<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?> <rss version="2.0" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/" xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/" xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/" ><channel><title>Caótico &#187; Uruguai</title> <atom:link href="http://www.caotico.com.br/tags/uruguai/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" /><link>http://www.caotico.com.br</link> <description>Espaço de leituras,  histórias &#38; especulações &#124; Por Inácio França</description> <lastBuildDate>Tue, 07 Feb 2012 19:41:39 +0000</lastBuildDate> <language>en</language> <sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod> <sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency> <xhtml:meta xmlns:xhtml="http://www.w3.org/1999/xhtml" name="robots" content="noindex" /> <item><title>A vida breve</title><link>http://www.caotico.com.br/a-vida-breve/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/a-vida-breve/#comments</comments> <pubDate>Mon, 29 Aug 2011 19:28:30 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[crítica literária]]></category> <category><![CDATA[fluxo de consciência]]></category> <category><![CDATA[Juan Carlos Onetti]]></category> <category><![CDATA[literatura latino-americana]]></category> <category><![CDATA[literatura uruguaia]]></category> <category><![CDATA[Uruguai]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=1551</guid> <description><![CDATA[Eu, que atravessei com desenvoltura milhares de páginas de Dostoievski, que considero Machado de Assis uma delícia, que dediquei horas de prazer, paciência e atenção para ir do inferno ao céu com Dante; eu, que me julgava capaz de devorar em poucos dias romance latino-americano, me lasquei todinho na leitura de A vida breve. Juan [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/a-vida-breve/' addthis:title='A vida breve '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/08/Vida-Breve-Onetti-2.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-1552" title="Vida Breve Onetti (2)" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/08/Vida-Breve-Onetti-2.jpg" alt="" width="123" height="180" /></a>Eu, que atravessei com desenvoltura milhares de páginas de Dostoievski, que considero Machado de Assis uma delícia, que dediquei horas de prazer, paciência e atenção para ir do inferno ao céu com Dante; eu, que me julgava capaz de devorar em poucos dias romance latino-americano, me lasquei todinho na leitura de <em>A vida breve</em>.</p><p>Juan Carlos Onetti, o autor, é considerado um mestre da literatura do século XX, tanto por ter inovado a estrutura da narrativa quanto pela lucidez de apontar o fracasso e a mesquinhez do ser humano. Ele realmente é tudo isso e mais um pouco.</p><p>Seu <a href="http://www.onetti.net/">site oficial</a>, provavelmente mantido por sua família ou por discípulos fiéis, o trata como o “padrinho da literatura latino-americana”. Pode ser, mas nesse romance não foi capaz de me levar para um mundo novo e proporcionar prazer nessa aventura.</p><p>Como sempre faço, consultei outros críticos e resenhistas antes de escrever esse comentário. Tento não imitá-los, mas cruzar minhas impressões, idéias e opiniões com as de terceiros, muitas vezes gente que realmente entende do assunto. É praticamente um lugar-comum dizer que Onetti deixa o leitor chocado, estarrecido, assustado. Nada disso aconteceu comigo.</p><p>Reconheço o grande talento do uruguaio e as virtudes do seu livro, mas se é pra escolher um adjetivo para definir meu estado de espírito durante a maior parte da leitura, vou de aborrecido.</p><p>Cerebral, cada palavra em sua prosa parece ter sido escolhida cuidadosamente. Cada frase, laboriasamente estudada antes de chegar à forma final. O texto todo é permeado de descrições precisas de situações, de sentimentos, dos momentos vividos pelos personagens. Uma frase genial atrás da outra. Trechos como “&#8230;seu obstinado rastreamento de um motivo de felicidade, em homenagem a essa vontade de acreditar que você aceita e cultiva agora, neste momento em que o futuro pode ser calculado em minutos&#8230;”</p><p>Cérebro demais, coração de menos. Os personagens de <em>A vida breve </em>transitam em um mundo próprio, carregam o peso da falta de perspectivas nos ombros, mas parecem não sentir emoção alguma.</p><p>A vida não poupa ninguém, então Onetti também não poupa seus personagens. A barra pesa desde a primeira página, quando o protagonista Brausen passa em casa para dormir depois de deixar sua companheira Gertrudis no hospital. Com câncer no seio, ela se recupera de uma mastectomia. Sozinho, Brausen antecipa como será a convivência de ambos com uma cicatriz no lugar onde havia um peito. Porrada, desde o primeiro momento.</p><p>A estrutura inovadora o romance vai se esboçando também desde o início. Brausen recebe a encomenda de escrever um roteiro e começa a imaginá-lo: um médico de província, Dias Grey, que atende uma paciente gostosa, Elena Sala, e passa a fornecer morfina para ela sem maiores questionamentos éticos, só de olho na possibilidade de comê-la. É evidente que isto não é dito assim dessa forma. Esse, aliás, é grande mérito de Onetti: quando revela algo, faz aos poucos, o leitor vai montando o quebra-cabeça.</p><p>O roteiro nunca vai sequer para o papel, mas Brausen já não consegui largar a mão de Grey e de Santa Maria, a cidade fictícia criada por Onetti, sempre presente em seus livros subseqüentes.</p><p>As duas camadas narrativas (Brausen-Grey) logo se transformam em três quando o protagonista assume a personalidade de Arce, nome com que se apresenta à Queca, a mulher promíscua que mora no apartamento ao lado do seu e cuja vida ele já acompanhava escutando o que se passava do outro lado da parede do quarto.</p><p>Queca se prostitui, Brausen se aproveita disso e também a espanca sempre que lhe dá na telha, sem motivo e quase sem vontade.  Brausen não, o sacana é Arce. Brausen vai levando sua vida, desistindo dela aos poucos, desaparecendo para dar lugar à sua criação, Grey.</p><p>Inicialmente, o espaço de cada uma dessas camadas, de cada um desses universos, aparecem bem definidos. Em um capítulo, o protagonista tem suas ações narradas, em outro o protagonista se transforma em narrador da sua própria criação. Aos poucos, tudo se sobrepõem, se misturam para valer. Um dos momentos mais geniais do livro é um diálogo estupendo Gertrudis e Brausen, no qual este acompanha simultaneamente o que lhe diz sua mulher e o que Queca fala no apartamento ao lado.</p><p>Tudo isso é muito bom, mas não o bastante para me seduzir.</p><p>Concordo com o blogueiro <a href="http://verbologia.com/?p=375">Alexandre Foureaux</a> quando diz que nem sempre é preciso entender para apreender o conteúdo dos textos. Não me convencem os extensos monólogos e até diálogos desprovidos de nexo o tempo todo, naquilo que os críticos chamam de fluxo de consciência. Não me convencem e, muitas vezes,  irritam e me levam para bem longe do texto.</p><p>Talvez seja importante ler Onetti, mas não como acredita um crítico chamado <a href="http://www.onetti.net/de/descripciones/pinheiro-machado">Roberto Pinheiro Machado</a> que afirma, a meio caminho entre o exagero e o pedantismo, que “ todo o brasileiro deveria ler a obra de Onetti para entender melhor quem somos e parar de perder tempo com Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro”.</p><p>Pessoalmente, entre os uruguaios, continuo preferindo Mário Benedetti.</p><p>&nbsp;</p><p><strong>Sobre o escritor</strong></p><p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/08/Juan-Carlos-Onetti.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1553" title="Juan Carlos Onetti" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2011/08/Juan-Carlos-Onetti.jpg" alt="" width="221" height="162" /></a></p><p><a href="http://cafecult.com.br/?p=917">Juan Carlos Onetti</a> trabalhou como porteiro e vendedor de ingressos do estádio Centenário antes da consagração como escritor. Apesar de ser contemporâneo de Vargas Llosa e Garcia Márquez, sempre se considerou mais próximo dos existencialistas europeus. Em 1980, recebeu o prêmio Cervantes de literatura, a mais importante premiação para autores de língua espanhola. Onetti morreu em 1994, aos 85 anos.</p><p>&nbsp;</p><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/a-vida-breve/' addthis:title='A vida breve '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/a-vida-breve/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>5</slash:comments> </item> <item><title>Primavera num Espelho Partido</title><link>http://www.caotico.com.br/primavera-num-espelho-partido/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/primavera-num-espelho-partido/#comments</comments> <pubDate>Tue, 02 Mar 2010 03:22:45 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[América do Sul]]></category> <category><![CDATA[América Latina]]></category> <category><![CDATA[ditadura]]></category> <category><![CDATA[literatura latino-americana]]></category> <category><![CDATA[literatura uruguaia]]></category> <category><![CDATA[Mario Benedetti]]></category> <category><![CDATA[Pepe Mujica]]></category> <category><![CDATA[Uruguai]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=604</guid> <description><![CDATA[Acabo de assistir pela TV as imagens da festa da posse do ex-tupamaro Pepe Mujica no meio das ruas de Montevidéu. Simpático e bonachão, o novo presidente uruguaio me levou de volta às páginas de Primavera num Espelho Partido, de Mario Benedetti, cuja leitura acabei às vésperas do carnaval. Benedetti me toca profundamente. Sua prosa [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/primavera-num-espelho-partido/' addthis:title='Primavera num Espelho Partido '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/03/primavera1.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-606" title="primavera" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2010/03/primavera1-224x350.jpg" alt="" width="120" height="188" /></a>Acabo de assistir pela TV as imagens da festa da posse do ex-tupamaro Pepe Mujica no meio das ruas de Montevidéu. Simpático e bonachão, o novo presidente uruguaio me levou de volta às páginas de <em>Primavera num Espelho Partido, </em>de Mario Benedetti, cuja leitura acabei às vésperas do carnaval.</p><p>Benedetti me toca profundamente. Sua prosa é terna e delicada. Foi com delicadeza que tratou de um tema tão duro e complexo como as vidas separadas pelas ditaduras militares na América Latina dos anos 60 aos 80.</p><p>O livro tinha tudo para ser pesadão e angustiante, afinal o personagem principal, Santiago, está preso numa penitenciária uruguaia. Sua família, em algum outro país latino-americano – acho que é o México -, tentando levar uma vida normal no exílio. O tempo passa em ritmos diferentes dos dois lados dos muros da cadeia. Mas Benedetti surpreende com leveza e esperança nos homens.</p><p>Volto a Mujica, o presidente que já foi guerrilheiro e poderia ter sido personagem do livro. É que Benedetti intercala relatos verídicos ou autobiográficos – ele próprio exilado &#8211; com a ficção das cartas de Santiago, as confidências da sua esposa Graciela, os comentários do amigo Rolando, as redações escolares da pequena Beatricita ou os desabafos do velho Rafael, seu pai.</p><p>Não interessa as condições da cadeia, divergências políticas ou a violência da repressão. Benedetti é um poeta e um humanista. A ele, interessam os sentimentos. Santiago está na cadeia, sofre imaginando a filha crescer. A menina sonha com o pai. Graciela trabalha, se vira para criar a menina e sente que a vida a levou para longe da cela onde Santiago tenta não mofar. O velho e sensível Rafael sabe que seu filho vai sofrer, mas não julga a nora, a qual, a bem da verdade, é um mulherão.</p><p>Durante a leitura de <em>Primavera&#8230;</em> li em algum lugar que as ditaduras na América Latina não foram nocivas apenas pelo aspecto político ou econômico, mas por terem interrompido vidas, sonhos e instaurado o medo em toda uma geração. Eu, que me tornei adulto em pleno exercício democrático, tento imaginar o quanto se pode perder por estar impedido de participar do jogo político. Por isso, é fundamental jamais esquecer.</p><p>A história da segunda metade do século XX no Brasil e no restante da América do Sul precisa ser contada por quem sofreu e não pelos carcereiros, que tentaram apagá-la. Permitir que um general ou uma emissora de TV construam essa história é o mesmo que delegar a um assassino a tarefa de contar a história da vida de sua vítima, ou seja, de como ela mereceu morrer.</p><p>Nesse livro, Benedetti dá uma enorme contribuição para que essa história seja contada de outra forma, pois escreve sobre os estragos da ditadura nos corações dos amantes e na dinâmica de uma família.</p><p>O fato de Mujica ser, desde ontem, o presidente do Uruguai justifica as esperanças e a fé de Benedetti no ser humano.</p><ul><li><a href="http://www.caotico.com.br/a-tregua/"><strong>Clique aqui para ler texto do Caótico sobre <em>A Trégua</em>, aobra-prima de Benedetti</strong></a></li><li><strong><a href="http://www.caotico.com.br/trecho-de-primavera-num-espelho-partido/">Clique aqui para ler trecho de <em>Primavera num Espelho Partido</em></a></strong></li><li><strong><a href="http://blogs.utopia.org.br/poesialatina/category/mario-benedetti/">Clique aqui para conhecer a poesia de Benedetti no Utopia.org.br</a></strong></li><li><strong><a href="http://silveiralidiane.blogspot.com/2009/07/primavera-num-espelho-partido-primavera.html">Clique aqui para conhecer a opinião de outro blogueiro sobre Primavera num Espelho Partido</a></strong></li><li><strong><a href="http://www.estuario.com.br/2009/05/18/por-favor-nao-se-esquecam-de-minha-caneta/">Clique aqui para ler a homenagem de Samarone Lima a Benedetti</a><br /> </strong></li></ul><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/primavera-num-espelho-partido/' addthis:title='Primavera num Espelho Partido '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/primavera-num-espelho-partido/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>3</slash:comments> </item> <item><title>A Trégua</title><link>http://www.caotico.com.br/a-tregua/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/a-tregua/#comments</comments> <pubDate>Sat, 15 Aug 2009 16:41:30 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[A Trégua]]></category> <category><![CDATA[Benedetti]]></category> <category><![CDATA[Cone Sul]]></category> <category><![CDATA[história de amor]]></category> <category><![CDATA[Literatura]]></category> <category><![CDATA[literatura latino-americana]]></category> <category><![CDATA[romances]]></category> <category><![CDATA[Uruguai]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=285</guid> <description><![CDATA[Sem rodeios: A Trégua é um dos melhores romances que já li. Pena que demorei tanto a encontrar a prosa de Mário Benedetti, provavelmente por conta da minha incompetência literária e da opção política-ideológica da mídia e do mercado editorial nacionais , com tantos olhos para o mundo anglo-saxão e irritante hipermetropia que nos torna [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/a-tregua/' addthis:title='A Trégua '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright size-medium wp-image-287" title="atregua_300" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2009/08/atregua_300-224x350.jpg" alt="atregua_300" width="107" height="166" />Sem rodeios: <em>A Trégua</em> é um dos melhores romances que já li.</p><p>Pena que demorei tanto a encontrar a prosa de Mário Benedetti, provavelmente por conta da minha incompetência literária e da opção política-ideológica da mídia e do mercado editorial nacionais , com tantos olhos para o mundo anglo-saxão e irritante hipermetropia que nos torna incapazes de enxergar de perto a América Latina.</p><p>Só no ano passado é que li A Trégua, mas no próximo ano, já vai fazer meio século que o uruguaio escreveu a história do viúvo de meia-idade, que criou dois filhos trabalhando num serviço sem graça num escritório mais sem graça ainda, até que o amor de uma moça bem mais jovem lhe proporciona a tal trégua em sua vidinha que se arrasta.</p><p>É uma história comum, de um homem comum, escrita sob forma de um reles diário. Não há nenhuma ação mirabolante, suspense ou espetaculares saltos de imaginação, porém os personagens são tão bem construídos que o leitor experimenta os sentimentos e sensações do protagonistas e autor do diário, que se chama Martín Santomé.</p><p>Outro elemento que me cativou e me prendeu na leitura, é o ritmo que Benedetti imprimi na história. O tempo passa lentamente antes de Laura Avelanneda entra em sua vida, depois dela, as hesitações, a insegurança e os vacilos, mas também a ternura e o deslumbramento, do coroa apaixonado ditam o ritmo do romance. Poderia até contar o surpreendente final, pois considero que a forma como se conta a história é tão importante quanto a história em si, mas vou manter a curiosidade só para ver se alguém se interessa em correr atrás do livro.</p><p>Lembro que li esse livro numa tacada só. Foram uns três dias lendo no ônibus e fazendo questão de comer sozinho num self-service perto do escritório do Unicef para poder aproveitar os minutos do intervalo para o almoço. Recordo que me irritei quando um conhecido me encontrou sozinho no restaurante e resolveu puxar conversa, talvez para me aliviar da aparente solidão.</p><p>Depois do ponto final, emoção, lágrimas nos olhos<em>. </em>E a certeza do privilégio de ter lido algo maravilhoso.</p><p><em> </em></p><p><em>A Trégua</em> foi o segundo livro de Benedetti em meu curto currículo. O primeiro havia sido <em>Gracias por el Fuego</em>, que também é um ótimo romance, porém mais tenso e com menos pegada. Centrado na péssima relação entre pai e filho, ambos tem em comum as histórias de pessoas comuns, como qualquer um de nós.</p><p><strong>Sobre o escritor</strong></p><div id="attachment_288" class="wp-caption alignnone" style="width: 224px"><img class="size-full wp-image-288" title="Mario Benedetti" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2009/08/Mario-Benedetti.jpg" alt="Mario Benedetti" width="214" height="213" /><p class="wp-caption-text">Benedetti: vale a pena descobrir esse homem</p></div><p>Mário Benedetti morreu aos 88 anos no dia 17 de maio deste ano, um domingo. Pouco conhecido no Brasil, era idolatrado em seu país, logo ali ao sul da fronteira do Rio Grande do Sul. Poeta, romancista, contista, ensaísta, Benedetti era mestre e escravo das palavras. Durante a longa noite das ditaduras no Cone Sul, exilou-se na Espanha. Segundo seus amigos, começou desistir da vida em 2006, quando sua esposa Luz morreu. Para ele, foi difícil viver sem luz.</p><ul><li><a href="http://www.revista.agulha.nom.br/1dteles4c.html">Poemas de Mário Benedetti no Jornal da Poesia</a></li><li><a href="http://www.verbeat.org/blogs/linguademariposa/2009/05/mario-benedetti.html">Mais poemas de Mário Benedetti no blog Língua de Mariposa</a></li><li><a href="http://www.estuario.com.br/2009/05/18/por-favor-nao-se-esquecam-de-minha-caneta/">Benedetti, segundo Samarone Lima</a></li><li><a href="http://www.rodrigovianna.com.br/sopa-de-letras/a-prosa-comovente-do-uruguaio-mario-benedetti">A Trégua, segundo Rodrigo Vianna</a></li></ul><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/a-tregua/' addthis:title='A Trégua '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/a-tregua/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>14</slash:comments> </item> <item><title>Maluco</title><link>http://www.caotico.com.br/maluco/</link> <comments>http://www.caotico.com.br/maluco/#comments</comments> <pubDate>Thu, 09 Jul 2009 10:05:04 +0000</pubDate> <dc:creator>Inácio França</dc:creator> <category><![CDATA[Leituras Caóticas]]></category> <category><![CDATA[bufão]]></category> <category><![CDATA[Circunavegação]]></category> <category><![CDATA[Fernão de Magalhães]]></category> <category><![CDATA[Maluco]]></category> <category><![CDATA[Napoléon Ponce de León]]></category> <category><![CDATA[Uruguai]]></category> <category><![CDATA[Viagem de Circunavegação]]></category><guid isPermaLink="false">http://www.caotico.com.br/?p=164</guid> <description><![CDATA[Nos livros de História da escola &#8211; pelo menos no meu tempo – a viagem de Fernão de Magalhães era citada rapidinho no finalzinho do capítulo das Grandes Descobertas. Cabral e Colombo eram tratados pelos autores como o Maradona e o Pelé das Navegações. Vasco da Gama e Américo Vespúcio eram o Garrincha e o [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/maluco/' addthis:title='Maluco '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignright size-medium wp-image-165" title="malucoCapa" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2009/07/malucoCapa-228x350.jpg" alt="malucoCapa" width="120" height="186" />Nos livros de História da escola &#8211; pelo menos no meu tempo – a viagem de Fernão de Magalhães era citada rapidinho no finalzinho do capítulo das Grandes Descobertas. Cabral e Colombo eram tratados pelos autores como o Maradona e o Pelé das Navegações. Vasco da Gama e Américo Vespúcio eram o Garrincha e o Puskas.</p><p>No meio de tantas feras, sobrou pouca fama para Magalhães na posteridade. Durante séculos, ele ficou lá no cantinho da história, meio sem prestígio. Como a viagem de circunavegação aconteceu quando os europeus já tinham o mundo quase todo mapeado e só os mais velhos continuavam acreditando na besteira de que a Terra era quadrada, Magalhães acabou virando nota de pé de página.</p><p>Pra piorar as coisas pra memória do navegador português, quando fizeram o Canal do Panamá, em 1914, o caminho da Europa para o Pacífico foi encurtado e a rota pelo Estreito de Magalhães acabou abandonada. Hoje, só os aventureiros mais doidos e um ou outro barco baleeiro se arriscam a enfrentar as ondas gigantescas, os ventos gelados e o labirinto de ilhas no extremo sul da América do Sul.</p><p>Foi o livro de Zweig quem reafirmou a dimensão heróica  de Magalhães.</p><p>Depois, em 1989, o uruguaio Napoleón Baccino Ponce de Leon, publicou seu <em>Maluco – O Romance dos Descobridores</em>, prêmio Casa de Las A méricas daquele ano.</p><p>Li <em>Maluco </em>em 1992 (sei disso porque costumo anotar nas páginas iniciais de cada livro o local e a data em que terminei a leitura, mania que só agora tem alguma utilidade). Ignorante, nem imaginava que existia Stefan Zweig, quanto mais o livro dele.</p><p>Continuando, li e me diverti com a narrativa do bufão, o bobo-da-corte, Juanillo, um personagem fictício que acompanhou a frota e teria sido um dos sobreviventes da circunavegação.</p><p>A ideia do bufão, que se torna escriba, subverte a hierarquia. Na ficção do uruguaio, a história é contada por um subalterno e não por um escriba oficial, submetido à censura da corte e à linguagem formal da época.</p><p>Além do aspecto subversivo, a história é engraçada e o narrador ironiza os acontecimentos a partir da ótica de quem testemunha os acontecimentos do andar de baixo, ignorado pelos oficiais.</p><p>Lembro que eu ri muito enquanto avançava na leitura. Já não lembro do quê exatamente eu ri, mas recordo que – em linhas gerais – os espanhóis estavam interessados no lucro, Magalhães em provar que o mundo era redondo.</p><p>Quando encontrei <em>O Homem e sua Façanha</em>, encontrei também várias passagens que serviram de base para a ficção de Ponce de Leon. E pude comparar um bom livro, cheio de humor, com um livro de um escritor mais ambicioso, que utilizou mais recursos técnicos (ou intelectuais) para construir sua obra.</p><p>Se eu fosse arriscar outra metáfora, diria que <em>Maluco </em>é um vinho branco, doce. <em>Fernão de Magalhães</em>, um encorpado cabernet sauvignon.</p><p><strong>Sobre  o escritor</strong></p><div id="attachment_166" class="wp-caption alignnone" style="width: 170px"><img class="size-full wp-image-166" title="PoncedeLeon" src="http://www.caotico.com.br/wp-content/uploads/2009/07/PoncedeLeon.jpg" alt="PoncedeLeon" width="160" height="236" /><p class="wp-caption-text">Única foto que encontrei de Ponce de León no Google</p></div><p>Napoleón Baccino Ponce de León nasceu em 1947 e vive em Montevidéu também é crítico literário. Quase desconhecido no Brasil, é um intelectual respeitado no restante da América Latina. Vão se acostumando: escritores uruguaios serão arroz-de-festa aqui no Caótico.</p><ul><li><a href="http://www.millarch.org/artigo/maluco-uma-cronica-da-circunavegacao-da-terra">Crônica publicada em 1992 no jornal Estado do Paraná</a></li><li><a href="http://www.ucm.es/info/especulo/numero31/maluco.html">Trabalho acadêmico de Geysa Silva, da Universidade Vale do Rio Verde</a></li></ul><div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://www.caotico.com.br/maluco/' addthis:title='Maluco '  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_button_google_plusone" g:plusone:size="medium"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://www.caotico.com.br/maluco/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>2</slash:comments> </item> </channel> </rss>
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