a diferença nos textos de Gay Talese.</p><p>&nbsp;</p><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/aos-olhos-da-multidao-fama-anonimato/' addthis:title='Aos olhos da multidão (Fama &amp; Anonimato) '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/aos-olhos-da-multidao-fama-anonimato/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>6</slash:comments> </item> <item><title>Histórias do Brasil profundo</title><link>http://www.caotico.com.br/historias-do-brasil-profundo-2/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/historias-do-brasil-profundo-2/#comments</comments> <pubDate>Fri, 20 May 2011 10:53:12 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[AI-5]]></category> <category><![CDATA[boas práticas]]></category> <category><![CDATA[Correio da Manhã]]></category> <category><![CDATA[interior]]></category> <category><![CDATA[jornalista]]></category> <category><![CDATA[Márcio Moreira Alves]]></category> <category><![CDATA[O Globo]]></category> <category><![CDATA[reportagem]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1405</guid> <description><![CDATA[A leitura de Histórias do Brasil Profundo tinha tudo para ser rápida. Não bastassem meu interesse pelo tema pra lá de contemporâneo &#8211; o Brasil que dá certo interior adentro -, e o respeito que sempre tive pelo autor, Márcio Moreira Alves, o livro é fininho, formado por algumas dezenas de textos bem curtos. As [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/historias-do-brasil-profundo-2/' addthis:title='Histórias do Brasil profundo '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/05/Brasilprofundo1.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-1407" title="Brasilprofundo" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/05/Brasilprofundo1.jpg" alt="" width="101" height="150" /></a>A leitura de Histórias do Brasil Profundo tinha tudo para ser rápida. Não bastassem meu interesse pelo tema pra lá de contemporâneo &#8211; o Brasil que dá certo interior adentro -, e o respeito que sempre tive pelo autor, Márcio Moreira Alves, o livro é fininho, formado por algumas dezenas de textos bem curtos.</p><p>As coisas não andaram como previsto. Já fazem duas semanas que, por mais desgosto que tenho em admitir, minha prioridade não é a leitura. Estou lendo, quando muito, meia hora diária, tempo que sobra do mergulho nas profundezas do Pajeú, pois tempo disponível é tempo para sentar e batucar os capítulos do livro com as histórias dos poetas sertanejos.</p><p>A dedicação aos meus próprios escritos não explica tudo. Histórias do Brasil Profundo também não ajudou muito, pois Moreira Alves, que na época da publicação era colunista do Globo, entrega menos do que promete. Ou, para ser mais condescendente, entrega algumas encomendas que não foram prometidas nem solicitadas. </p><p>O problema é que, nas páginas de apresentação, o próprio autor define a expressão “Brasil profundo” como os locais onde brasileiros fazem as coisas acontecerem longe dos olhos da mídia, o Brasil não-oficial e invisível. Os primeiros capítulos desmentem esse seu compromisso.</p><p>O texto sobre o sucesso da produção de uvas e vinhos finos no Vale do rio São Francisco é o exemplo ideal dessa contradição. Seu texto conciso, sem exageros, ganha ares de espanto diante dos parreirais das grandes fazendas do sertão pernambucano e baiano. Ora, esse material foi publicada originalmente em dezembro de 2001, dois anos antes de se transformar em trecho do capítulo 1 do livro. Nessa época, tenho certeza do que digo, a vitivinicultura no São Francisco já tinha deixado de ser novidade para qualquer veículo de comunicação de repercussão nacional.</p><p>Novidade para valer era em 1988, 1989, quando tomei litros e litros do vinho Milano inteiramente grátis na casa de Tereza, antes do pai dela, Zé Gualberto, mudar o nome do danado para Botticelli.</p><p>Há também uma secção enorme do livro destinado aos programas sociais da Bahia, descritos como quase miraculosos, na época do carlismo. ACM, por sinal, é citado com aura de gestor público moderno. Aí, quem ficou espantado fui eu. Fiquei me perguntando onde tinha ido parar, naquele momento, o espírito crítico de um sujeito tão honrado quando Márcio Moreira Alves.</p><p>Em meus anos de trabalho no Unicef, inúmeras vezes fiquei diante dos gráficos dos indicadores sociais dos estados nordestinos, sempre ao lado de uns craques em monitoramento e avaliação de políticas públicas. Esses gráficos diziam a mesma coisa: o atraso da Bahia em educação e saúde nos anos de 2003, 2004 e 2005 só era menor do que no Maranhão de Sarney e nas Alagoas dos senhores de engenho.</p><p>Crítica feita, deixarei o azedume de lado, afinal o livro tem muitos méritos. O maior deles é a própria opção de Márcio Moreira Alves, em meio a uma mídia majoritariamente denuncista, superficial e urbana, se dispor a andar pelo país para conhecer e dar visibilidade aos resultados obtidos por brasileiros que se esforçam e fazem o que deve ser feito.</p><p>Emociona imaginar essa disponibilidade num homem com mais de 60 anos, que, por ter vivido e testemunhado momentos importantes da história do Brasil, poderia se considerar realizado e simplesmente escrever sua coluna com a bunda na cadeira, cagando regras depois de conversar com dois ou três burocratas.</p><p>Suas colunas semanais eram um sopro de ar fresco no ambiente estagnado que são as páginas dos jornais.</p><p>Em um dos textos originados das suas viagens pela Bahia, ele assume claramente, sem meias palavras, sua posição a favor das ações afirmativas em favor da população negra. Mais adianta, encanta-se com um projeto do governo de Minas Gerais de levar escritores consagrados para conversar cara-a-cara com professores e estudantes de escolas do interior.</p><p>E isso tudo com um texto sem gorduras, pois sabia dizer o que pensava e contar o que via com clareza, sem dar margens a interpretações equivocadas.</p><p>Apesar de tudo, valeu tanto a pena essa leitura que me animei a, nas próximas semanas, contar minhas próprias histórias do Brasil profundo.</p><p>&nbsp;</p><p><strong>Sobre o escritor</strong></p><p><strong><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/05/marciomalves-150x1201.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1406" title="marciomalves-150x120" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/05/marciomalves-150x1201.jpg" alt="" width="150" height="120" /></a><br /> </strong></p><p><a href="http://www.marciomoreiraalves.com/">Márcio Moreira Alves</a> nasceu no Rio de Janeiro, descendente da família Mello Franco, de onde saíram políticos, intelectuais e ministros de estado. Como jornalista, ganhou fama nacional em 1957, quando foi cobrir a crise política de Alagoas e acabou levando um tiro. Ficou famoso porque, mesmo ferido, transmitiu um telegrama com a notícia do <a href="http://www.caotico.com.br/curral-da-morte">tiroteio na Assembleia Legislativa</a> para o Correio da Manhã. Em 1968, já deputado federal pelo MDB, fez um discurso que emputeceu tanto os milicos que serviu de pretexto para o AI-5, coisa que a linha-dura verde-oliva ia fazer de um jeito ou de outro.<strong><br /> </strong></p><p>&nbsp;</p><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/historias-do-brasil-profundo-2/' addthis:title='Histórias do Brasil profundo '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/historias-do-brasil-profundo-2/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>Como se fosse ontem (quatro)</title><link>http://www.caotico.com.br/como-se-fosse-ontem-escola-base/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/como-se-fosse-ontem-escola-base/#comments</comments> <pubDate>Wed, 11 May 2011 01:49:56 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Elocubrações]]></category> <category><![CDATA[Diário Popular]]></category> <category><![CDATA[editoria de polícia]]></category> <category><![CDATA[Jorge de Miranda Jordão]]></category> <category><![CDATA[jornalismo]]></category> <category><![CDATA[Mídia]]></category> <category><![CDATA[Miranda Jordão]]></category> <category><![CDATA[reportagem]]></category> <category><![CDATA[repórter]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1370</guid> <description><![CDATA[Antônio Carlos chegou da rua alegre que só menino com brinquedo novo. Quando tinha um furo ou uma boa história nas mãos, exibia um sorriso pela metade e tentava aparentar uma modéstia tão falsa quanto tang de laranja. O foda é que, como poucos, ele sabia cultivar uma fonte graças a uma virtude rara em [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/como-se-fosse-ontem-escola-base/' addthis:title='Como se fosse ontem (quatro) '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/05/escola_base.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1371" title="escola_base" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/05/escola_base.jpg" alt="" width="243" height="164" /></a>Antônio Carlos chegou da rua alegre que só menino com brinquedo novo. Quando tinha um furo ou uma boa história nas mãos, exibia um sorriso pela metade e tentava aparentar uma modéstia tão falsa quanto tang de laranja. O foda é que, como poucos, ele sabia cultivar uma fonte graças a uma virtude rara em repórteres: não sei como fazia, mas não deixava transparecer sua ansiedade para arrancar uma informação.</p><p>Numa equipe de companheiros acostumados a jogar juntos, era o único que não conseguia esconder a ambição sob os lençóis da cumplicidade. Creio que, por essa razão, estava longe de ser uma unanimidade na editoria de Polícia. Naquela tarde, contudo, ninguém discordou: a história era simplesmente do caralho.</p><p>Era notícia com repercussão nacional na certa: o diretor de uma escola de jardim-da-infância acusado de promover sessões de filmes pornô para criancinhas de três, quatro, cinco anos de idade, e ocultar os terríveis crimes de um tarado que abusava dos alunos que transportava de casa para a escola e da escola para casa em sua van. A quadrilha de criminosos sexuais mais hedionda da história do Brasil estava toda presa no xadrez da delegacia do Cambuci.</p><p>E o delegado passou tudo de mãos beijadas para Antônio Carlos. Com exclusividade, para aquele porra escrever sozinho.</p><p>Ele já batucava a abertura da matéria no computador quando a história foi contada para o pessoal responsável pelo fechamento no jornal, lá no aquário.</p><p>Era raro acontecer, mas Miranda Jordão fez questão de ouvir a história da boca do próprio repórter. E lá foi Antônio Carlos com todo seu entusiasmo. Contou, deu todos os detalhes, explicou como conseguiu a matéria, tudo bem explicadinho, crente que estava abafando.</p><p>- Esqueça. Não vamos dar uma linha dessa história.</p><p>E se fez o silêncio. Secretários de redação, editores, secretário-gráfico, editor de fotografia, todos acostumados a temer e acatar respeitosamente daquele homem enérgico, elegante, de cabelos brancos e grandes olhos azuis, desta vez duvidaram de sua sanidade mental.</p><p>Seu argumento foi único e cortante:</p><p>- Isso tá com cara de armação. É tudo mentira.</p><p>Era definitivo, não havia recursos.</p><p>Nos poucos minutos em que permaneceu no aquário, o dono do permaneceu na moita, não discordou nem concordou. Na redação, entrou em desespero, alternando momentos de fúria e indignação. Não publicar aquele material era algo tão estapafúrdio que acabou recebendo a solidariedade unânime.</p><p>No dia seguinte, ao não encontrar uma linha sobre seu excelente trabalho policial, o delegado arretou-se. Chamou a Rede Globo, a Folha, o Estadão, o escambau, e distribuiu a notícia para quem tivesse interesse. Dois dias depois da entrada triunfal de Antônio na redação, os jornais do Brasl estamparam  o escândalo da Escola Base em suas primeiras páginas, as TVs ultrapassaram todos os limites com a história. As rádios só falavam nisso em tempo integral.</p><p>A histeria tomou conta da população do Cambuci. Instigada por manchetes e chamadas dos telejornais, a vizinhança jogou pedras, invadiu, saqueou a escola. Lembro de uma repórter de TV, dentro da escola depredada, exibindo as provas do delito sexual: fitas VHS do Mickey. Não há licença poética aqui.</p><p>O Diário Popular não deu nada, absolutamente nada. Nem uma notinha. O jornal que melhor cobria violência e temas populares em São Paulo ignorou solenemente o assunto. Ninguém entendeu. Nós, os repórteres, respondíamos com muxoxos às gracinhas que escutávamos todos os dias dos colegas de outros veículos. Os leitores fiéis do Dipo, apelaram para os concorrentes.</p><p>Quinze dias depois, o novo escândalo:</p><p>Era tudo mentira. Armação grosseira.</p><p>Os donos da Escola Base eram inocentes. O perueiro Maurício, inocente.</p><p>A mãe que acusou os educadores e o motorista, uma mulher de origem coreana, não queria enxergar a verdade: era seu marido que exibia pornografia para os dois filhos. Por isso, os meninos sabiam tanta putaria.</p><p>Histérica, a mídia brasileira foi arrastada pela fantasia de uma covarde e pela irresponsabilidade de um policial.</p><p>Elegante, Miranda Jordão novamente não publicou uma linha sobre a desmoralização da Folha, do Estadão, da Globo, do Aqui e Agora, do Jornal da Tarde, da Folha da Tarde.</p><p>Um ano depois, eu já não estava no Diário e sim em O Globo. Meu chefe, não lembro se Luís Carlos Azedo ou Joel Santos Guimarães, me passou a pauta: lembrar o aniversário do caso Escola Base fazendo uma entrevista com Ayres Shimada, o antigo dono da escolinha.</p><p>Ele só concordou em falar comigo quando eu disse que tinha trabalhado no Diário Popular e era amigo de Antônio Carlos. Na época, ele sobrevivia dos trocados que conseguia operando uma máquina xerox na praça da Sé. Foi o que lhe restou.Isso e as lembranças do massacre moral sofrido. Do que ele me contou, recordo poucas coisas, entre elas algo que me surpreendeu: foi espancado pelo delegado Edélcio Lemos diante de W., repórter da Globo, que até hoje permanece na emissora.</p><p>Em 1998, entrevistei Miranda Jordão por telefone para o Diário de Pernambuco. Perguntei qual a razão de não ter publicado sequer a informação que a acusação contra os donos da escola era injusta. Sua resposta foi áspera, para variar:</p><p>- Porque aquilo nunca existiu para o Diário Popular.</p><p>- Como você sabia? O que fez você não publicar a notícia do escândalo antes de todo mundo?</p><p>- Instinto.</p><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/como-se-fosse-ontem-escola-base/' addthis:title='Como se fosse ontem (quatro) '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/como-se-fosse-ontem-escola-base/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>7</slash:comments> </item> <item><title>A alma encantadora das ruas</title><link>http://www.caotico.com.br/a-alma-encantadora-das-ruas/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/a-alma-encantadora-das-ruas/#comments</comments> <pubDate>Sun, 13 Mar 2011 23:01:40 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[crônica]]></category> <category><![CDATA[João do Rio]]></category> <category><![CDATA[jornalismo literário]]></category> <category><![CDATA[New Journalism]]></category> <category><![CDATA[reportagem]]></category> <category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1253</guid> <description><![CDATA[Antes de Gay Talese ou Truman Capote, longe de Nova York ou do Kansas, um gordinho cheio de mungangas chamado Paulo Barreto misturou jornalismo e criação literária em textos publicados por jornais e revistas do Rio de Janeiro nas duas primeiras décadas do século XX. Ele assinava seus escritos como João do Rio e, com [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/a-alma-encantadora-das-ruas/' addthis:title='A alma encantadora das ruas '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/03/alma_encantadora.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-1254" title="alma_encantadora" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/03/alma_encantadora.jpg" alt="" width="127" height="184" /></a>Antes de Gay Talese ou Truman Capote, longe de Nova York ou do Kansas, um gordinho cheio de mungangas chamado Paulo Barreto misturou jornalismo e criação literária em textos publicados por jornais e revistas do Rio de Janeiro nas duas primeiras décadas do século XX. Ele assinava seus escritos como João do Rio e, com esse nome, ficou conhecido como um dos pais da crônica como gênero literário.</p><p>A primeira vez que tive contato com sua obra foi há pouco mais de 10 anos, graças a uma sofisticada edição de bolso de <em>A alma encantadora das ruas</em>, publicada pela Companhia das Letras em 1997 e perdida em meios às dores do fim de um casamento. No início desse ano, preparando uma oficina sobre Jornalismo e Literatura, lembrei de um texto sobre as casas de ópio do Rio e tornei a comprar um exemplar de uma nova edição de bolso, desta vez mais popular e com preço mais em conta.</p><p>Na releitura, percebi a grande diferença entre os criadores do New Journalism norte-americano e o processo de criação de João do Rio. Talvez minha percepção e meu raciocínio sejam muitos simplórios, mas arriscaria dizer que a turma de Talese, Capote e Tom Wolfe adicionaram vários elementos de técnicas literárias à construção de reportagens. João do Rio, introduziu elementos de reportagem em páginas que eram cativas de escritores, poetas e políticos de tudo quanto é qualidade.</p><p>O pessoal do New Journalism introduziu os sentimentos, pensamentos e caracterização de personagens, linguagem poética e descrição subjetiva de cenas ou acontecimentos num ambiente em que as notícias ou artigos dos jornais e da maioria das revistas buscavam princípios como subjetividade, neutralidade, distanciamento. Emoção zero, portanto.</p><p>João do Rio foi na mesma direção, mas fez o caminho inverso. Num contexto em que jornais eram usados como panfletos de grupos políticos ou plataformas de grandes escritores ou medíocres beletristas, ele foi às ruas tomar banho de vida real. Banho de imersão, é bom dizer. Ele testemunhou, acompanhou e conferiu de perto as transformações da cidade do século XIX, antiga capital do Império, que se transformava em capital da República, metrópole do século XX.</p><p>Ao contrário do que li <a href="http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/a/a_alma_encantadora_das_ruas">numa boa resenha disponível na web</a>, não considero <em>A alma encantadora das ruas</em> um livro homogêneo. O primeiro texto, por exemplo, intitulado simplesmente “A rua”<em> </em>é uma espécie de apresentação ou cartão de visitas do autor. As razões de ser do livro estão todas ali, numa prosa impregnada dos cacoetes da linguagem que hoje não facilitam a leitura dos desavisados.</p><p>O melhor do livro, porém, é o que vem logo depois. As crônicas e artigos resultantes da observação da cultura e da organização do trabalho no Rio são imperdíveis, mas foi o repórter João do Rio que escreveu obras históricas como “Os trabalhadores da estiva” ou seis textos produzidos logo depois de uma série de visitas ao presídio, provavelmente o Frei Caneca.</p><p>Uma característica marcante de João do Rio é sua capacidade de enxergar a vida e a humanidade de pessoas completamente ignoradas pela literatura e pelo jornalismo da época. Estivadores e prostitutas só saíam da invisibilidade completa em caso de crimes ou tragédias, mas João do Rio ignorou essa regra não escrita ao revelar delicadamente as angústias de mulheres cumprindo pena ou o apego de assassinos e golpistas à monarquia recém-extinta.</p><p>É bom fazer um alerta: as imagens elaboradas pelo autor para definir algumas situações eram rebuscadíssimas, bem ao estilo do século anterior. Um exemplo? “Essas venenosas parasitas do amor torpe num campo perdido do jardim do crime”. Ele está se referindo a mulheres presas por crimes passionais.</p><p>O rebuscamento não é obstáculo para o leitor melhorar o vocabulário e passar a se expressar com mais riqueza. Recorri ao dicionário pelo menos 44 vezes para encontrar palavras saborosas como pifão (bebedeira) ou charivari (confusão, balbúrdia), mas que caíram em desuso ao longo dos 103 anos que separam a primeira edição do livro e o momento em que você está lendo o Caótico.</p><p><strong>Sobre o escritor</strong></p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/03/JoãodoRio.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-1255" title="JoãodoRio" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/03/JoãodoRio-240x350.jpg" alt="" width="240" height="350" /></a></p><p>Gordinho, elegante, luxento, afetado e homossexual, João do Rio era figurinha fácil no Rio de Janeiro entre 1900 e 1921, quando morreu do coração dentro de um bonde. Traduziu a cidade e seu povo com tanto talento que seu velório e enterro foram acompanhados por uma multidão de gente simples que se identificava com aquilo que escrevia.</p><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/a-alma-encantadora-das-ruas/' addthis:title='A alma encantadora das ruas '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/a-alma-encantadora-das-ruas/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>7</slash:comments> </item> <item><title>O reino e o poder</title><link>http://www.caotico.com.br/o-reino-e-o-poder/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/o-reino-e-o-poder/#comments</comments> <pubDate>Sun, 27 Feb 2011 14:19:03 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[anos 60]]></category> <category><![CDATA[Gay Talese]]></category> <category><![CDATA[jornal]]></category> <category><![CDATA[jornalismo]]></category> <category><![CDATA[jornalismo literário]]></category> <category><![CDATA[livro-reportagem]]></category> <category><![CDATA[New Journalism]]></category> <category><![CDATA[New York]]></category> <category><![CDATA[New York Times]]></category> <category><![CDATA[reportagem]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1233</guid> <description><![CDATA[Escrever uma puta reportagem sobre os bastidores de um grande jornal, as intrigas internas da redação e sua relação com o poder político e econômico parece ser uma excelente proposta numa época em que boa parte da sociedade começa a colocar a mídia na berlinda. É verdade: a ideia é tão boa, e óbvia, que [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/o-reino-e-o-poder/' addthis:title='O reino e o poder '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/02/reino_poder.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-1234" title="reino_poder" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/02/reino_poder.jpg" alt="" width="140" height="202" /></a>Escrever uma puta reportagem sobre os bastidores de um grande jornal, as intrigas internas da redação e sua relação com o poder político e econômico parece ser uma excelente proposta numa época em que boa parte da sociedade começa a colocar a mídia na berlinda. É verdade: a ideia é tão boa, e óbvia, que já foi executada há mais de 40 anos pelo jornalista americano Gay Talese.</p><p>É preciso mais do que uma ótima ideia para construir uma obra memorável. E, ao publicar <em>O reino e o poder – uma história do New York Times</em>, Talese fincou um marco histórico do chamado New Journalism ao expor com riqueza de detalhes o funcionamento do coração, do cérebro, do fígado e até mesmo um pouco do intestino do jornal mais importante do planeta entre os anos 30 e final dos anos 60.</p><p>O livro de Talese é composto por uma fórmula que contêm doses maciças de transpiração e justa medida de inspiração. O trabalho de reportagem exaustivo, detalhista, reflete-se numa linguagem tão sóbria quanto a do NYT. Em nenhum momento a leitura de confunde com a de um romance, como acontece, por exemplo, com <em>A sangue frio</em>, de Truman Capote.</p><p>A sobriedade do estilo não é sinônimo de frieza. A apuração é tão rica que o leitor é tragado para o mundo do New York Times e dos muitos homens e das poucas mulheres que o construíram. E o mergulho nesse mundo inclui conhecer até a infância dos seus proprietários, como o do fundador Adolpho Ochs, e de alguns dos seus jornalistas.</p><p>A edição do ano 2000 da Companhia das Letras, a primeira lançada no Brasil, inclui um posfácio curto, escrito oito anos antes, em que o autor revela alguns detalhes do trabalho de pesquisa e apuração que realizou no final dos anos 60. Ele explica como os jornalistas e executivos revelaram seus sentimentos, sensações, pensamentos e pressentimentos em momentos decisivos ou em meio a crises. E recorda que teve acesso aos diários e álbuns de família cedidos pelos representantes da dinastia Ochs-Sulzberger que, não fizeram qualquer tipo de censura prévia ao livro. Dá para imaginar um comportamento decente assim por parte dos Marinho, dos Mesquita ou dos Frias?</p><p>O relato da greve dos tipógrafos, há meio século, que tirou de circulação todos os jornais nova-iorquinos durante quatro meses dá a dimensão dos princípios e das contradições dos donos do NYT.</p><p>Sem jornal, os jornalistas permaneceram na redação sem fazer nada, no máximo jogando cartas. Um deles, Raskin, especialista nos temas de relações trabalhistas, resolveu cobrir a greve e preparar uma reportagem completa para ser publicada quando os jornais voltassem às ruas. Durante a apuração, o sujeito constatou que uma das causas para o impasse nas negociações era a postura arrogante e a inabilidade do representante dos patrões. Quem era esse representante? O vice-presidente do próprio New York Times. Raskin não estava nem aí para isso e passou semanas tentando entrevistá-lo.</p><p>No final da greve, a reportagem foi publicada na íntegra, sem cortes, e não poupou o vice-presidente. Garanto: fosse em qualquer jornal brasileiro, o repórter nem começaria a fazer a matéria, seria demitido assim que tomasse a iniciativa. Foi esse compromisso de levar informações objetivas ao público, seu compromisso com a sociedade, que fez o NYT ser tão influente e importante.</p><p>Contando as histórias dos homens que escreviam, revisavam e editavam o jornal todos os dias, o autor conta a história da instituição, contraditória e complexa como aqueles que a fazem, pois, muitas vezes, o compromisso público esbarrava na próprio peso político da publicação.</p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/02/primeira-página-NYT.gif"><img class="alignleft size-medium wp-image-1236" title="primeira página NYT" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/02/primeira-página-NYT-350x275.gif" alt="" width="203" height="159" /></a>Em todas as centenas de páginas que escreveu, Talese deixa claro que, há quatro décadas, já não alimentava ilusões a respeito da imparcialidade dos meios de comunicação. As íntimas relações da empresa e da família com democratas e republicanos são apresentadas em detalhes, às vezes tão promíscuos que um chefe de sucursal chegava a dar opiniões a respeito de projetos de lei que deveriam ser encaminhadas ao Congresso.</p><p>Demonstrar com exemplos concretos que a mídia não é reflexo da realidade, não é o reflexo imparcial e isento daquilo da realidade, mas parte interessada nas decisões políticas, é um grande serviço que o autor presta a quem lê <em>O reino e o poder</em>.</p><p>O livro acrescenta episódios que ajudam a compreender um pouco melhor o mundo naqueles anos. Ficamos sabendo, por exemplo, que as matérias enviadas pelo correspondente em Moscou nos tempos da Guerra Fria eram censuradas pelo soviético, mas o jornal decidiu não deixar isso claro para seus leitores, pois o alerta de que a notícia tinha sido censurada pelos comunistas poderia criar um precedente e levar o jornal a admitir que as matérias do correspondente em Tel-Aviv também eram censuradas pelo governo de Israel.</p><p>A naturalidade com que os editores encaravam aquilo que no Brasil chamamos de  “brodagem” me surpreendeu. Descobri que a prática de fulano elogiar sicrano hoje para que, amanhã, sicrano elogie fulano, não é tão provinciana assim. Provincianos devem ser aqueles que vivem repetindo que isso só acontece na província, jamais em Nova York.</p><p>Mesmo com tantas entrevistas, com tantas horas escutando tanta gente, ele não abre mão de contar a história. Em nenhum momento o escritor usa as declarações que colheu para transferir a responsabilidade da narrativa para seus entrevistados. Ele não se esconde por trás do recurso das aspas e também não foge de interpretar os fatos que constatou ao longo de sua pesquisa. Depois de traçar inúmeros perfis dos repórteres e editores seu olhar crítico concluiu que os melhores repórteres eram aqueles que nasceram em famílias de classe média baixa, pois não encaravam as tarefas de “meter  o bedelho nos negócios dos outros, correr atrás de informações, esperar do lado de fora da porta” como atividades indignas.</p><p>Os mais ricos não precisavam assinar matérias para satisfazer sua necessidade de reconhecimento, afinal não tinham essa necessidade. Já os muito ricos preferiam comprar seus próprios jornais.</p><p><strong>Sobre o escritor</strong></p><p><strong><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/02/gay-talese-600.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-1235" title="gay-talese-600" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/02/gay-talese-600-350x210.jpg" alt="" width="257" height="154" /></a><br /> </strong></p><p>Gay Talese tem 79 anos e tem 11 livros publicados. Conviveu com boa parte dos seus personagens de <em>O reino e o poder</em> quando trabalhou como mensageiro (uma espécie de contínuo) no New York Times de 1953 a 1955 e, depois como, repórter de 1956 a 1965. Já participou de uma Flip há alguns anos e diz que conhece música brasileira, mas como gosta de Simone, não deve conhecer tanto assim.</p><ul><li><a href="http://www.randomhouse.com/kvpa/talese/index.html"><strong>Clique aqui para visitar a página pessoal de Gay Talese</strong></a></li></ul><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/o-reino-e-o-poder/' addthis:title='O reino e o poder '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/o-reino-e-o-poder/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>11</slash:comments> </item> <item><title>A emissora do bispo e a Transamazônica</title><link>http://www.caotico.com.br/a-emissora-do-bispo-e-a-transamazonica/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/a-emissora-do-bispo-e-a-transamazonica/#comments</comments> <pubDate>Tue, 15 Feb 2011 01:27:24 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Elocubrações]]></category> <category><![CDATA[André Tal]]></category> <category><![CDATA[Domingo Espetacular]]></category> <category><![CDATA[Edir Macedo]]></category> <category><![CDATA[jornalismo]]></category> <category><![CDATA[Rede Globo]]></category> <category><![CDATA[Rede Record]]></category> <category><![CDATA[reportagem]]></category> <category><![CDATA[telejornalismo]]></category> <category><![CDATA[televisão]]></category> <category><![CDATA[TV]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1222</guid> <description><![CDATA[Mergulhado até os cabelos na leitura de um clássico daquilo que costuma ser chamado pelos norte-americanos de Jornalismo Literário, ou new journalism, não dá para mudar de foco e escrever sobre outra coisa lida no passado. Ando cansado, tocando ou tentando tocar várias coisas simultaneamente, o que torna impossível a tarefa de procurar algo na [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/a-emissora-do-bispo-e-a-transamazonica/' addthis:title='A emissora do bispo e a Transamazônica '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/02/Transamazonica.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1223" title="Transamazonica" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/02/Transamazonica-350x260.jpg" alt="" width="238" height="176" /></a>Mergulhado até os cabelos na leitura de um clássico daquilo que costuma ser chamado pelos norte-americanos de Jornalismo Literário, ou new journalism, não dá para mudar de foco e escrever sobre outra coisa lida no passado. Ando cansado, tocando ou tentando tocar várias coisas simultaneamente, o que torna impossível a tarefa de procurar algo na estante e na memória, como já fiz outras vezes para manter o blog atualizado. Isso exigiria uma energia que não tenho, não agora pelo menos.</p><p>A saída foi trocar de mídia e escrever sobre a televisão. Para ser mais preciso, escrever elogios a respeito de um programa dominical, um acontecimento raro na minha vida, pois gasto tão pouco do meu tempo em frente à TV que é comum ser surpreendido escutando conversas em que os interlocutores falam de atrações que fizeram sucesso e saíram do ar sem que eu jamais tivesse ouvido falar delas. Defeito irreparável para quem &#8211; ainda &#8211; trabalha com comunicação.</p><p>Foi <a href="http://noticias.r7.com/videos/veja-os-perigos-que-correm-os-indios-com-a-chegada-da-transamazonica-no-am/idmedia/cd9d7c494a725c86b14080bd83191d05.html">uma reportagem sobre a Transamazônica no Domingo Espetacular da Record</a>, que jogou caroços de esperança no estéril solo da minha apatia. Ao final da matéria, pelo que entendi parte integrante de uma série sobre a estrada, passei a acreditar que a TV pode ser feita com inteligência e sobriedade, com ótimos padrões éticos e estéticos.</p><p>Apesar de cara, não há novidade na pauta: uma equipe de reportagem da TV está percorrendo a Transamazônica de uma ponta a outra, registrando o que encontram pela frente. O jornalismo é cheio dessas coisas de repórter botando o pé no mundo. A diferença está no enfoque, nas informações que são levadas ao ar, no respeito à voz dos entrevistados.</p><p>Para começar, a edição do material que foi levado ao ar desafiou a lógica da TV. Não há economia de tempo. Em mais de 18 minutos de reportagem, quase um documentário em curta-metragem, o repórter André Tal pôde tratar a complexidade da vida dos índios Tenharim, um povo que teve suas terras cortadas pela estrada na década de 70 e, por isso, cobra pedágio para os carros atravessarem a reserva. O preço a ser pago pelos motoristas é alto, mas não tanto quanto o que os Tenharim ainda têm que pagar.</p><p>As falas do cacique João Bosco e de sua esposa, Margarida, foram respeitadas, bem como sua angústia por não saber onde estava um filho que se perdeu na mata. O texto que apresentava os dois líderes da tribo não era meloso nem piegas como os textos da líder de audiência. André Tal e os editores da Record não tentaram reduzir os Tenharim a folclore.</p><p>De repente, o trabalho da equipe é interrompido pelos lamentos que chegam da floresta. O filho do cacique foi encontrado, assustado é verdade, mas inteiro. O acaso possibilitou que a não-notícia, o final feliz de um episódio envolvendo uma tribo de índios no interior do Amazonas, se transformasse em material jornalístico de primeira qualidade.</p><p>A sensibilidade do repórter e dos seus editores diante da diferença era de espantar quem está acostumado a acompanhar as ditas matérias “humanas” da TV brasileira. Ninguém tentou enquadrar ou rotular o choro e o lamento de pessoas que expressavam sua alegria desta forma. Nenhum profissional tentou “produzir” o choro no formato aceitável pelos padrões estéticos da emissora.</p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/02/andretal.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1224" title="andretal" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/02/andretal.jpg" alt="" width="194" height="145" /></a>O tal André Tal (perdão pelo trocadilho imbecil, mas não deu para segurar) prossegue seu caminho pela “estrada sem fim” – esse é o nome da série de reportagens especiais – e encontra Marlei, apelido improvável para um homem que mora sozinho numa barraca insalubre no meio da mata e vive dos enormes abacaxis que planta.</p><p>Com rosto sofrido, Marlei, ou melhor, Armando Magalhães de Souza, vive isolado, solitário, um personagem que facilmente seria rotulado como eremita ou homem das cavernas. Nem o repórter nem o programa caíram nessa tentação barata, apesar da narração às vezes desnecessária de Paulo Henrique Amorim.</p><p>É de emocionar as cenas em que o homem fala de sua solidão, das noites em que fica “imaginando os acontecimentos” em seu minúsculo abrigo. O repórter não tenta arrancar uma explicação, não força nada, apenas nos apresenta um homem sozinho.</p><p>No final, deu vontade de aplaudir.</p><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/a-emissora-do-bispo-e-a-transamazonica/' addthis:title='A emissora do bispo e a Transamazônica '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/a-emissora-do-bispo-e-a-transamazonica/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>8</slash:comments> </item> <item><title>Operação Massacre (agora, a opinião do editor)</title><link>http://www.caotico.com.br/operacao-massacre-agora-a-opiniao-do-editor/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/operacao-massacre-agora-a-opiniao-do-editor/#comments</comments> <pubDate>Sun, 30 Jan 2011 18:06:38 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[América Latina]]></category> <category><![CDATA[Argentina]]></category> <category><![CDATA[ditadura]]></category> <category><![CDATA[ditaduras militares]]></category> <category><![CDATA[jornalismo]]></category> <category><![CDATA[jornalismo literário]]></category> <category><![CDATA[literatura latino-americana]]></category> <category><![CDATA[reportagem]]></category> <category><![CDATA[repressão]]></category> <category><![CDATA[Rodolfo Walsh]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1187</guid> <description><![CDATA[A partir de hoje, voltamos à nossa programação normal. Foi o Caótico que me levou a Rodolfo Walsh e a Operação Massacre. Até o dia em que editei o texto enviado por Samarone Lima para registrar e comemorar o lançamento da primeiríssima edição brasileira do livro de Rodolfo Walsh, nunca tinha ouvido falar desse argentino [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/operacao-massacre-agora-a-opiniao-do-editor/' addthis:title='Operação Massacre (agora, a opinião do editor) '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><strong>A partir de hoje, voltamos à nossa programação normal.</strong></p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/01/operaçãomassacre.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1188" title="operaçãomassacre" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/01/operaçãomassacre-233x350.jpg" alt="" width="116" height="174" /></a>Foi o Caótico que me levou a Rodolfo Walsh e a <em>Operação Massacre</em>. Até o dia em que editei <a href="http://www.caotico.com.br/operacao-massacre/">o texto enviado por Samarone Lima</a> para registrar e comemorar o lançamento da primeiríssima edição brasileira do livro de Rodolfo Walsh, nunca tinha ouvido falar desse argentino ou da sua obra.</p><p>Abro parênteses para registrar que, ao descobrir Walsh por causa do blog, percebi com mais clareza qual a razão de ser do Caótico. E, sem modéstia, o quanto foi boa minha idéia. Fecho parênteses e volto ao que interessa.</p><p>Outra coisa que constatei claramente foi o tamanho da minha ignorância, bem como da minha ilusão de ser um bom leitor. Como um sujeito pode passar 42 anos desconhecendo completamente um livro desse porte e acreditar que conhece alguma coisa de jornalismo ou de América Latina?</p><p>Resta o consolo: minha ignorância não é solitária, estou acompanhado de outros milhares de leitores que, graças às opções e estratégias das editoras brasileiras, jamais tiveram a oportunidade de conhecer a intensa reportagem de Rodolfo Walsh.</p><p>Se alguém souber explicar por qual razão <em>Operação Massacre </em>nunca foi lançado no Brasil, favor explicar nos comentários. O livro, afinal, foi lançado na Argentina em 1957, época em que respirávamos ares relativamente democráticos. O mais esquisito é que, nem mesmo após o relaxamento da ditadura, no período que se seguiu à lei da anistia, editores como Ênio Silveira e sua Civilização Brasileira tomaram a iniciativa de publicá-lo.</p><p>A história é complexa, repleta de lacunas e incertezas, mas um resumo curto dá idéia da força que tem para agarrar o leitor pelo pé. Os peronistas, destituídos por um golpe militar, tentam dar o troco na mesma moeda em 1956. Se dão mal. Em poucas horas de tiroteio, estão derrotados sem dó nem piedade. Democraticamente, os líderes são fuzilados sem julgamento, na nora que nem caldo de cana.</p><p>Um grupo de operários – a maioria sem militância ou engajamento político -, se reúnem na casa de um vizinho que tinha rádio para escutar uma luta de boxe, disputa de título sul-americano, coisa importante numa época em que o boxe era um esporte respeitável. O chefe de polícia Fernando Suárez, sanguinário, irresponsável e incompetente, acredita ter descoberto um foco de resistência peronista e prende todo mundo. Depois, com a rebelião já controlada, manda fuzilar os presos. Por quê? Ora, porque o senhor Suárez assim desejava e pronto.</p><p>Alguns escapam da morte. Mesmo assim, seis meses depois, só a comunidade e as famílias de mortos e sobreviventes conhecem a história, que chega aos ouvidos de Walsh, jornalista, bom escritor de romances policiais e apartidário por definição. É evidente que ele tinha um filé nas mãos. E tratou de seguir a linha que cruzou seu caminho.</p><p>Walsh mudou de identidade e, como nas histórias de que lia e escrevia, se transformou num detetive independente para investigar o crime cometido pela polícia de Buenos Aires. Com o novelo desenrolado, ele tinha nas mãos uma imensa reportagem. Coisa boa, material de primeira. Então, ofereceu aos jornalões e revistas de circulação nacional. A turma que hoje se julga dona da “liberdade de expressão” não topou a parada. Walsh ainda acreditava no jornalismo e ficou de queixo caído.</p><p>A história acabou saindo em publicações com tiragens minúsculas. Um ano depois foi publicada em forma de livro e entrou para a história como um dos mais importantes textos jornalísticos da América Latina. Os americanos ainda não tinham inventado o termo “jornalismo literário” ou “new journalism”, pois Walsh seguiu por essa trilha uma década antes da turma de Capote, Talese e Wolfe.</p><p>O leitor sente o impacto do talento literário de Rodolfo Walsh logo nos primeiros parágrafos do prólogo, com a narração em primeira pessoa do que o autor viu e viveu na noite da tentativa de golpe peronista. As ferramentas do jornalismo não bastam para alguém definir a máquina repressiva de uma ditadura como “a grande divindade dos choques elétricos e das metralhadoras começa a trovejar&#8230;”. Para tanto, é preciso cérebro para ir além da objetividade.</p><p>Os curtos capítulos nos quais o autor apresenta os personagens do drama não deixam dúvidas de que o leitor está com literatura das boas em suas mãos. O argentino coloca as vítimas e sobreviventes do massacre bem perto de quem lê. O talento de escritor reduziu a nada os 55 anos que me separam do noite do fuzilamento. Senti as dores e as angústias de Livraga, Giunta, Mario, Garibotti e Nicolás Carranza. Walsh os trouxe para perto de mim.</p><p>Para quem tem algum interesse no jornalismo, seja como profissional da área ou como cidadão, a edição brasileira de <em>Operação Massacre</em> vem acompanhada de uma verdadeira aula sobre o assunto. Os diversos penduricalhos que o autor incorporou às várias edições argentinas publicadas enquanto ele ainda vivia, apesar de cansarem por conta das repetições de alguns trechos, revelam as técnicas do autor durante a investigação e contêm sérias reflexões sobre as relações entre poder e mídia na Argentina.</p><p><strong>Sobre o escritor</strong></p><p><strong><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/01/rodolfo_walsh.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-1189" title="rodolfo_walsh" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/01/rodolfo_walsh-350x216.jpg" alt="" width="263" height="162" /></a></strong></p><p>Rodolfo Walsh nasceu na Patagônia e pretendia seguir carreira literária como autor de ficção policial. Era especialista na história desse gênero, mas <em>Operação Massacre </em>mudou sua vida. A impunidade dos assassinos e a postura da imprensa argentina radicalizou suas posições políticas. De apartidária confesso, passou a militar no peronismo e, na década de 70, atuou na retaguarda na guerrilha urbana dos montoneros. Em 1977, distribuiu uma carta aberta endereçada à junta militar, nome oficial do chefes da quadrilha que derrubou a presidenta democraticamente eleita Isabelita Martínez. No dia seguinte, desapareceu. A “carta aberta” foi sabiamente incluída pela Companhia das Letras na edição brasileira.</p><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/operacao-massacre-agora-a-opiniao-do-editor/' addthis:title='Operação Massacre (agora, a opinião do editor) '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/operacao-massacre-agora-a-opiniao-do-editor/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>5</slash:comments> </item> </channel> </rss>
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