Um Genocídio em Julgamento

genocidio_armenioAté conhecer a história do estudante Salomon Teilirian nunca tinha ouvido falar a respeito do genocídio Armênio. Da Armênia, eu só conhecia uma estação de metrô com esse nome perto do estádio do Canindé. Isso foi em 1994, quando li Um Genocídio em Julgamento, que tinha acabado de ser publicado pela editora Paz e Terra, em co-edição com o Comitê Brasileiro para a Reconstrução da Armênia.

Não se trata de nenhum romance histórico ou livro-reportagem sobre a execução sistemática de um milhão e meio de armênios pelos turcos, mas sim a reprodução integral dos autos do processo do assassinato de Talaat Paxá, ex-ministro do Interior da Turquia, por Teilirian.

A linguagem é jurídica, além disso há a informações repetidas nos vários depoimentos reproduzidos. Mesmo assim, a leitura é arrebatadora. O processo foi tão emocionante, com tamanho significado político, que nem foi preciso adaptar o texto.

O processo foi publicado sob a forma de livro pela primeira vez em 1980, financiado pela Sociedade para os Povos Ameaçados, de Viena. A publicação foi em alemão, idioma original do processo.

Teilirian sobreviveu ao genocídio, matança organizada pelos turcos entre os anos de 1915 a 1918. Viu a mãe e os irmãos serem executados pelos soldados da Turquia, cuja monarquia otomana tinha dado lugar à república laica e militarizada do grupo dos Jovens Turcos. Depois de escapar, fugiu para a Alemanha e, em 1921, morava mal e estudava em Berlim quando reconhecer Talaat Paxá na rua.

A sensação de Teilirian deve ter sido semelhante a que sentiria um judeu polonês ao encontrar Goebbels caminhando tranquilamente pela Broadway numa tarde de agosto. Ou a de um rapaz palestino ao ver Shimon Peres passando ao seu lado na pista de cooper do Ibirapuera.

Talaat Paxá era o sujeito que dava as ordens para as matanças, organizou as caravanas que levaram as famílias para morrer longe de casa no Leste da Turquia, na Síria, no Líbano, países que na época ainda eram sobras do Império Otomano. Então, Teilirian resolveu matá-lo. Mais: ele sabia que tinha de matar o assassino do seu povo. Assim como o jovem judeu mataria o líder nazista. Ou como o menino da Faixa de Gaza mataria o israelense.

O estudante armênio matou o ministro turco, que tinha levado seu País a perder a Primeira Guerra contra os aliados e estava exilado na Alemanha, depois confessou o crime e foi julgado. Um Genocídio em Julgamento conta como ele foi absolvido e como seus advogados conseguiram virar o jogo, levando para o banco dos réus a vítima e os crimes que a vítima cometeu contra a Humanidade. O resultado do júri provocou um enorme impacto político e trouxe o genocídio para o centro do debate na Europa. O Exército da Turquia esperneou.

O problema é que o Holocausto dos Armênios é ignorado pela maior parte do mundo ocidental e negado pela Turquia, que está ali, encravado entre Europa e Ásia, entre Cristandade e o Islã. Na Guerra Fria, o Ocidente evitou contrariá-la para evitar que caísse nos braços dos russos. Hoje, é um dos poucos aliados da política norte-americana no Oriente Médio.

Por isso, o mundo continua fingindo que mais de um milhão de pessoas nunca existiram ou simplesmente desapareceram, apesar das ossadas, cemitérios, fotos e depoimentos que comprovam que todas foram executadas por balas ou atravessadas por espadas turcas.

Nem Israel reconhece o Genocídio Armênio. Em troca, a Turquia é a única aliada do estado judeu na região. Além disso, para os banqueiros e políticos israelenses é bastante conveniente que o povo judeu permaneça na história como a única vítimas de um Holocausto.

No livro A Grande Guerra pela Civilização, Robert Fisk conta tudo isso e dá detalhes de uma ironia histórica: os oficiais alemães que atuavam como consultores ou adidos na Turquia, aliada da Alemanha na Primeira Guerra, aprenderam com os turcos e aperfeiçoaram essa metodologia de extermínio na Segunda Guerra Mundial.

O mais curioso desta história é que, apesar de uma monarquia absolutista, islâmica e incapaz de modernizar sua economia, o Império Otomano era tolerante e famoso por respeitar as diferenças culturais dos povos sob seu domínios: sírios, cristãos libaneses, mouros, croatas, albaneses, armênios, curdos…. Todos esses tinham direito, por exemplo, a passaporte turco, ou seja, eram cidadãos turcos. Tariq Ali conta um pouco dessa característica no romance A Mulher de Pedra, o primeiro livro que comentei aqui no Caótico.

O genocídio aconteceu graças à ideologia ultranacionalista dos jovens militares, modernizadores, seculares e fascinados pelas coisas do Ocidente.

Para saber mais sobre o genocídio armênio, visite os sites abaixo:

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4 Comentários

  1. Heitor Loureiro
    Publicado 17 de novembro de 2009 em 10:12 | Permalink

    Uma bela resenha de uma obra seminal para entender os Direitos Humanos no século XX e XXI. A Questão Armênia ainda permanece atual, embora o Genocídio seja um acontecimento relegado aos guetos da historiografia. O Caso Talaat Paxá mostra o julgamento do Genocídio e a culpa dos governantes do Império Turco-Otomano – Comitê União e Progresso. Sem dúvidas, um julgamento do próprio Genocídio. Um Nuremberg que os armênios nunca tiveram.

  2. Publicado 17 de novembro de 2009 em 13:58 | Permalink

    Valeu, França. Estou perto de terminar o Fisk, por sinal.
    Samarone

  3. Publicado 19 de novembro de 2009 em 15:57 | Permalink

    Nunca, nunca li ou ouvi falar disso. E olha que sempre gostei de história…

  4. Publicado 3 de fevereiro de 2010 em 12:47 | Permalink

    Bravo pela resenha, e bravo ao Heitor que está em tudo!

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