Viagem ao Crepúsculo (revisado)

cubacapaAntes de escrever a primeira linha para esse blog, convivi muito tempo com ele dentro da minha cabeça, transbordando da minha vontade. De tanto pensar nele, criei intimidade com a ideia do Caótico, aquela intimidade que se tem com projetos muito acalantados e ainda não realizados. De tanto pensar na ideia, o dono da ideia se atrapalha com a realidade. De tanto conjugar os verbos no futuro do pretérito, o sujeito se cansa e passa a fazer as conjugações, como se o projeto fosse já uma verdade.

Hoje, no início do segundo mês de existência do blog, ainda estou tateando em busca de uma linguagem, de um formato, de um texto que me satisfaça. Aquilo que tanto tinha imaginado está, na verdade, distante daquilo que quero. Entre vacilos e dúvidas, poucas certezas. Uma delas, porém, está bem nítida: o Caótico não é instrumento para impulsionar os lançamentos das editoras. Daí, não farei resenhas de livros brilhando de novo nas prateleiras colocadas junto às portas das livrarias. Compartilharei livros realmente lidos.

Mesmo com essa convicção, hoje escrevo sobre Viagem ao Crespúsculo, do meu amigo e companheiro de Blog do Santinha, Samarone Lima. É um lançamento, mas eu já li o danado todinho, pois enquanto ele escrevia, me mandava os arquivos de word para que desse meus pitacos e fizesse a primeira revisão. Acho que para reforçar sua já folclórica imagem de abestalhado, Sama aceita muitas das minhas sugestões.

A primeira recomendação é simples: não deixe de ler a orelha de Viagem ao Crepúsculo, escrita por Sérgio Buarque. O texto curto define bem o livro, prepara o leitor para a importância do que vai ler enquanto acompanha o autor nas salas das humildes casas dos cubanos ou em suas andanças pelas ruas de Havana caindo aos pedaços.

Não foi a intenção do escritor, mas os curtos capítulos do livro têm uma senhora importância política para os militantes dos partidos de esquerda que tiverem a coragem de lê-lo com o coração aberto para aquilo que o outro tem a dizer, com disposição para sentir e pensar com liberdade. O peso político de Viagem… reside nos relatos de gente simples de Cuba, pessoas comuns que não são filiadas ao “partido” nem trabalham na máquina burocrática da administração.

São relatos de pessoas que falam de sofrimento, de miséria e de um cerco opressivo dos cabuetas e da polícia. Sim, sei do boicote norte-americano, sei que tudo poderia ser bem melhor sem a política sacana dos Estados Unidos. O problema é que, no interior da ilha sitiada, outros cercos se estabeleceram.

Mas durante a leitura dos capítulos soltos que Sama me enviava por e-mail, eu me lembrava que, quando sonhava com o socialismo, sonhava com o fim da injustiça, com uma sociedade mais justa e um mundo melhor para a maioria das pessoas. Não sonhava com um mundo melhor para mim e para quem se filiou ao mesmo partido que eu.

Meu filho Pedro usa, e por mim continuará usando, um boné que é réplica dos bonés usados pelo guerrilheiros da Sierra Maestra. Para ele, o boné com a estrela vermelha e a bandeira de Cuba representa o sonho de um mundo mais justo, com um mundo no qual os interesses da maioria sejam subalternos à necessidade do lucro ilimitado. Mas as vidas de Martin, Pedro e Celeste revelam em Viagem ao Crepúsculo que precisamos aprender com aqueles que sonharam antes de nós e ousaram construir o socialismo real. Precisamos aprender que eles não tinham respostas para tudo e erraram mais do que acertaram.

Esses cubanos, que Samarone traz para perto de nós, alertam que sonhar só nos torna seres humanos especiais se nossos sonhos melhorarem a vida das pessoas.

Sobre o escritor

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Samarone (de camisa roxa) se achando todo importante ao lado de João Cabral de Melo Neto

Samarone nasceu no Ceará, mas vive em Pernambuco desde 1987 (com um intervalo de seis anos em São Paulo). É Jornalista, blogueiro, escritor e torcedor do Santa Cruz. Vive anotando tudo que o vê ou escuta em caderninhos que leva na bolsa, mas de vez em quando perde um desses cadernos num balcão de bar ou no ônibus. Como ele é meu amigo, podem ficar à vontade para dar um desconto nos elogios que porventura eu faça.

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4 Comentários

  1. Lea Cavalcanti
    Publicado 31 de julho de 2009 em 12:16 | Permalink

    Inácio

    Achei ótimo esse texto.

    Fiquei morrendo de vontade de ler a Viagem… (a propaganda foi bem feita).

    E, lembrei automaticamente do meu atual companheiro de cabeceira*, A face da Guerra (que agora estou economizando pra demorar a acabar) e de todas as pessoas que sofreram e sofrem com seus governos e ‘suas’ revoluções. Parece que em todos os lugares do mundo e em todos os tempos as donas de casa, os comerciantes, os agricultores, os profissionais liberais, as crianças (principalmente) e até os soldados, são os que menos entendem e os que mais sofrem, por causa dos ideais de poucos (independentemente de suas intenções).

    E o bicho homem é o mesmo desde Adão e Eva, Caim e Abel, uns bons, outros ruins, e outros piores ainda, e uns poucos, muito poucos, ótimos.

    Lea

  2. Publicado 31 de julho de 2009 em 16:34 | Permalink

    Inácio,
    o Sérgio Buarque, da orelha, é Sérgio Miguel?

  3. Publicado 31 de julho de 2009 em 21:06 | Permalink

    Não Fabiana, esse Sérgio Buarque não é Sergio Miguel Buarque, que deixou dois comentários sobre o livro Contos Povoados de Povo. Segundo Samarone, esse Sérgio Buarque é sociólogo.

    O lançamento do livro será no dia 5 de agosto, quarta-feira, no bar Mamulengo, na praça do Arsenal, às 19h

  4. samarone
    Publicado 1 de agosto de 2009 em 5:36 | Permalink

    França, um reparo:
    Abestalhado não, prefiro tabacudo.
    O texto está uma beleza, lembra a orelha.
    Obrigado pela leitura prévia. Ajudou pacas.
    Sama

    ps. o Caótico está ficando na medida.

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