Toda poesia de Ferreira Gullar

Já deu para reparar que não me sinto muito a vontade para escrever sobre poesia? De vez em quando, até que leio. Até já me arrisquei a escrevinhar uns versos, como podem testemunhar as senhoras Maria Tereza Perez de Almeida e Ana Vitória Soares (durante anos, guardiã involuntária de uma pasta com alguns poemas datilografados).

Li um pouco de Bandeira e João Cabral e li muito Drummond, Maiakovski traduzido pelos irmãos Campos e, principalmente Ferreira Gullar. Creio que não voltei a me arriscar na poesia porque o coração véio de guerra ficava escancarado demais. Na prosa, dá pro sujeito se esconder um pouco mais.

Tenho também dificuldade em escrever sobre poesia por absoluta falta de conhecimentos e referências. Ainda bem que Arsênio deu as caras para falar de Gullar e salvar a lavoura poética do blog.

*****

por Arsenio Meira Júnior

Gullar é para poesia o que Nílton Santos representa para o futebol.

Para quem não conhece Nilton Santos, trata-se de um lendário lateral esquerdo, que jogou no Botafogo nos anos 50 e 60 e na seleção Brasileira Campeã do mundo em 1958 e 1962.

Nilton, hoje doente, com problemas de ordem neurológica, atendia também pelo apelido de “a Enciclopédia”.

Gullar continua na aptidão das suas faculdades mentais, e hoje carrega nos ombros a responsabilidade de ser o maior poeta Brasileiro vivo, e um dos grandes de todos os tempos.

Estas notas representam uma breve resenha sobre a nona edição de Toda Poesia, e claro sobre o poeta.

Toda Poesia é um volume que reúne a obra poética de Ferreira Gullar. Foi lançado em 1980 e, em janeiro de 2008, chegou à décima sexta edição.

Em dezembro de 2008, a Nova Aguilar lançou Poesia Completa, Teatro e Prosa.

Gullar tem vastíssima cultura poética, manja escultura e pintura, e tem uma formação política que não foi tirada somente dos livros, do lero-lero acadêmico ou mesmo de orelha de livro.

Ele nunca mendigou cargo comissionado em rodinhas babacas de pseudos esquerdistas. Ele era um cara – efetivamente – de esquerda.

No exílio ou depois dele, viu a família literalmente desintegrar-se. Perdeu um filho. O outro sofre hoje as seqüelas de uma vida com transtornos psiquiátricos. A esposa Tereza Aragão,  atriz, também ativa militante política, morreu jovem, em 1993.

Então, ele não é dessas figuras falsas, decorativas, que só conseguem apregoar uma melhor distribuição de renda, com a  indefectível dose de Johnny Walker na mão

Foi o poeta que redimiu toda uma geração, a partir da publicação do seu primeiro livro A Luta Corporal, lançado em 1954.

Um cara que pertenceu à avant-gard, e foi da arte útil ao ceticismo humanista sem perder o prumo. Raros os poetas que tem a vivência e o currículo cultural que ele ostenta.

Em seu início experimental, escreveu sobre “a inutilidade do canto”; definiu o galo como um “mero complemento de auroras” e o ser humano como “um ser grave, que não canta senão para morrer”.

Tem mais.

De se reconhecer – é minha opinião – que uma pequena parte de sua poesia-panfleto ou manifesto está datada.

Digo que datou em parte, porque mesmo em seus momentos mais secundários, ele fez inúmeros golaços e, generoso, escreveu que “a crase não foi feita para humilhar ninguém”.

Em Dentro da noite Veloz, já angustiado e premido pelos milicos de 64, tratou logo de avisar que “do salário injusto/ da punição injusta/ da humilhação/da tortura e do terror/retiramos algo/ e com ele construímos um artefato/ um poema, uma bandeira”.

Após ter passado por privações – inerentes aos que devotam a vida por uma causa perdida – no fim dos anos 80 Gullar admitiu finalmente que o principal objetivo do artista é, em suma, produzir boa arte.

Ele, que experimentou as escaramuças do concretismo.  Rompeu com os irmãos Campos, e em seguida propôs o neoconcretismo.

Queria mesmo “explodir” a linguagem, transformá-la em espelho do seu inconformismo, objeto de sua contemplação bélica, pois o mundo, conforme sua visão, é um mapa cheio de furos, e as pessoas, guiadas por homicidas, caminham  – sem reação – em sentido oposto à paz.

O livro Toda Poesia abrange: (A luta corporal, 1954; Poemas, 1958 ; João Boa-Morte, cabra marcado para morrer (cordel), 1962; Quem matou Aparecida? (cordel), 1962; A luta corporal e novos poemas, 1966; História de um valente, (cordel, na clandestinidade, como João Salgueiro), 1966; Por você por mim, 1968; Dentro da noite veloz, 1975; Poema sujo, 1976; Na vertigem do dia, 1980; Crime na flora ou Ordem e progresso, 1986; Barulhos, 1987; O formigueiro, 1991; Muitas vozes, 1999).

O Poeta não fugiu do convencional. Começou com os sonetos (por sinal, belos sonetos – vide os Sete Poemas portugueses); porém, logo alcançou ritmos distantes da poesia praticada pela geração de 45, entoando dicções variadas com um feixe de luz própria.

Para chegar nesse ponto, não precisou falsificar sua sensibilidade. Lemos em sua Obra Reunida, o verso livre, rimado, a poesia em prosa, cordel, poesia espacial, concreta, política, lírica, enfim, uma saraivada de petardos, que termina por assombrar o leitor.

E assim ele seguiu e segue, produzindo poemas que resistirão ao tempo, um dos pais da razão.

Como este, que está nos trechos arretados.

Enviar por email - Imprimir

9 Comments

  1. Jonas Duarte disse:

    Existe alguma uma vantagem em ficar velho? Drummond dizia que não. Era uma merda, isto sim, dizia ele. Mas o Poeta não pôde viver a era da internet. Senão diria que a única vantagem é levantar cedo, e deparar-se com um artigo desse naipe, num blog supimpa e obrigatório.

    Grande Gullar. Leitura obrigatória.
    Drummond também.
    Ainda tem o trecho arretado. Como só nós pernambucano podemos dizer.
    Parabéns.
    E bom dia pra todos.
    Ah, e obrigado ao Arsenio e ao Inácio. Por reviverem em minha lembrança Ferreira Gullar.

  2. Luis Carlos Monteiro disse:

    Inácio, e que lavoura poética, amigo.
    Arsenio, Gullar realmente redimiu uma geração.
    Embora Fernando Pessoa seja hours concours, gostei mais desse artigo sobre Gullar.

    Nos meus anos de advocacia criminal em São Paulo – décadas de 60 e principalmente 70 9os famosos anos de chumbo) – Gullar era um escudo. Uma bandeira. Uma Lição.

    “Como dois e dois são quatro,
    sei que a vida vale a pena.
    Embora o pão seja caro,
    e a liberade pequena”.

    Existe algo mais atual que estes emblemáticos versos do Gullar?
    Infelizmente, não.

    Embora escritos, como vocês sabem, no desespero dos anos escuros da ditadura, o pão pra muita gente continua caro, e a liberdade para muitos (no sentido mais amplo dessa palavra), não existe.
    A violência oprime a liberdade e por aí vai.

    Concordo com Jonas. A velhice é uma merda. Mas – aqui ou ali – a maturidade tem suas compensações.

  3. Arsenio Meira Junior disse:

    Jonas e Luis, vocês tem razão.
    Abraços
    Arsenio
    Ps – a título de indicação para os leitores e para o blog, ‘Rabo de Foguete’ – Os anos de exílio. Autobiografia acachapante de Gullar.

  4. João Roberto Gomes disse:

    Um irmão meu, de saudosa memória, sabia de cor os versos de Gullar.
    Já eu conheço pouco.
    Mas valeu o post.
    Agora sei um pouco mais.

    O Poema transcrito na seção trechos arretados também é atual, infelizmente.
    E contem forte carga emocional, justamente por falar à consciência de uma forma simples.
    Sds.

  5. André Meira disse:

    Lembro vagamente quando o autor do artigo, que vem a ser meu dileto irmão mais velho, ganhou o primeiro livro de Gullar. Mas Lembro com mais exatidão que ele , nessa época, queria porque queria ter o mesmo cabelo de Gullar ou de… Lobão… ehehehe

    Valeu meu irmão, amigo de todas horas.
    Orgulho total de você.

    (E Vinicius, hein? a velha edição da aguilar inda está comigo… É o meu poeta de todas as horas. Não tenho a mesma cultura que você, mas devo a você , dentre outras coisas, a devoção a Vinicius e Drummond).

    Ps – Inácio, o seu blog é campeão.
    A próposito, andei navegando nele, e gostei demais das indicações sobre Chandler e Maigret.

  6. Clávio Guimarães disse:

    Belo texto, sobre umas figuras esseciais da Literatura Brasileira.
    Ps – Há um poema de Gullar, que sempre me foi inquietante. Consta no livro abordado.
    Eis o poema:

    “NO CORPO

    De que vale tentar reconstruir com palavras
    O que o verão levou
    Entre nuvens e risos
    Junto com o jornal velho pelos ares

    O sonho na boca, o incêndio na cama,
    o apelo da noite
    Agora são apenas esta
    contração (este clarão)
    do maxilar dentro do rosto.

    A poesia é o presente. “

  7. Arsenio Meira Junior disse:

    Clávio, este poema é um dos preferidos do autor.
    Porque conjuga a atração física dos amores perdidos e a permanência da poesia.
    Ambos se unem e formam esta

    “contração (este clarão)
    do maxilar dentro do rosto”

    Abraços

    Ps – Inácio, essa semana a gente se fala. Samarone – provavelmente – deverá encontrar-se conosco. Vou ,ainda, confirmar com ele

  8. Elisabeth Amorim disse:

    Gullar é realmente um gênio da poesia brasileira. Sexo,vida,infância, morte,angústia,inquietação,protesto fazem parte de suas poesias. Quem pensou que ele se calaria diante das injustiças ditatoriais recebeu de presente direto do exílio: POEMA SUJO.

  9. Ângela Gullar disse:

    Ferreira Gullar é a árvore da poesia brasileira. Um poeta de 7 sentidos e de 7 mil fôlegos. Pleno em sua lírica e em nossos corações.

Postar um comentário

Seu email nunca vai ser compartilhado. Campos obrigatórios são marcados com *

*
*