Queria comer Valéria fazia tempo. Ela era magrinha demais, baixinha demais, bunda insignificante, mas os peitos eram de primeira. Do rosto, não tenho a mínima lembrança. Sei que os olhos eram verdes. Ou azuis, sei lá.
Valéria era comestível e, entre as mulheres comestíveis que eu tinha conhecido naqueles meses, era a única que estava sempre por ali, por perto, e sem macho na marcação. E, na minha situação, não podia ficar escolhendo.
Tentei uma, duas, algumas vezes, mas ela se fazia de difícil. Nunca tive paciência para esse joguinho, principalmente há meses sem ver mulher.
Uma noite, percebi que a moça estava com o coração amolecido. Lembro que já estava frio, mesmo assim decidi que valia a pena pegar dois ônibus do Bixiga até a USP para acompanhar a moça. Na época, o Bixiga era o lugar de beber do pessoal que fazia história, filosofia ou sociologia. Todo mundo muito cabeça. Não sei para onde iam as gostosas da área de saúde.
Lembro que nos abraçamos no ônibus e nos beijamos nos corredores do Crusp, que é a imensa residência estudantil da USP, cheia de apartamentos minúsculos, onde se amontoa gente de tudo quanto é lugar do mundo. Se estou falando do Crusp, é porque não tenho nada a dizer do beijo.
Na porta do apartamento, a festa acabou. Em compensação, fiquei sabendo tudo sobre Nuporanga.
Para quem não sabe, Nuporanga é uma cidadezinha nos confins do estado de São Paulo, pequena e desimportante, mas que me roubou uma noite de foda. Valéria nasceu lá.
Não sei como nem por quê, todos os primos inventaram de chegar do interior naquela noite e, enquanto eu passava as mãos nas pernas dela debaixo da mesa do bar, espalharam colchonetes pela saleta do apartamento e no quarto da primeira e única nuporanguense a estudar filosofia.
Dormimos agarradinhos num colchão da espessura de um caderno de 48 páginas. Na cama, logo acima do meu ouvido, uma gordinha roncava e, muito provavelmente, peidava. Tinha outros dois parentes no quarto e, de vez em quando, o braço de um, encostava nos meus pés, aí eu me encolhia todo, com nojo. E raiva.
Dispensei o café-da-manhã no meio da multidão e me mandei para o apartamento dos meus amigos, em outro bloco.
Depois do almoço no bandejão (usava um crachá frio para comer no restaurante universitário), procurei Valerinha e, com a moral de quem era o único a trabalhar e receber salário no meio de gente que vivia de bolsas e estágio, lancei a proposta:
“Minha lindinha, vamos pegar um táxi e passar a tarde num motel da Raposo Tavares?”
Ela topou.
Escolhi um hotel bem arrumadinho, para impressionar no primeiro encontro. Lá, a quase filósofa foi logo ao banheiro, como, aliás, nove entre 10 mulheres que chegam a um motel sem subir pelas paredes de tanto tesão. Ela, no banheiro, eu liguei a TV procurando uma pornografiazinha. O que achei foi São Paulo x Botafogo. Telê Santana contra Renato Gaúcho, o primeiro encontro depois de não sei quantos anos da briga na Copa de 86, o timaço de Telê contra o forte e simpático Botafogo.
“Porra! Esqueci desse jogo!”. Foi quando me dei conta que meu projeto inicial era acordar no Crusp e ficar mais perto do Morumbi. Longe de casa e do time de coração, o sujeito escolhe o melhor jogo para ver.
Ainda não eram nem 10 minutos do primeiro tempo e o time de Telê ganhava de 1 x 0. Um minuto depois de ligar a TV, 2 x0. Jogão. Lá e cá, e o São Paulo matando a pau nos contra-ataques.
Bem que a mulher podia ficar mais tempo no banheiro. Um diarreia, quem sabe.
Nada disso, ela saiu de lá enrolada na toalha, crente que eu ia fazer barba, cabelo e bigode.
Ela se enroscou toda, fez caras e bocas. Chicão perdeu um gol feito, quase que o Botafogo empata. Com a cabeça da moça no colo, arrisco tudo:
“Dá para ser no intervalo? O jogo tá bom que só a porra, minha filha.”
Valéria fechou a cara, resmungou. No intervalo, nada feito. Melhor: deu para ver o replay do primeiro gol.
Voltamos de táxi para a universidade. Deixei a filósofa com os primos de Nuporanga e fui pra casa.
Dois anos depois, descendo as ladeiras no carnaval de Olinda, um dos meus amigos que viviam na residência estudantil me faz recordar aquela tarde:
“Tu comeste Lelinha aquela vez, não comeste?”
“Eu não. Quase, o problema foram os primos e o futebol…”, aí contei toda essa história.
“Pois eu comi. Não tava passando jogo no dia, aí me fudi: tive que comer. Aposto que você se divertiu mais do que eu. De zero a dez, nota um. E só ganha esse ponto porque buceta leva bonificação”.
7 Comentários
que incompetência!!! da mulher, lógico!
Incompetência? Que machismo! Acho mesmo é que ela não gostava de futebol; se gostasse, escolheria ou uma rapidinha no intervalo ou quando o jogo acabasse! Ficar com raiva não vale a pena, não há como competir com a bola rolando!
Mas é danado. Quando Lelinha (já sou íntima!) dá uma chance pro caba ele prefere futebol. E o outro? o amigo???
hum!
Tomara que ela tenha esquecido esses dois pernambucanos.
Antes uma partida de futebol a uma mulher pouco amada (rapidinha). Fez bem, há tempo para tudo, inclusive uma boa pelada.
Inácio parabéns pelos seus escritos.peço permissão,creditando a voce logicamente,para transcrevê-los no Blog Metropolitano.Pelo que eatou lendo chegar ba ABL é uma questão de tempo,
Ainda prefiro uma rapidinha – ainda que a mulher mereça um de nota – do que o futebol…
Futebol a gente vê depois…
Agora, se a partida for decisiva, a rapidinha fica pra depois…
Porra, Inácio! Levar nota um com peitos de primeira é foda.