Vinicius, o poeta camarada

Durante as férias compulsórias do blog, o leitor Arsênio Meira Júnior enviou essa homenagem ao poetinha. Não deu para publicar naquela época. Agora vai:

*****

por Arsênio Meira Júnior

No dia 09 de Julho de 1980 o “Poeta Camarada”, Vininha, amanheceu e sentiu-se mal. Já vinha de longas internações. Com o fígado em petição de miséria, mal conseguia locomover-se.

Havia passado a noite compondo com Toquinho canções infantis.

Vinicius é uma espécie de entidade. Uma lenda mesmo.

Foi – sem dúvida – um dos Poetas que mais me marcaram.

Dele sei de cor até hoje alguns sonetos.

Meu irmão caçula, André, começou a ler Vinícius muito cedo. E ouvir bossa nova. Tenho orgulho disso. As lágrimas agora chegam aos meus olhos.

Mas Vinicius foi um Poeta cujos companheiros de geração (embora ele fosse o caçula), foram nada mais, nada menos que: Cecília Meireles, Drummond, Manuel Bandeira, Murilo Mendes (foi um dos que inspiraram Vinicius no começo de sua vida literária), Schmidt, João Cabral e Jorge de Lima.

Vinicius, capaz de escrever um dos poemas mais belos da Língua portuguesa:

Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos  —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será nossa vida.
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos   —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não  esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte  —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.”

Depois de ter curtido a vida dos sonetos, poemas e baladas, teve a coragem de despojar-se do paletó e da gravata, para colocar a camisa de malha preta, aberta no pescoço e de mangas arregaçadas, e com encanto, tecer a Bossa Nova, ao lado de Tom, João Gilberto e da rapaziada.

O lápis já não batucava sílabas, mas compassos. Quase toda a sua grande poesia estava escrita e a música popular abria-lhe novos caminhos (regados a quantidades industriais de whiskys e noites inteiras nos bares).

Uma canção como “Chega de Saudade” permitiu-lhe rimar “peixinhos” com “beijinhos”, o que talvez ele não fizesse num poema. Essa transição exigiu coragem.

Antes de Vinicius, a mulher da música popular era a vilã, a ingrata traidora, destruidora de lares, a puta. O amor, impossível. Antonio Maria (de quem Vinicius foi um dos melhores amigos) era o letrista que dizia “ninguém me ama, ninguém me quer”; em contraponto ao mundo ensolarado da bossa-nova, da qual Antonio Maria foi um inimigo histórico e clássico, mas de Vinicius não.

Com Vinicius, eram outros quinhentos: ele escrevia “Eu sei que vou te amar” e “Bom mesmo é amar em paz, brigas nunca mais” e no boteco da esquina, aquecia-se para a noite e os mistérios da alma feminina.

Devemos a ele o renascimento do lirismo na música popular Brasileira. Devemos a ele, a Garota de Ipanema, a estrela derradeira.

Daí em diante, eis uma nova história. Incentivou, ajudou, aconselhou e acompanhou o filho do seu amigo Sérgio Buarque de Holanda. Viraram parceiros, beberam juntos. Com Tom Jobim, um outro universo abriu-se, de música e poesia.

Aliou-se a um rapaz moço, excelente caráter, instrumentista de primeira linha, Antonio Pecci Filho, o popular Toquinho.

O tempo passando, e os casamentos (foram nove) iam se sucedendo com velocidade de um jato. O antigo melhor amigo (sim, aquele mesmo, o velho whisky, o cachorro engarrafado), tornou-lhe prisioneiro.

Vinicius morreu praticamente sem andar, já com as funções hepáticas mortas, numa dilaceração total causada pelo alcool.

Drummond, recluso havia mais de 20 anos, (chamavam o nosso Poeta Maior de Urso Polar), quando soube que Vinicius morreu desatou a chorar.

E no dia do enterro, foi dar adeus ao seu colega-amigo de ofício.

Antes de baixarem o caixão, Drummond declamou – em homenagem ao amigo que partia – o soneto Poética I.

E depois – ao tentar sair de mansinho – não conseguiu se desviar de um enxame de repórteres que o abordou.

“Foi o único entre nós que teve a vida de Poeta, o único que viveu como Poeta”, disse.

Obs – Eu dedico este texto a minha mãe Marlene Meira, o irmão caçula André Meira e aos meus amigos André Gustavo, Domingos Sávio, Osvaldo Soares Neto e João Carlos W. de Mendonça.

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7 Comentários

  1. Clávio Guimarães
    Publicado 15 de julho de 2010 em 12:00 | Permalink

    Grande Arsenio, valeu!
    Vinicius, pensou eu, foi mesmo um divisor de águas, e corojaso, deu-nos sua contribuição para o surgimento da bossa nova e daí em diante, João Gilberto e cia refizeram a história da nossa MPB.
    Impagável.
    Digno desse texto.
    E parabéns ao blog Caótico.
    Venho pegando dicas interessantes com vocês.
    Mia Couto sempre foi um escritor que deixei de lado.
    Ao ler a resenha do “Fio das Missingas”, mudei de ideia.

  2. João Roberto Gomes
    Publicado 15 de julho de 2010 em 12:39 | Permalink

    Maraviha Arsenio.O texto é tão bom (do jeito que eu gosto de ler), prosa e poesia. E no meio do caminho ou do texto, a transcrição do Poema de Natal.

    O cidadão que escreve um poema desses já garante seu lugar na eternidade.
    Na minha opinião, Vinicius de Moares não precisaria fazer mais nada.

  3. Jonas Duarte
    Publicado 15 de julho de 2010 em 17:06 | Permalink

    Vinicius merece.
    Talvez um dos maiores sonetistas que nós tivemos.

    Muitos versos de sua autoria entraram para o imaginário popular.
    Como fã do Poeta, compositor, cantor e boêmio, que se intitulava o branco mais negro do Brasil, parabenizo o Autor deste Artigo leve e construtivo e também o editor do Caótico, que sendo generoso, não se faz de rogado e abre alas para a banda passar.

    Interatividade e generosidade são duas atitudes que marcam este espaço.
    Abraços

  4. Luis Carlos Monteiro
    Publicado 16 de julho de 2010 em 1:10 | Permalink

    “Poeta, meu poeta camarada…
    Poeta da pesada, do pagode e do perdão,
    Perdoa essa canção improvisada,
    em tua inspiração,
    de todo Coração,
    da moça e do violão,
    do fundo…
    Poeta, poetinha vagabundo
    Se todos fossem assim feito você…
    Que a vida, não gosta de esperar,
    A vida é pra valer, a vida é pra levar
    Vinicius, velho saravá!!”

    (Chico Buarque – Toquinho).

    Pra iluminar o blog e o belo artigo.
    Bravo, bravíssimo!

    Luis Calos Monteiro

  5. Luis Carlos Monteiro
    Publicado 17 de julho de 2010 em 0:35 | Permalink

    Aqui vai uma recomendação: “Vinicius de Moraes: o Poeta da Paixão – uma biografia”, de José Castello.
    Procuro não me viciar em biografias. Prefiro ler a obra. Não é pose, nem quero passar uma imagem errada.

    Mas essa biografia de Vinicius é essencial.
    Abraços

  6. Geórgia Araújo
    Publicado 18 de julho de 2010 em 10:35 | Permalink

    Arsênio,
    Vinícius também marcou a minha vida, gosto da poesia e das músicas e também adorei o documentário feito sobre ele.
    Parabéns pela forma como você escreveu sobre ele!

  7. Arsenio Meira Junior
    Publicado 18 de julho de 2010 em 11:32 | Permalink

    Obrigado a todos. Geórgia, aquele documentário (de Miguel Faria Jr.) foi definitivo mesmo. A cena em que Caetano Veloso, Ferreira Gullar, Edu Lobo, Maria Bethânia e Chico Buarque se intercalam na leitura do poema “Pátria Minha” já dá bem a idéia do quanto é imperdível.

    Luis, o livro que você recomendeu é também de primeira linha. Assim com o “Samba pra Vinicius.

    Abraços

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