Com pesquisa, edição e texto de minha humilíssima pessoa e fotos de Tuca Siqueira, será lançado na próxima quinta-feira, dia 25 de março, o livro Um Rio de Gente, resultado de quase seis meses de viagens e e entrevistas com velhos moradores de comunidades banhadas pelo rio Capibaribe, da nascente em Poção até o estuário no Recife.
O lançamento será às 19h, no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, o Mamam, na rua da Aurora, 265 (no trecho entre a avenida Conde da Boa Vista e a rua do Riachuelo). Para quem for de carro, recomenda-se o acesso pela rua da União.
O livro não será comercializado, afinal foi todo bancado com recursos públicos do Funcultura (pesquisa e parte do custo de impressão) e Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco (a outra parte da impressão. Serão distribuídos 300 exemplares entre aqueles que aparecerem lá no lançamento. O resto da tiragem de 2.000 exemplares serão distribuídos para as bibliotecas públicas e escolas da rede de ensino dos municípios banhados pelo rio. O projeto do Funcultura foi coordenado pelo gestor de recursos hídricos e produtor cultural Alexandre Ramos. Já o projeto gráfico foi criado pela Via Design.
Pra dar o gostinho, publico abaixo um dos capítulos do livro. Ou melhor, quase, essa é uma versão que tenho em meu computador, sem as correções finais, feitas pouco antes do livro seguir para a gráfica.
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“Eu andava a pé até Limoeiro pra comprar livro”
Tiago Ramos está completamente surdo. O mais conhecido sanfoneiro e poeta popular de Passira, hoje, é um homem de ar triste e poucas palavras que, sentado na calçada de sua acanhada casa, passa a maior parte dos seus dias quieto, observando o movimento do comércio próximo ao centro da cidade. Quando não está vendo o mundo sem escutá-lo, está na sala, lendo livros de histórias de páginas amareladas ou com caderno e caneta na mão, escrevendo versos sobre as coisas que viu, viveu ou ouviu falar.
Quando consegue reimprimir os folhetos de cordel que escreveu ao longo de décadas, o poeta os coloca à venda na feira ou nas festas da região, conseguindo um dinheiro extra para complementar a aposentadoria. Tiago sempre teve de lançar mão de múltiplos recursos e talentos para sobreviver. Como a poesia e a música nunca renderam o suficiente para garantir uma vida tranquila, ele também teve que trabalhar como marceneiro e pedreiro.
Aos 84 anos, alimenta o sonho de publicar um livro com mais de 600 poemas, obra que iria se juntar aos quase 60 folhetos e livretos que já publicou. Editar o livro se tornou uma ideia fixa, uma verdadeira obsessão:
“Tudo o que eu quero fazer na minha vida é esse livro. Eu queria ver se achava um patrocinador para fazer isso”.
A música o tornou famoso, mas palavra escrita é sua paixão desde a infância. O pai, o cantador de viola Manoel Ramos da Silva, nunca deu importância à educação dos filhos. Tiago cresceu entre agricultores no Sítio Caçatuba, mas logo cedo percebeu que não tinha vocação alguma para a lavoura. Obsessão semelhante a essa que o motiva a insistir na publicação do livro, o levou a se alfabetizar.
“Eu gosto muito de colecionar histórias. São coisas que eu tenho paixão: História, Geografia e Matemática, eu não aprendi com ninguém, meu professor fui eu mesmo. Quando fui para a escola, já sabia fazer duas contas e assinar o meu nome”.
“Passava pela escola e escutava os meninos dizer bê-a-bá, bê-é-bé, fui decorando aquelas palavras, a carta de ABC. Ouvindo os alunos dizer as coisas, eu aprendi. E, depois, eu comecei a conhecer tocador de viola, os cordelistas nas feiras naquela época. No ano de 60, eu comecei a escrever as poesias populares”.
“Tinha uma jangada pra atravessar de Pedra Tapada para São Vicente, que já era Limoeiro. Eram essas coisas assim, essa dificuldade, naquele tempo tudo era difícil. O sonho da minha vida era estudar, eu andava a pé até Limoeiro pra comprar livro, eu só andava com livro debaixo do braço. O pessoal dizia: ‘Tiago de seu Mané tá ficando meio doido, só anda com aquele livro debaixo do braço’.”
“A professora disse: ‘Vão construir a escola’. Eu fiquei doido. Na escola daqui, minha primeira professora foi Maria Alves de Lima. Ela perguntou: ‘Você aprendeu com quem?’ Eu fiz até o terceiro primário. O terceiro ano primário, naquela época, é o segundo grau de hoje”.
Tiago estudou, aprendeu e ensinou. Seu cordel de maior sucesso de vendas conta a história de Passira em versos. O folheto é comprado principalmente por alunos e professores da cidade. Isto o deixa orgulhoso, pois ele sempre alimentou o desejo de ver as crianças de sua terra bem informadas sobre o lugar em que nasceram.
“Passira antigamente era Malhada do Boi. Esse nome já se foi há muitos anos, quando era um povoado, não tinha o nome da serra. Passira hoje é a terra da cerâmica e do bordado. Nos anos 40, foi mudado o nome para Passira devido à Serra da Passira. Foi o escritor Mario Melo, ele queria botar outro nome, mas disse: ‘Não, vamos botar o nome da serra’. Passira começou como Malhada, depois foi Malhada do Boi”.
“Em Passira, tinha muita história. O povo daquela época tinha que beber água salgada na cacimba, ia buscar no Capibaribe, eram mais de 100 pessoas numa fila, esperando que a água jorrasse devagarinho para trazer um potezinho na cabeça”.
Uma das coisas que Tiago gosta de lembrar é da cheia de 1975. Apesar de morar na cidade, situada numa elevação distante do curso d’água, e ter sido pouco afetado pela elevação das águas do Capibaribe, aquela enchente mudou sua vida. Por conta do seu talento como carpinteiro, foi contratado para fabricar os novos móveis da residência do casal Maximiano Campos e Ana Arraes, filha do ex-governador Miguel Arraes de Alencar, que, em plena ditadura miltar, vivia no exílio.
“O que eu sei do rio e das enchentes, é sobre a enchente de 75. Tava ruim de vida, na minha arte não tinha inverno. Foi quando botei a mala de ferramentas na cabeça, fui trabalhar no Recife, fui parar na casa de Eduardo Campos”.
“Eu tava trabalhando na casa de um fazendeiro que é daqui e conhecia muito a família de Arraes. Dona Ana pediu: ‘Seu Trajano, arrume um marceneiro para os móveis da minha casa, que os móveis estão tudo estragado, sujo de lama, acabou-se tudo’. Aí, o fazendeiro disse: ‘À tarde, a senhora venha cá, vou mandar ele. Aí, dona Ana foi lá me chamar. Passei 10 anos lá. Eduardo tinha 11 anos. Na época, o irmão dele tinha sete anos de idade, Antônio”.
“Eduardo Campos, ele já grande, eu trabalhando lá, ele subia nas minhas costas e eu dava voltas com ele. Aí doutor Maximiano[1] dizia: ‘Deixa Tiago trabalhar Eduardo, sai daí’. Depois, eu fui trabalhar na casa de doutor Ariano Suassuna. Dona Zélia disse: ‘vamos comprar o material que falta’. Em todo canto do Recife tinha uma pessoa conhecida minha. Dona Zélia dizia: ‘Você é conhecido que só!’.”
“Mas aquela cheia de 75, ninguém nunca viu uma coisa daquela, não. A ponte velha de Limoeiro, quando dava cheia, só chegava até três metros da varanda pra baixo, mas, na cheia de 75, foram três metros da varanda pra cima. Arrasou com a rua da Barriguda: 140 casas, a água levou tudinho . A praça de Limoeiro, levou todinha. Ali ficaram mais de 10 barcaças socorrendo o povo, a gente ficou inundado”.
Antes mesmo de conhecer a família Arraes, Tiago sempre gostou de acompanhar a política, além de colocar seu talento a serviço de alguns candidatos. Não todos, só para aqueles de quem gostava. Miguel Arraes era um deles. O outro era o famoso coronel Chico Heráclio, o mais famoso líder político do Agreste pernambucano nos tempos da riqueza gerada pelo algodão e pela cana-de-açúcar.
“Muita gente achava ele ruim, mas, para mim, ele era bom demais. Quem não gostava era gente que comia dinheiro dele e votava contra”.
“Teve um comício do Coronel Chico lá em Limoeiro, no tempo de Miguel Arraes. Ele nunca tinha falado em comício, mas aí ele disse: ‘Francisco, vá anunciar que eu vou falar hoje a noite para o povo’. Foi aquele rebuliço medonho. Quando foi de noite, tava assim de gente, não cabia mais. Todo mundo queria ouvir o Coronel Chico falar. Quando foi na hora do comício, botaram um caminhão grande, luzes, uma banda de música. Aí lá vem o Coronel Chico. Tinha um caminhão alto, aí ele disse: ‘Segura minha mão aqui’. Um cara veio e empurrou a bunda dele, aí ele disse: ‘Tira a mão daí filho-da-puta!’ Foi uma risadagem. O que ele falou foi: ‘Eu vou apoiar Miguel Arraes, faz 14 anos que eu tô por baixo, agora eu vou apoiar Miguel Arraes’. Ele não sabia falar em comício, não”.
Apesar de seu afeto pelo coronel, Tiago deixa claro que não sente saudades da forma como a autoridade era exercida naquele tempo:
“O povo hoje não que saber dessas coisas mais não. O Coronel Chico viveu aqui, na hegemonia, por uns 40 anos. Quando ele apontava ali, a pessoa já tava toda tremendo de medo. Isso acabou-se! Medo de político acabou-se! Senhor de engenho poderoso como naquela época não existe mais não, eles estão é levando chumbo pelas costas”.
O poeta não é respeitado em Passira apenas por conta de sua ligação com a família do atual governador. Sua intimidade com a sanfona, como forrozeiro do grupo Cangaceiros do Baião, é admirada pelos que ainda lembram ou ouviram falar de suas apresentações nas principais festas das cidades da região e de outros estados, principalmente Paraíba e Ceará.
“Depois de aprender a ler, comecei a tocar um fole de oito baixos. Com o ouvido estourado, assim mesmo escutava alguma coisa. Comecei no fole de oito baixos, depois com a sanfona pequena, de 24 baixos. Depois Luiz Gonzaga me deu uma sanfona com 120 baixos, aquela dali que tá no retrato”.
“A sanfona quem deu foi Luiz Gonzaga por intermédio do professor Vilaça[2], de Limoeiro, que me via tocar. Trouxe a sanfona, não era nova não, mas era boa. Inventei de ir para São Paulo e dei fim, se fosse hoje o pessoal pagava só para ver”.
“Eu andei muito pelo sertão, tocando sanfona por esse mundo afora. Arranjei muita namorada, as garotas faziam questão, batiam na minha titela. Hoje, as garotas quando me vêem, se torcem”.
“Passei 35 anos tocando sanfona, depois veio essa… esse negócio do ouvido. Já abalei esse mundo todinho para comprar um aparelho para o ouvido e ninguém me ajudou, também agora não quero mais, já tô velho”.
Do aparelho de audição, Tiago desistiu. Do livro de poesia, jamais.
“A mocidade vai embora
e não voltará novamente
os dias de nossas vidas
vão embora de repente
isto é um grande exemplo
a gente gastando o tempo
e o tempo acabando a gente”
“O tempo me envelheceu
não tenho o que fazer
perdi minha mocidade
nada mais tenho a perder.
O tempo descobre o tempo
não tenho magoa do tempo
que me fez envelhecer”
“A velhice traz ao homem
fraqueza e tremedeira,
vista curta e catarata,
reumatismo e cegueira,
cabelo branco e calvície,
e nervosismo e caduquice,
disenteria e canseira”
[1] O escritor Maximiano Campos, já falecido, pai do governador Eduardo Campos
[2] Professor Marcos Vinícius Vilaça, ministro do Tribunal de Contas da União
12 Comentários
Olá, Inácio! Meu nome é Paula, escrevo para o blog Meu Recife é Assim. Fiquei sabendo do lançamento do livro e gostaria de fazer a divulgação no meu blog. Para isso, gostaria, também, de fazer uma pequena entrevista (por e-mail mesmo) com você a respeito da obra. Seria possível? Procurei um contato seu no blog mas não encontrei. Se você puder, entra em contato comigo através do e-mail pbrasileiro@yahoo.com.br Obrigada e parabéns pelo trabalho.
299 livros serão distribuídos no lançamento, pois, 01 já é meuuuuu….
Linda iniciativa…..A amostra acima, com gosto de quero mais, é tocante…
Parabéns, Inácio e Governo PE…
Se a Drª Jane garantiu o dela, então agora só sobraram 298 , afinal depois de acompanhar toda a edição com a equipe da VIA DESIGN( Nara, Dani, Cláudia, Eduardo e eu no meio), já tive mais que o gostinho disso que Inácio deixou.. Parabéns ao Alexandre Ramos, Inácio, Tuca e a VIA.
Filhos feitos, livro escrito, agora falta a árvore! Quero plantar muitas com você…
Beijos
Rapaz, se eu estivesse aí eu ia. Só de ler o endereço, “Rua da Aurora”, já dá um negócio bom nas engrenagens da imaginação. Bom lançamento e vida longa para “um rio de gente”.
Inácio,
Tenho certeza que o curso do rio não será mais o mesmo depois do seu livro.
Parabéns pelo livro que consegue expressar em palavras e em imagens alguns dos sentimentos que até então eram desconhecidos.
Cordialmente,
Ravi.
Meu amigo,
Parabéns pelo livro. Infelizmente não pude comparecer ao lançamento, mas já soube que foi um sucesso.
Um fraternal abraço.
Simmmm,finalmente o livro chegou.Estou lendo Dublinenses e a culpa é sua!
Olá eu não conseguir comparecer no lançamento como faço para conseguri um livro ( um rio de gente).
Agradeço desde de já.
Tu és parente?
informa teu e-mail para a gente combinar. Se vc. for do Recife, nos encontramos por aqui e te entrego um exemplar.
Inácio
Sou de Recife, meu email é jean.franca14@gmail.com.
Inácio, parabénas pelo livro, por dar voz e mostrar a cara (massa estão as fotos de Tuca Siqueira, também) dessa gente, que somos nós. Passando a vista por algumas histórias, me vieram à cabeça duas lembranças: 1. uma frase de Romero Amorim, quando foi condecorado na Câmara de Vereadores do Recife, alguns anos atrás: “Obrigado, Capibaribe, por me ensinar a nadar nos seus braços!”; 2. A música (um forró-ambiental, como ele a classifica) de Tales Ribeiro, cantada todo domingo lá no Mamulengo, pela banda Vôte! O que é Isso?: “Capibaribe, vamos cuidar desse rio/ esse rio mata a fome/ninguém cuida desse rio [...]“. Quando eu o encontrar, vou dizer que tem gente que cuida, sim!
Olá Inácio!
Sou de São Paulo e gostaria de saber como faço para adquirir o seu livro. Fiz uma pesquisa em algumas livrarias (Cultura entre elas) e não o encontrei.
Desde já agradeço pela informação!
Rogério
Um Trackback
[...] sei porquê, deveria estar dormindo depois de autografar uns 290 livros no lançamento de Um Rio de Gente mas acordei no meio do estádio Saint-Jakob, na Basiléia. Era a Copa de [...]