
Nesse momento estou no pequeno e confortável Cristal Hotel, em João Alfredo, dividindo apartamento com o cabeludo Alexandre Sávio Ramos, arquiteto especializado em recursos hídricos e produtor cultural nas horas vagas. São nove e meia da noite de sábado, 29 de agosto. Lá embaixo, as caixas de som instaladas no porta-malas de um carro troveja a voz de uma mulher que se esgoela rimando “não te amo agora” com “dê o fora”. Espero que a Convenção de Genebra seja ampliada e que esse tipo de coisa passe a ser considerada crime contra humanidade.
Nesse instante, o parágrafo acima já surtiu o efeito desejado e o leitor está se perguntando que diabos estou fazendo longe de casa e da diversão, acompanhado de um sujeito com currículo tão exótico, no meio do fim-de-semana. Pois bem, estou parindo um livro.
Desde o início de abril, estamos percorrendo os municípios cortados pelo rio Capibaribe para entrevistar dezenas de velhos moradores de Poção, Jataúba, Brejo da Madre de Deus, Santa Cruz do Capibaribe, Toritama, Vertentes, Surubim, Frei Miguelinho, Salgadinho, Passira, Limoeiro, Lagoa do Carro, Paudalho, Camaragibe e, óbvio, Recife.
O verbo correto a ser usado seria, na verdade, escutar e não entrevistar. Tentamos respeitar o jeito de narrar, de contar histórias de cada uma das pessoas que se dispõem a conversar conosco e compartilhar suas lembranças, muitas vezes dolorosas ou difíceis de ser arrancadas da memória, de tão bem guardadas que estavam.
Encerramos o dia, já de noite, comendo um sanduíche de ovo com mortadela na casa de Antônio Ângelo Albuquerque, um ex-boxeador que aparenta ter 50 anos, mas já chegou aos 73. Ele nos contou que, durante mais de duas décadas, lutou em ringues do Brasil inteiro, foi campeão carioca, norte-nordeste, empatou em pontos duas vezes com um sujeito que era quarto no ranking mundial. Aposentado, possui uma empresa de formação de vigilantes no Recife, mas preferiu viver no lugar onde nasceu, no sossego da beira do rio em Surubim para tentar lembrar da mãe, morta quando ele tinha pouco mais de um ano.
Encontramos duas Alaídes, uma em Salgadinho, outra no vilarejo de Poço do Pau. Além do nome, as duas senhoras têm em comum a excelente memória e o fato de enxergarem ta beleza do Capibaribe cheio, indomável, arrastando árvores, bichos e pedaços de vilas.

De manhã, numa casa humilde em Passira, foi difícil conversar com Tiago Ramos, forrozeiro e poeta popular que largou a sanfona por causa da surdez. A dificuldade em nos fazer entender foi proporcional à emoção do velho cordelista em lembrar dos tempos em que cruzava o País com seus “Cangaceiros do Baião” e arrumava namoradas em tudo quanto é lugar. Ele não deve ter exagerado seu talento de sedutor, pois quando perguntamos às Alaídes se elas lembravam de ter visto Tiago tocar na região, as respostas positivas vieram antecedidas de suspiros ou elogios rasgados à sua beleza.
Encontramos muitas outras pessoas admiráveis, ávidas para contar do seu jeito as histórias do lugar onde vivem e de suas próprias vidas.
Por enquanto, o título do livro – cujo projeto de pesquisa está sendo apoiado pelo Funcultura – deverá ser Um Rio de Gente, mas ainda pode mudar, e terá muitas fotos de Tuca Siqueira. Nossa intenção é que os alunos das dezenas de escolas públicas que receberão o livro sintam que o Capibaribe traz mais do que água, sedimentos e sujeira, mas carrega para o mar o sentimento de dona Margarida, que até hoje guarda com carinho o último brinquedo que ganhou do pai em 1927; ou a história de amor do sujeito que esperou 59 anos até conseguir casar com a mulher que amava; ou a percepção do homem que tem tanta intimidade com a natureza que conta os arco-íris que surgem no céu de sua cidade desde o ano de 1943.
Espero que o produto do nosso esforço fique à altura da generosidade dos homens e mulheres que nos acolheram e nos entregaram tantos tesouros do passado ou da imaginação.
6 Comentários
Inácio,
Estou, juntamente com minha namorada, abrindo uma locadora de livros aqui em Recife (http://sites.google.com/site/aluguebooks/) e gostaríamos de divulgá-la no seu blog. Para tanto também divulgaríamos seu blog, o qual sou leitor assíduo, em nosso site.
Agradeço a atenção e aguardo contato (mesmo que a resposta seja negativa).
Oi, sou de Santa Cruz do Capibaribe e gostaria que vc, se pudesse, adiantasse quem você entrevistou por essas bandas e contasse um pouquinho da história que coletou com ele.
Rodrigo,
entrevistei Zé Ferrão, morador do distrito de Poço Redondo; dona Margarida Aragão, no centro da cidade; peguei algumas informações com o professor Arnaldo Vitorino. do outro lado, no distrito de São Domingos (Brejo), conversamos com dona Nice, artesã.
Devo dizer que estou com inveja de você, viajante de narrativa em narrativa. Boa sorte, Inácio!
Oh Inácio… tô morrendo de vontade de ler uma – só uma (por enquanto) – dessas histórias colhidas e ouvidas por vocês. Me manda uma! É um pedido-de-uma-contadora-de-historias-cheia-de-curiosidade… Quem sabe não fazemos uma parceria pra lançar o livro em algumas dessas cidades…
Boa tarde seria possivel o email de contato do arquiteto Alexandre Savio? Gostariamos de convida-lo a palestrar sobre recurso hidricos em nosso seminario aqui no Sul.
Obrigado
Leticia Menger
omgsustentavel@gmail.com
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[...] um texto para o Unicef da Amazônia ou assumo a função de escriba daquele projeto do Funcultura do qual falei há alguns dias. E, agora, cansado, doido para chegar em casa e fazer uma salada para minha Geórgia, cá estou [...]
[...] nada novo por aqui, quem estiver interessado sobre o livro que estou escrevendo pode ler postagens Um livro em Gestação e A Parabólica do Seu Inácio. Enviar por email – Imprimir Tags:falta de tempo, Funcultura, [...]