Trechos de Juliano

Juliano Vidal“- Como podem muitos ser negados? Serão todas as emoções iguais? Ou cada uma tem característica peculiares? E se cada raça tem suas qualidades, não serão elas dadas por um deus? E se não forem dadas por um deus, essas características não seriam mais bem simbolizadas por um deus nacional específico? No caso dos judeus, um patriarca mal-humorado e ciumento. No caso dos sírios efeminados e astutos, um deus como Apolo. Ou tomemos os germanos e os celtas, que são aguerridos e ferozes. Será por acaso que adoram Ares, o deus da guerra? Ou será inevitável? Os antigos romanos foram absorvidos pela legislação e pelo governo. Seu deus? O rei dos deuses, Zeus. E cada tem muitos aspectos e muitos nomes, pois há tanta variedade nos céus quanto entre os homens. Alguns perguntam: ‘Nós criamos esses deuses, ou eles nos criaram?’ É um debate muito antigo. Seremos nós um sonho da divindade, ou cada um de nós um sonhador separado, evocando sua própria realidade? Embora não se tenha certeza, todos os nossos sentidos nos dizem que existe uma única criação, e que estamos contidos nela para sempre. Ora, os cristãos impõem um mito final e rígido àquilo que sabemos ser variado e estranho. Não, nem mesmo um mito, pois o Nazareno existiu em carne e osso, ao passo que os deuses que adoramos jamais foram homens; são, ao invés disso, qualidades e poderes, que se transformaram em poesia para nossa instrução. Com a adoração do judeu morto, a poesia cessou. Os cristãos desejam substituir nossas belas lendas pelo relatório policial de um rabino reformista. Com esse material impossível, esperam fazer uma síntese final de todas as religiões conhecidas. Agora apropriaram-se também dos nossos dias festivos. Transformaram divindades locais em santos. Tomam emprestados nossos ritos misteriosos, especialmente os de Mitra. Os sacerdotes de Mitra são chamados de ‘pais’, ‘padres’. Então os cristãos chamam seus sacerdotes de padres. Imitam até a tonsura, na esperança de construir novos adeptos com os atavios familiares do culto antigo. Agora, começam a chamar o Nazareno de ’salvador’ e ‘aquele que cura’. Por quê? Porque um dos nossos mais amados deuses é Asclépio, a quem chamamos de ’salvador’ e ‘aquele que cura’.”

O charlatão Máximo, em conversa com Juliano ainda jovem, estudante de filosfia em Atenas

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- Não é assim que deve se aproximar da divina presença. – Borrifei água em Oribásio, com ótima pontaria. Ele riu. Meu tio também, pois eu fizera o mesmo com ele. Então, fiquei assustado. Era exatamente assim que nasciam os monstros. Primeiro, o tirano faz brincadeiras inofensivas: borrifa água nos senadores durante o banho, serve pedaços de madeira ao invés de comida aos seus convidados, prega peças em todos ; e não importa o que ele faça, todos riem e o lisonjeiam, acham inteligentes suas osbervações mais cretinas. Depois as brincadeiras começam a perder a graça. Certo dia ele acha divertido violentar a mulher de outro homem diante do marido, ou o marido, na frente da mulher, ou torturar os dois, ou matá-los. Quando começa a matança, o imperador não é mais um homem, mas um animal, e já tivemos muitos animais no trono do mundo. Desculpei-me veementemente por ter molhado meu tio. Desculpei-me até por ter molhado Oribásio, embora ele seja como um irmão para mim. Nenhum deles adivinhou o significado daquele súbito acesso de culpa.”

Juliano, logo depois de chegar a Constantinopla, já na condição de imperador


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